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Entrevista

"Eu me vejo como um assessor privilegiado do presidente", diz Mourão

Hamilton Mourão, vice-presidente da República, expõe ideias e revela rotina desde que assumiu ao lado de Jair Bolsonaro 

11/03/2019 - 06h08

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Por GaúchaZH
Mourão tornou-se um dos principais interlocutores do governo com o público externo
(Foto: )

Por Humberto Trezzi

O relógio marca 5h49min quando a mensagem de WhatsApp aterrissa no celular do repórter. "Nos vemos às 18h na VPR (Vice-Presidência). Abraço". Acordar cedo sempre foi hábito para o vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão, desde os tempos de aluno do Colégio Militar de Porto Alegre, passando por uma vida inteira em quartéis.

Mas Mourão tem batido seus próprios recordes no quesito madrugar. Desde a posse, levanta uma hora antes do habitual para conferir mensagens e checar o briefing de notícias. Mudança e tanto para quem nem sequer tinha Whats até o início de 2018 e só depois de vencer a eleição criou um perfil no Twitter, monitorado por assessores.

Às 6h em ponto, o general de 65 anos começa a se exercitar na academia do condomínio, onde corre cerca de cinco quilômetros na esteira. Uma chuveirada, um rápido café e, depois, o Palácio do Planalto. A corrida contra o relógio ocorre porque Mourão virou um dos principais interlocutores do governo com o público externo, já que o presidente Jair Bolsonaro prefere se comunicar por tuítes, não costuma receber adversários e despacha com seus fiéis escudeiros.

O presidente tampouco domina outros idiomas. Fluente em inglês, Mourão se tornou a esperança de estrangeiros em busca de audiência.

Mais falante e menos arisco do que Bolsonaro, o vice é alvo de uma romaria permanente de empresários, políticos, diplomatas e jornalistas à antessala da Vice-Presidência, situada em um anexo do Planalto.

Paciente, Mourão sorri e tenta dar a palavra a todos, entremeando piadas para desanuviar o ambiente. É assim 12 horas por dia, seis dias por semana, o que inclui viagens país afora — o presidente está impossibilitado dessas maratonas, até por questões de saúde (recupera-se de uma cirurgia destinada a curar a facada que levou durante a campanha política).

Confira a entrevista:

É verdade que o senhor levou um minuto apenas para aceitar o convite de Jair Bolsonaro para ser vice?

Sim. Já tínhamos conversas prévias, nas quais ele disse que poderia precisar de mim. Umas duas vezes ele falou isso, ao longo do primeiro semestre de 2018, ressaltando que buscava um político com maior trânsito... No final, precisou de mim. Um domingo, dia 5 de agosto.

O senhor comandava cerca de 50 mil militares no comando militar do sul (abrange os três estados sulinos). O senhor falava e o pessoal obedecia. O que muda?

Estou aprendendo a fazer política. Sempre me vejo como um assessor privilegiado do presidente. Recebo demandas, ouço, converso, anoto. Quando acho interessante, encaminho para ministros. Em outras, converso com o presidente.

O senhor sempre foi conciliador ou virou após deixar o quartel?

Como comandante militar, você sempre é conciliador. Tem de ouvir teu Estado-Maior, os diversos assessores. Na hora em que tomas a decisão, porém, tens de ser ouvido, impor que seja cumprida. E o maior desgaste do gestor é fiscalizar. Cobrar.

A gente percebeu isso, por exemplo, quando o senhor disse, referente à saída do ministro Gustavo Bebianno do cargo: "de hoje não passa". Uma crise política com apenas um mês e pouco de gestão.

O presidente já tinha me dito isso. Só verbalizei. O que ocorreu foi perda de confiança. Aquela questão do olho no olho. Quando isso acontece, não é possível mais trabalhar junto, concorda? Não tinha saída fora demitir o ministro.

O senhor tem sido uma espécie de algodão entre cristais, concorda?

Não, acho que não... Acho que o presidente tem um estilo e eu tenho outro. Nós nos completamos

O senhor tem algumas diferenças com relação a alguns setores do governo. Os evangélicos, por exemplo, insistem em mudar a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. O senhor discordou, pragmaticamente, acha que isso pode causar problemas com os árabes. Na questão da China, muitos no governo acham que é uma potência imperialista, que quer comprar o Brasil. O senhor acha que a China pode continuar a ser um grande parceiro. Como se lida com essas diferenças?

Olha, enquanto o presidente não decidir, todos nós temos de dar nossa opinião. Ele ouvirá os diferentes pontos de vista e a conclusão dele será a nossa. A questão da embaixada ainda será discutida. Quanto à China, sou presidente da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível. Sou responsável pela aproximação e a política a ser traçada com a China. Não cabe uma guerra fria aí. Muito pelo contrário. Na guerra econômica do mundo moderno, na desaceleração dos níveis de crescimento, que atinge inclusive os chineses, o Brasil tem de aproveitar para se inserir melhor. Buscar o que é melhor para o país.

Vocês não gostam de falar nisso, mas é preciso: há mais de cem militares nos principais cargos do governo. Como aconteceu isso? É um projeto para o país, de aproveitamento de quadros militares no governo?

Já havia alguns quadros importantes no governo federal, sobretudo na gestão Temer. O executivo do ministro Eliseu Padilha, na Casa Civil, era um general do Exército. Acho que ninguém se dava conta disso. Em outros ministérios, na Educação... Agora, quando chega um novo governo e se monta uma nova estrutura, natural que se buscasse quadros no seio do pessoal da reserva das Forças Armadas. Não me meti. Aconteceu naturalmente, uma questão de confiar em quem se conviveu. Claro que, na escolha dos ministros, o Bolsonaro é que escolheu.

Há uma turma de militares no governo, hoje, que esteve a serviço da ONU. No seu caso, em Angola. Vocês têm uma camaradagem que passa por isso, um grupo de Whatsapp?

É uma coincidência natural. Como ficamos 14 anos no Haiti, há duas gerações de oficiais das Forças Armadas que passaram por lá. Quando garimpas os melhores quadros militares, natural que tenham passado por lá, a serviço da ONU.

Conte sobre sua passagem por dois países com regime autoritário de esquerda, Angola e Venezuela.

Olha, em Angola fui observador militar da ONU. Na Venezuela, adido militar na embaixada. São duas situações distintas. No processo de independência angolano, a guerra fria se propagou por lá, só que de forma quente. Facções apoiadas pela União Soviética (no Litoral), pela China (no interior) e pelos EUA. Eu tinha certeza que aquilo só acabaria quando o líder guerrilheiro Jonas Savimbi (da Unita) fosse morto. Foi o que aconteceu, uma guerra civil típica. Já na Venezuela é o caso clássico de tomada do poder pela via eleitoral, como ocorreu na Tchecoslováquia em 1948. Lá os comunistas foram eleitos e depois deram um golpe parlamentar. Na Venezuela, aconteceu o mesmo, Chávez usou a democracia para se assenhorar dos três níveis de governo. Aparelhou Executivo, Legislativo, Judiciário, via eleições fraudadas, conduzidas, com uso do dinheiro do petróleo. Tenho participado de reuniões referentes ao problema venezuelano, que tem de se solucionar de forma pacífica.

O senhor teve uma passagem pelos EUA, também, na adolescência. O que foi fazer lá?

Meu pai, militar, foi morar lá. Ele era assessor do Colégio Interamericano de Defesa, em Washington. Moramos dois anos lá. Aprendi inglês, fiz o quarto ano do ginásio e o primeiro científico por lá. Mantive contato com uma menina de lá durante muito tempo, um namoro adolescente, mas depois perdi o contato.

Mudando de assunto, existe uma certa diferença entre o seu pensamento e o de alguns de seus colegas em relação à aposentadoria dos militares. O senhor foi o primeiro a dizer que os fardados têm de dar sua cota de sacrifício. Outros ministros do núcleo militar discordaram em fazer isso nesse momento. O senhor é um liberal em meio a militares mais estatizantes?

Não. Os meus colegas militares do governo não são estatizantes. Acontece que fui secretário de Economia e Finanças do Exército no governo Temer e era responsável pelas propostas do Exército na comissão que debatia a reforma previdenciária. Sabíamos que tínhamos de ceder em alguns pontos. Melhor isso do que ser surpreendido. Um posicionamento estratégico.

Ainda sobre ideologia, notamos que o escritor Olavo de Carvalho, apoiador do governo, considerado guru e líder ideológico pelo núcleo mais conservador no planalto e pelos ministros da educação, das relações exteriores e dos direitos humanos, tem lhe feito críticas. Olavo é ou foi influência para o senhor?

Não o conheço pessoalmente. Em determinada época, quando ele escrevia para o jornal O Globo, era o único pensador distinto da maioria dos pensadores, que eram de esquerda. Ganhou notoriedade. Depois, ele sumiu, né. Foi morar nos EUA, não vi mais na mídia. Aí reapareceu com esses cursos. Ele tem o papel dele, mas não me influencia.

E quem lhe influencia?

Acho que, se você tem um pensamento liberal, tem de ler os clássicos. Seja na área econômica, seja na democracia ateniense, passando por Chesterton, até chegar em Hannah Arendt. Atualmente estou lendo algo mais divertido, rapaz. As operações Panzer no fronte leste da Rússia, na II Guerra. As memórias do general alemão Gerhard Haus. É um livro que está em espanhol. Aliás, quem tem me presenteado com muitos livros é o meu amigo, desembargador Thompson Flores, do TRF4, em Porto Alegre. É outro fanático por esse tipo de literatura. Estou lendo o livro O Estado Fraturado, do Dennis Rosenfeld, filósofo gaúcho, que de vez em quando aparece por aqui. Tenho lido From Colony to Superpower, que é a história da democracia norte-americana... Treinando o meu inglês. E tem outros em aguardo na prateleira. Sempre (risos).

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