Musa da Gaviões da Fiel, a atriz e dançarina Natacha Horana, de 33 anos, voltou aos desfiles das escolas de samba de São Paulo no Carnaval de 2026 após ficar quatro meses presa na Penitenciária Feminina de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, por envolvimento com uma organização criminosa. Antes de ser presa em 2024, a ex-bailarina do Faustão já havia sido detida em Santa Catarina durante a pandemia de Covid-19, enquanto participava de uma festa ilegal em Balneário Camboriú. (relembre a história abaixo)
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Natacha foi detida em novembro de 2024, durante a Operação Argento, que investigou o líder de uma facção criminosa, Valdeci Alves dos Santos, conhecido como Colorido.
Segundo o Ministério Público do Rio Grande (MP-RN), a ex-bailarina do Faustão teve um relacionamento com Valdeci e teria tido as contas pessoais usadas para lavagem de dinheiro do crime organizado. Ela nega as acusações e diz que foi enganada pelo ex-namorado.
Os promotores potiguares afirmam que as empresas movimentadas pelo líder da facção fizeram vários depósitos para as contas de Natacha, motivo pelo qual ela foi presa.
Veja quem é Natacha Horana
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A musa foi solta em março de 2025, após meses de detenção. No Carnaval do ano passado, afirmava que já estava com a fantasia pronta para desfilar, esperando um habeas corpus da Justiça para entrar na Avenida.
— É o meu quinto ano na Gaviões, onde desfilo desde 2021. Mas essa volta para mim está sendo como uma estreia, porque o Carnaval faz parte da minha vida e da construção da minha carreira. Ano passado eu estava presa, e mesmo assim acompanhei o desfile de lá. Minha fantasia estava pronta para eu poder desfilar, na esperança de eu ser solta. Se eu saísse sábado de manhã, eu iria desfilar. Mas [o Judiciário] entrou em recesso, e o habeas corpus só saiu depois do Carnaval — relatou ao g1.
Ela continuou o relato dizendo que a falta de liberdade foi “traumatizante”:
— Ficar longe e a falta de liberdade de não poder falar, me defender [publicamente], foi muito traumatizante. Agora, estar na Avenida neste ano é uma coisa tipo de renascimento, de liberdade. Tipo: “Meu Deus, passei pelo pão que o diabo amassou, pela vida e a morte, e agora estou reconquistando as minhas coisas”, provando a minha inocência. Então, essa volta está sendo um renascimento.
Ex-namorado da dançarina ainda está preso
Valdeci Alves dos Santos, o Colorido, segue preso na Penitenciária Federal de Brasília, suspeito de lavar mais de R$ 23 milhões do crime organizado. Ele chegou a ser apontado como um dos braços-direitos de Marcos Herbas Camacho, o Marcola, no Nordeste, outro envolvido com a facção criminosa.
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Foragido por quase 10 anos, Valdeci teria se escondido na Bolívia, de onde continuava a atuar no tráfico de drogas da facção. Nesse período, fez procedimentos estéticos para mudar a aparência.
Ele foi preso em abril de 2022, durante uma blitz da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no sertão de Pernambuco, quando viajava com Natacha. Valdeci usava documentos falsos, mas acabou identificado após verificação por biometria facial, que confirmou se tratar de um criminoso de alta periculosidade procurado pela Justiça.
Natacha disse ao g1 que conheceu Valdeci como Joaquim, um empresário e dono de fazendas de gado. No início, ela contou em entrevistas que eles eram apenas amigos. O relacionamento entre os dois durou cerca de três meses, segundo ela.
Mesmo assim, ela foi visitar o ex-companheiro ao menos quatro vezes na Penitenciária de Segurança Máxima de Brasília, onde estão detidos os principais líderes da mesma organização criminosa que provocou a prisão dela. O registro das visitas é uma das evidências que levaram o MP-RN a investigar e pedir a prisão da bailarina.
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Apesar de ter sido solta no final de março do ano passado, Natacha ainda responde processo criminal sob acusação de lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito e de fazer parte de uma organização criminosa.
— Eu o conheci com outro nome, foi um breve relacionamento. Ele me fez alguns PIX e por isso me relacionaram a ele — afirmou ao g1.
Natacha movimentou mais de R$ 15 milhões em 10 anos
Os promotores do MP-RN dizem que, em 10 anos — entre 2014 e 2024 — Natacha movimentou mais de R$ 15 milhões em suas contas. A quantia, segundo os acusadores, é incompatível com a renda dela. Eles afirmam que ela teria sido usada como uma espécie de laranja do líder da organização criminosa.
Na ocasião da operação o MP-RN denunciou à Justiça a bailarina outras 17 pessoas, pedindo o bloqueio na Justiça de R$ 2,2 bilhões em bens dos investigados.
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Natasha afirma, contudo, que a carreira dela foi feita de vários ganhos como artista, fazendo trabalhos de publicidade e outras apresentações artísticas.
— Eu não cometi nenhum crime. Eles estão me associando com isso, mas meu advogado está provando a minha inocência. Fui solta porque eles não tinham prova suficiente para me manter presa. Infelizmente a Justiça demora, mas eu confio que ela vai ser feita. Infelizmente tive que passar por isso, ser presa por uma coisa que não fiz — afirmou ao g1.
Natacha quer publicar livro sobre o que viveu na prisão
Na penitenciária, Natacha diz que quase não comia nem bebia, e que durante o período desenvolveu depressão e síndrome do pânico. Ao g1, ela diz estar em tratamento e que a volta à quadra da Gaviões para os ensaios do Carnaval também faz parte dessa recuperação.
— Foi muito difícil porque eu saí de lá com vários traumas, com depressão, síndrome do pânico e tive que ser medicada. Mas como eu fui muito abraçada pela Gaviões, também foi uma terapia estar ali, danças, voltar ao palco. Ali eu me sinto em casa. Eu danço desde pequenininha, e a dança me deixa viva e me faz feliz. Então, voltar para a quadra foi uma terapia. Estar com as pessoas que eu gosto, dançar… [A prisão] é um lugar de muita tristeza. Um lugar onde você não se alimenta bem e a saúde é precária. Tudo é precário. Se você não tiver a mente boa, você pira. É loucura. E o que dá mais coragem é ter uma base familiar que ajude, amigos próximos. E foi o que eu tive — revelou ela.
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A musa da Gaviões, com quase 1 milhão de seguidores no Instagram, se descreve nas redes como “escritora em construção”, porque pretende lançar um livro de memórias contando um pouco do que viveu na prisão.
Ela também abriu um projeto social com amigas para ajudar detentas abandonadas pela família e que não têm como reconstruir a vida.
— Depois que eu passei por lá, me abriu o olho para a situação dessas mulheres, que precisam de uma segunda chance, independentemente do que tenham feito. A gente está nesse processo de abrir uma ONG, mas por ora é apenas um projeto social. Depois que eu saí do cárcere, eu vi como a mulher sai de lá sem nada. Sem roupa, sem ajuda para nada. A gente oferece ajuda psicológica, apoio jurídico no processo — adiantou.
Para marcar a volta ao Sambódromo, ela diz que vai usar uma fantasia cheia de efeitos especiais, cristais e penas que, segundo Natacha, “nenhuma musa da Gaviões já usou”.
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Neste ano, ela vai desfilar na frente da décima ala da Gaviões. A agremiação será a quarta escola a entrar no Sambódromo do Anhembi, no dia 14. O desfile está marcado para a 01h45min, e a escola levará para a Avenida o samba-enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”, celebrando luta, resistência e legado dos povos indígenas do Brasil.
Na ocasião da prisão da bailarina, o advogado de defesa dela divulgou nota oficial onde chamou a ação do MP-RN de “abusiva e injustificada”.
“Conforme se demonstrou no processo, sua menção e prisão foi um equívoco porque ela jamais praticou qualquer ato ilícito, direto, indireto ou colaborativo. E, diante disso, e principalmente pela inexistência de indícios de seu envolvimento e motivos para a continuidade dessa medida, aguarda-se o exame de pedidos feitos visando o imediato restabelecimento de sua liberdade e dignidade”, disse a nota.
Natacha Horana já foi detida em Santa Catarina
A influenciadora foi indenizada em R$ 20 mil pela prefeitura de Balneário Camboriú após vencer uma ação na Justiça em 2024. Natacha Horana acusou o município de danos morais por ter sido detida em 2020, durante a pandemia de Covid-19, enquanto participava de uma festa ilegal na cidade dos arranha-céus. Dois dias depois da decisão, que saiu só em 12 de novembro do ano passado, ela foi presa em São Paulo.
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A influenciadora foi abordada pela Guarda Municipal de Balneário Camboriú em julho de 2020 ao ser flagrada desrespeitando as normas vigentes da época, que buscavam frear o avanço do coronavírus. Os agentes informaram que Natacha acabou detida por desacato e por resistir à fiscalização.
O termo circunstanciado sobre o caso foi arquivado, conforme repassado pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). Um registro feito na polícia, naquele ano, diz que Natacha teria intimidado os fiscais e os impedido de, junto com guardas, fazer as filmagens necessárias para mostrar que havia descumprimento da ordem municipal. Ou seja, quando ainda eram proibidas festas para evitar aglomeração de pessoas.
No processo ao qual o g1 teve acesso, a defesa da influenciadora disse que os guardas teriam entrado no apartamento em que Natacha estava e teriam ido até o quarto onde ela descansava, momento em que um fiscal da prefeitura teria iniciado as filmagens sem o consentimento da influenciadora. Além disso, dois guardas teriam a imobilizado e algemado, com suposto uso desproporcional de força e agressividade, conforme consta no documento.
A defesa ainda afirmou que as imagens da ocorrência, especialmente aquelas feitas dentro do apartamento da ex-bailaria, teriam sido vazadas pelos agentes públicos e divulgadas indevidamente em jornais e sites de fofocas.
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Natacha pediu, então, indenização por danos morais no valor inicial de R$ 75 mil. A Justiça considerou parcialmente procedente e condenou a prefeitura a pagar R$ 20 mil pelo compartilhamento das filmagens feitas na época.
Para o advogado Giovanni Vitor Finazzo, que representou a influenciadora na ação, a decisão judicial demonstra “a ocorrência do ato ilícito, o dano à imagem e à honra da sra. Natacha, justificando assim a indenização por danos morais”.
Na época, a prefeitura de Balneário Camboriú não quis se manifestar sobre o caso.






