A Rua 7 de Setembro, no Centro de Blumenau, tem o ritmo de qualquer rua movimentada. Carros, buzinas, calçadas cheias nos horários de pico, o barulho que pertence às cidades. Porém, a uns 500 metros dali, o asfalto dá lugar a uma estrada pequena e uma discreta entrada. Em uma área atrás do Neumarkt Shopping, existem 23 hectares de uma silenciosa Mata Atlântica há trinta anos, com trilhas ecológicas e nascentes sem que a maioria das pessoas soubesse quando circulam por ali na correria do dia a dia.
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Tem um aviso na entrada do Parque São Francisco de Assis que pede para o visitante falar baixo. O silêncio, diz a placa, permite uma vivência única da natureza. Basta cruzar o portão da Rua Ingo Hering, número 390, e dar uns vinte passos dentro da mata para perceber que o barulho da cidade, que estava ali um segundo atrás, foi embora.

O parque existe, oficialmente, desde 25 de outubro de 1995, mas a história da área começa bem antes. Em 1877, a congregação franciscana já captava água dali para abastecer as instalações. O local onde hoje fica o deck de observação guarda esse registro, uma vez que foi o primeiro ponto de captação de água de toda a cidade.
Depois vieram os internos do Colégio Franciscano Santo Antônio, que usavam aquela mata como área de recreação. Futebol, brincadeiras, o campinho de pelada que o professor Lauro Bacca viu com os próprios olhos quando o Frei Odorico Durieux o levou até ali, anos antes de qualquer lei ou decreto.
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— Antes de tudo isso, eu pude estar aqui com o Frei Odorico. Ele foi me mostrando o tal do campinho. Se ele não tivesse me mostrado, talvez ninguém saberia que ali havia um pequeno campo de pelada. E hoje é floresta — lembra Bacca, que na época atuava como assessor de Meio Ambiente e participou das primeiras conversas que decidiram o futuro daquela área.

Aquele campinho de futebol sumiu completamente, hoje é uma floresta. No lugar, crescem mais de 200 espécies de árvores, algumas ameaçadas de extinção, como o palmito e a bicuíba. Samambaias, orquídeas e bromélias sobem pelos troncos. A vegetação é densa ao ponto de mudar a temperatura do ar em poucos metros de caminhada.
E por baixo da terra, escondido na camada de folhas e raízes, pesquisadores encontraram recentemente três espécies de fungos que não existiam em nenhum catálogo científico do mundo: a Fomitiporia subtilissima, a Fomitiporia atlantica e a Phylloporia minuta. Novas para a ciência, descobertas no miolo de Blumenau.
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Em 2000, um casal de bugios-ruivos foi reintroduzido na mata por pesquisadores do Centro de Pesquisas Biológicas de Indaial (Cepesbi). Chegaram como projeto científico e ficaram. Nos anos seguintes, entre os troncos das 200 árvores e os rios que nascem dentro dos próprios limites do parque, se tornaram parte da paisagem como qualquer outra coisa que vive ali por vontade própria.
Em 2008, com a enchente e desmoronamentos que assolaram a região, o parque chegou a ficar fechado por seis anos. Foi somente em 2014 que o parque passou por uma revitalização, com trabalhos na desobstrução das trilhas, recondicionamentos de pontes, instalações elétricas, limpezas, fixação de placas e melhorias para que pudesse funcionar novamente.
Já foram registradas 160 espécies de aves, entre elas algumas que dependem exclusivamente de florestas conservadas para sobreviver, como o cabure-miudinho e o trepador-sobrancelha. O gavião-pombo-pequeno figura na lista oficial de espécies ameaçadas de extinção de Santa Catarina. A coruja-preta apareceu em registro considerado inédito no estado, uma ave tão rara que a presença aqui surpreendeu pesquisadores.
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Os animais vivem livremente pelo local e, quem der sorte e tiver atenção, consegue ver eles dentro do hábitat. Até ocorrem solturas no local de animais silvestres que foram resgatados e, depois de bem cuidados e com a saúde restaurada, podem ser devolvidos à natureza.
No total, são 22 mamíferos, alguns deles sendo a cutia, o bugio-ruivo, o cachorro-do-mato e os quatis. Câmeras ficaram instaladas em pontos estratégicos da mata há alguns anos, capturando flagrantes do dia a dia deles. Elas foram colocadas preferencialmente em locais em que já haviam sido vistas pegadas e rastros de passagem.
Uma delas flagrou um animal que não aparecia há cinco anos, o gato-mourisco. Em 2014, ele intrigou pesquisadores e visitantes ao aparecer no parque, ao ponto de que armadilhas fotográficas foram instaladas no local para saber mais sobre a espécie. O animal não veio de nenhum programa de reintrodução, chegou por conta própria porque, ali, ainda existe uma floresta que faz sentido para ele.
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O gato-mourisco é uma espécie de felino de porte médio-pequeno, sem manchas, de cor uniforme, variando do marrom acinzentado ao marrom avermelhado. Parente do puma, tem o corpo alongado, membros curtos e cauda longa. É dito como solitário, com atividades noturnas e diurnas, que se alimenta de mamíferos, aves e pequenos vertebrados. São felinos ariscos e discretos, por isso, é difícil observá-los em trilhas. Apesar de predadores, não representam perigo aos seres humanos.
A surpresa de encontrar um animal considerado em risco de extinção habitando calmamente o Parque São Francisco de Assis também vale para o gavião-pombo-pequeno, ave classificada como vulnerável à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza.

O parque tem duas trilhas. A Trilha da Cutia percorre 823 metros e leva cerca de 40 minutos em caminhada atenta. A Trilha Caminho das Águas vai mais fundo, com 1.432 metros e nascentes que aparecem no meio do caminho, água brotando da terra e até uma pequena represa no meio do caminho.
As placas ao longo dos dois percursos estão escritas em português, inglês e alemão, uma herança da cidade que construiu o parque. A entrada é gratuita e há guarda-volumes na sede porque mochilas e bolsas não podem entrar nas trilhas.
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Saiba horários e regras de visitação
O parque funciona de segunda-feira das 13h às 17h porque fecha de manhã para manutenção. De terça-feira a domingo das 8h às 12h e das 13h às 17h, com entrada gratuita. Para grupos e escolas, há visita guiada com agendamento prévio pelo sistema da prefeitura. A área de proteção ambiental que envolve o parque por fora tem mais 42 hectares, uma espécie de escudo que impede que a cidade avance sobre o que ficou dentro.
Os avisos pedem desde a porta: fale baixo, caminhe devagar, respeite o horário de fechamento. Quando chove, o parque fecha imediatamente por segurança. Todos os avisos valem como lembretes de que você é um mero visitante, adentrando o habit desses diversos animais e plantas e deve respeitar a casa deles. Além disso, “a falta de atenção pode causar prejuízos tanto para você quanto para as espécies do parque”, como diz uma das placas.

Não é permitido entrar com animais de estimação, com execeção para cães de assistência. Fumar nem pensar, muito menos fazer fogureiras ou acendar braseiros. Coletar qualquer tipo de material encontrado no parque ou utilizar aparelho sonoro ruidoso também não é legal.
Jogar lixo fora dos locais expressamente destinados a este fim, consumir alimentos e bebidas alcoólicas, cortar ou danificar espécies de flora, caçar, maltratar, aprender, alimentar ou pertubrar os animais ou se banhar nos cursos d’água e permanecer nas trilhas em caso de chuva inesperada estão proibidos.
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Trinta anos depois da doação dos franciscanos, a cidade que cresceu em volta mal olha para o número 390 da Rua Ingo Hering. Os carros passam, as buzinas continuam, o barulho não para. A cerca de 500 metros dali, um casal de cutias acorda todo dia dentro de uma floresta em que a ciência ainda descobre coisas que nunca viu antes, e a placa na entrada continua pedindo silêncio, para quem tiver a curiosidade de entrar.





















