O som dos grilos dominava a noite e os sapos respondiam de algum lugar escondido na vegetação. Quando os sinos badalaram perto das 19h, foi como um lembrete de que aquela mata ainda estava no Centro de Blumenau. Em volta do deck, celulares iluminavam rostos curiosos dos participantes da Expedição Noturna no Parque Natural Municipal São Francisco de Assis enquanto dezenas de pessoas tentavam enxergar na escuridão um animal que normalmente passa despercebido na noite.

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Guiados pelo biólogo Artur Stanke Sobrinho, da Ecoama Ambiental, os participantes acompanharam uma demonstração das técnicas utilizadas em pesquisas científicas e descobriram que boa parte do que imaginavam saber sobre morcegos estava errado. A atividade na noite desta terça-feira (2) reuniu crianças, estudantes, famílias e curiosos interessados em conhecer melhor os animais que habitam a cidade durante a noite, com apoio das estudantes do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Universidade Regional de Blumenau (Furb).

Poucos minutos depois, entre uma das explicações, um morcego cruzou o espaço entre as árvores, bateu contra a rede de neblina — que é confeccionada com fios finos e escuros para capturar aves e morcegos de forma temporária e segura —, e caiu dentro de uma pequena bolsa de tecido. O murmúrio de surpresa percorreu o grupo. Para muitos dos participantes da observação, aquela era a primeira vez observando o animal tão de perto.

O primeiro deles apareceu dentro de um pequeno saco de pano. Pesava cerca de 60 gramas. Na mão do biólogo, parecia leve, mas logo descobrimos que aquele animal é capaz de carregar mais de um terço do próprio peso nos ares. Em proporção, seria como uma pessoa levantar uma melancia com a boca e sair voando.

“O medo acaba matando os bichos”

A cada explicação, os morcegos deixavam de ser personagens de filmes de terror para se tornarem algo mais próximo do que realmente são. São mais um dos mamíferos que enxergam, cuidam dos filhotes, possuem predadores naturais, como as corujas, e ajudam a manter a floresta em pé.

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— O medo acaba matando os bichos — resumiu o biólogo durante a atividade.

Há mais de 15 anos trabalhando com captura e monitoramento de morcegos, Artur explicou que as redes utilizadas na pesquisa não possuem qualquer tipo de atrativo. Elas são posicionadas estrategicamente em rotas de voo identificadas pela experiência dos pesquisadores. Quando o animal passa, não fica enrolado como um peixe em uma rede. Ele apenas toca no tecido e cai em uma espécie de bolsa no final da rede, onde permanece até ser retirado pela equipe de monitoramento.

A cena faz parte de um trabalho que acompanha morcegos em diferentes regiões do Sul do Brasil. Em projetos de monitoramento ambiental, os animais recebem uma identificação individual e têm informações como peso, sexo e medidas corporais registradas em anilhas. Ao longo da carreira, Artur já participou da marcação de mais de 10 mil desses animais noturnos. Alguns deles até reapareceram surpreendentemente longe do local onde foram capturados pela primeira vez.

— Já marcamos animais em Florianópolis e recapturamos em Criciúma. Também tivemos registros entre Blumenau e São José — contou.

Durante a expedição no parque escondido atrás do shopping, três espécies foram apresentadas ao público: Artibeus lituratus, Sturnira lilium e Carollia perspicillata. Todas são frugívoras e estão entre as mais comuns da região. Ao consumir frutos e espalhar sementes pela mata, desempenham um papel fundamental na regeneração das florestas.

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Veja como são espécies

As curiosidades da expedição

Enquanto o grupo observava as asas translúcidas iluminadas por lanternas e os dedos alongados dos morcegos que formam a estrutura do voo, outras curiosidades surgiam. Os morcegos não são cegos e algumas espécies enxergam até muito bem. Nem todos utilizam ecolocalização da mesma forma, que é um som de alta frequência emitido pelo morcego. Esse barulho atinge o ambiente ou presas e volta para o animal em forma de eco. Dessa maneira, ele interpreta o eco para identificar o ambiente ao redor.

E os únicos morcegos que se alimentam exclusivamente de sangue representam uma parcela mínima da diversidade existente. Há morcegos frugívoros, nectarívoros/polinívoros, insetívoros, carnívoros/onívoros e até piscívoros, que se alimentam de peixes.

Outra curiosidade que surpreende é o fato de que muitos morcegos têm dificuldade de decolar diretamente do chão ou outra superfície. Em geral, precisam ganhar uma altura para voar e, por isso, costumam escalar as árvores e pular delas.

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Em Santa Catarina, se estima que existam entre 55 e 60 espécies. No Brasil, mais de 180, mas é um número difícil de ser exato por se tratar de um ser vivo, com um ciclo de vida e que depende de uma série de fatores, como explica o biólogo.

“Como se estivesse indo para a Disney”

Entre os participantes do passeio noturno estava a designer gráfica Caroline Vana, que levou a filha Lize para a atividade. A menina havia escolhido os morcegos como tema de um trabalho escolar e aguardava o passeio ansiosamente havia dias.

— Há uma semana desde que eu nos inscrevi, ela está animadíssima. Olhando todo dia a previsão do tempo. “Meu Deus, não pode chover!” Hoje ela acordou como se estivesse indo para a Disney — contou a mãe.

Ao longo de pouco mais de uma hora, o grupo descobriu que uma cidade conhecida pelas ruas, prédios e trânsito também abriga uma vida noturna quase invisível. Quando a atividade terminou, os morcegos apresentados foram devolvidos à mata. Pouco depois, desapareceram novamente na escuridão.

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Duas edições do passeio noturno para observação de morcegos foram lançadas e, em menos de três dias, todas as inscrições gratuitas foram esgotadas. Por isso, a organização abriu mais duas edições, mas desta vez no fim de semana, no sábado (20) e domingo (21). O parque fica na Rua Ingo Hering, 390, em pleno Centro de Blumenau.

A ação, que faz parte do Junho Verde, foi divulgada nas redes sociais dos organizadores, como o Instagram do Parque São Francisco de Assis, Fauna de Blumenau, Programa de Pós-graduação em Biodiversidade da FURB e da ECOAMA Ambiental.

Confira como foi observação noturna