Quando pensamos na onça-pintada no Brasil, geralmente vem à mente regiões como Pantanal e Amazônia. Porém, o maior felino das Américas já teve uma distribuição significativa na Mata Atlântica e, especificamente, em Santa Catarina. Dois pesquisadores reuniram e analisaram 16 registros fotográficos históricos da espécie em território catarinense e conseguiram traçar um quadro da presença do animal no Estado, a maioria nas regiões Oeste, Norte e Vale do Itajaí.

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As informações reunidas pelo estudo sugerem que a onça-pintada teve larga distribuição em Santa Catarina. Porém, a estimativa da área de ocupação da espécie de forma precisa é difícil. O estudo foi publicado no periódico internacional de biologia Journal of Threatened Taxa (algo como Periódico das Espécies Ameaçadas). A onça-pintada tem o nome científico Panthera onca.

Atualmente, o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) estima que há menos de 50 indivíduos adultos da espécie em vida livre no Estado, sendo o último registro há mais de 40 anos. As fotos analisadas pelos pesquisadores, geralmente do animal morto ou capturado, são de jornais, museus ou particulares.

O estudo foi feito por Pedro Henrique Amancio Padilha, estudante de Medicina Veterinária da Universidade da Sociedade Educacional de Santa Catarina (UniSociesc) unidade Joinville, e pelo professor e biólogo Jackson Fábio Preuss, pesquisador da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc). Segundo Padilha, a pesquisa nasceu da inquietação diante da ausência de informações sistematizadas sobre a onça-pintada em Santa Catarina.

— Sempre me intrigou muito saber por que ela desapareceu, apesar de a gente ainda ter vastas extensões de mata nativa no Estado. Quando eu comecei a procurar, percebi que praticamente não existia material sobre Santa Catarina, enquanto outras regiões do país eram muito mais documentadas — declarou o pesquisador.

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Foi feita uma seleção rigorosa dos registros que serviram como base para o trabalho.

— Nosso principal critério foi que todos os registros precisavam estar acompanhados de fotografia, fosse de abate ou de captura viva. A gente excluiu relatos orais, espécimes de museu e imagens com qualquer dúvida sobre a localidade exata — disse Padilha.

Fotografias cuja origem poderia ser confundida entre Santa Catarina e estados vizinhos também ficaram de fora. Ele espera que o trabalho sirva de base para outros estudos e políticas de conservação em Santa Catarina.

Os principais obstáculos encontrados pela equipe para fazer um mapa preciso das áreas habitadas pela onça-pintada no estado catarinense foram: falta de documentação histórica consistente; informação sobre a presença da espécie está dispersa em documentos não organizados, relatos orais e registros em jornais; lacunas e inconsistências na documentação; o fato de a onça ser uma animal solitário em um território grande.

— Resgatar esses registros históricos é fundamental para mostrar que a espécie fazia parte da Mata Atlântica catarinense e que seu desaparecimento está diretamente ligado às ações humanas. Conhecer o passado é o primeiro passo para planejar o futuro: só a partir dessa reconstrução histórica é possível pensar em estratégias reais de conservação, não apenas para a onça-pintada, mas também para outros felinos e grandes vertebrados do Sul do Brasil — declarou Preuss.

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Confira os registros

Caça predatória e declínio da população explicam sumiço

O estudo mostrou uma triste realidade sobre a diminuição da população de onças-pintadas no Estado. Os principais fatores foram: caça predatória, de retaliação e esportiva, para mostrar o animal como um troféu; perda de habitat; perseguição por medo do animal, apesar de ataques de onças a humanos serem raros; declínio da população de presas para a onça.

Nas fotos, a predominância de onças caçadas sugere que esse foi um fator central para o declínio da população da espécie em Santa Catarina. Do total de registros, 13 correspondem a animais abatidos e apenas três a indivíduos capturados vivos.

A perda de habitat também é considerada, já que isso forçou as onças para áreas de habitação humana. Nesses locais, elas foram abatidas por fazendeiros em retaliação por ataques aos animais criados nessas propriedades.

Além disso, o medo também é fator, já que, desde a época da colonização, a onça é associada a risco à vida humana. Os ataques do animal a pessoas são raros, mas esse temor justificava uma forma de “abate preventivo” da espécie. Em relação à falta de presas para a onça, elas também desapareceram por causa da caça ilegal.

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Na Mata Atlântica, as principais presas da onça-pintada são a anta (Tapirus terrestris), a queixada (Tayassu pecari) e o caititu (Dicotyles tajacu).

Apesar do cenário difícil para a onça-pintada em Santa Catarina, relatos de pegadas e avistagens têm sido mais recentemente relatadas, informou a bióloga do IMA Luthiana Carbonell, que atua na Gerência de Biodiversidade e Florestas do órgão.

As ameaças observadas à espécie, como a caça e abate, atropelamentos em rodovias e contato com animais domésticos, também podem ocorrer em Santa Catarina. No Estado, a onça-pintada está ameaçada de extinção na categoria criticamente em perigo, que é a de maior ameaça. Os pesquisadores esperam que o trabalho possa contribuir para reflexões sobre como preservar e aumentar a população da espécie em Santa Catarina.

— Esse material pode ajudar a pensar áreas que, quem sabe, possam servir como refúgio para a volta da espécie no futuro, principalmente as matas da região Norte que fazem conexão com o Paraná, onde existe a população viável mais próxima — avaliou Padilha.

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Confira algumas curiosidades sobre a espécie

  • É o maior felino das Américas;
  • É o terceiro maior felino do mundo, atrás do tigre-siberiano (Panthera tigris) e do leão (Panthera leo);
    é um predador
  • Faz um papel ecológico importante, de controle da população de presas;
  • Historicamente, podia ser visto do Sul dos Estados Unidos até o Norte da Argentina;
  • Atualmente o território da onça-pintada é metade do que já foi;
  • A população de onças-pintadas caiu 49% nos últimos 50 anos;
  • É uma espécie extinta nos Estados Unidos, El Salvador e Uruguai;
  • No Brasil, a espécie é presente em todos os biomas, com exceção dos Pampas (no Rio Grande do Sul). A maior parte da população das onças-pintadas vive no Pantanal e na Amazônia.

Veja o infográfico