Um grupo de lideranças do PSOL divulgou um artigo nesta segunda-feira (2) defendendo que o partido componha uma federação com o PT para disputar as eleições de 2026. A federação é um mecanismo criado em 2022 e que permite que dois ou mais partidos se unam e atuem como um só partido, com lista integrada de candidatos e votos somados, o que é visto como forma de ajudar a ultrapassar a cláusula de barreira e ampliar a chance de eleger deputados. A aliança, no entanto, requer decisões conjuntas e precisa continuar durante quatro anos, diferente da coligação, que gera compromissos somente para o período eleitoral.
Continua depois da publicidade
O texto é assinado por lideranças como o deputado federal licenciado e atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, a ministra de Povos Originários, Sônia Guajajara, e a deputada federal Érika Hilton. O deputado estadual de Santa Catarina do PSOL, Marquito, e outros 19 políticos da sigla com mandato também assinam o artigo, publicado no jornal Folha de S.Paulo.
No texto, os autores citam o momento de avanço da extrema direita no mundo e o governo de Donald Trump nos Estados Unidos como sinais que exigiriam da esquerda brasileira “grandeza política e responsabilidade para colocar diferenças em segundo plano e construir um amplo movimento de unidade”.
“Defendemos que o PSOL componha uma federação com o PT e outros partidos de esquerda como resposta ao momento político e como um sinal potente de unidade do nosso campo para a sociedade. Com o avanço do bolsonarismo, não existe espaço para um projeto de simples demarcação ou para gastar nossas energias em disputas internas menores”, escreveram os autores.
Os políticos citam como exemplo a Frente Ampla uruguaia, que reuniu diferentes partidos de esquerda no país vizinho e venceu a maior parte dos processos eleitorais recentes.
Continua depois da publicidade
Veja possíveis candidatos a presidente em 2026
Apoio para vencer cláusula de barreira
O grupo defende que a federação poderia ajudar o partido a garantir que supere a cláusula de barreira, que exige número mínimo de 2,5% dos votos válidos para a Câmara, em pelo menos nove estados, ou a eleição de ao menos 13 deputados federais em nove estados diferentes. Não atingir a cláusula de barreira impede o acesso do partido a recursos do fundo partidário, tempo de horário eleitoral em rádio e TV e participação em debates, por exemplo.
Os autores reconhecem dificuldades que surgem com o instituto da federação, mas defende que elas podem ser enfrentadas com “debate aberto” sobre a organização interna e até mesmo prévias.
“Colocando na balança, não temos dúvida de que os ganhos são bem maiores do que as dificuldades. Apontam para o desafio do futuro: nossa capacidade de derrotar a extrema direita e apresentar um projeto unitário para o povo brasileiro após 2026”, escrevem os autores, ao final do artigo.
Continua depois da publicidade
O deputado estadual catarinense Marquito, que não integra nenhuma corrente interna da legenda, defende a proposta de federação por acreditar que a eleição deste ano vai exigir unidade e programa no campo da esquerda.
— Acredito que o PSOL pode colaborar muito com o PT, pode radicalizar mais o programa do partido, levar o partido mais à esquerda, levá-lo para as bases sociais. Esse jeito que a gente faz política pode influenciar positivamente o próprio PT. E a gente não vai perder identidade, pelo contrário, mantém a identidade, a autonomia, a possibilidade de influenciar positivamente o PT, de fazer esse debate mais amplo — sustenta.
Ele admite que o tempo para discutir a proposta deveria ser maior, mas acredita que a medida é necessária para garantir melhores condições ao partido em 2028 e 2030.
O PT já possui atualmente uma federação firmada em 2022 com os partidos PV e PCdoB, grupo que agora poderia angariar o PSOL.
Continua depois da publicidade
Correntes internas são contrárias à federação
A ideia de federação do PSOL com o PT, entretanto, está longe de ser unanimidade no partido. Após o assunto entrar em pauta nos últimos dias, outras lideranças se manifestaram contra a ideia. Entre as preocupações estariam a perda de autonomia do partido para definir sobre propostas e candidatos, um possível favorecimento de nomes petistas e até uma descaracterização do programa político da legenda.
O deputado federal Gláuber Braga (PSOL-RJ) divulgou um vídeo em que critica a ideia defendida pelo grupo de Boulos. “Isso [a federação] dilui o partido programaticamente. Além disso, engessa, tira a independência política para fazer as lutas e determina aquilo que vai ser feito eleitoralmente”, afirmou, em um vídeo divulgado nas redes sociais.
O vereador de Florianópolis Leonel Camasão (PSOL) também questionou a proposta em uma publicação nas redes sociais. O parlamentar citou números de parlamentares eleitos pelas legendas PV e PCdoV, que diminuíram na última eleição, e do PT, que ganhou representantes após a federação entre as legendas. Camasão defendeu que o partido teve votação suficiente para ultrapassar a cláusula de barreira na última eleição e alegou que a federação daria poderes ao partido maior do grupo – no caso, o PT – a decidir sobre coligações, candidatos e quantidade de vagas nas nominatas.
“Federação não é coligação. É plenamente possível estar coligados com o PT e apoiar a reeleição de Lula, exatamente como já fizemos em 2022. Coligação é apoio na eleição. Federação é arranjo eleitoral com 4 anos de duração. Unidade das esquerdas, sim, mas com autonomia!”, defendeu.
Continua depois da publicidade
Vereadora de Florianópolis deixou corrente pró-federação
Na semana passada, outra vereadora de Florianópolis do PSOL, Ingrid Sateré Mawé, divulgou uma carta em que informou o desligamento da corrente interna do partido liderada por Guilherme Boulos, que defende abertamente a federação com os petistas. “A prioridade deixou de ser o acúmulo consistente de força social à esquerda para disputar hegemonia no próximo período histórico. Passou a ser a aproximação tática com o presidente Lula como caminho para viabilizar um projeto presidencial em 2030”, escreveu em um trecho da carta em que informou o desligamento da corrente interna – ela permanece filiada ao partido.
O PSOL deve definir se passa a integrar ou não a Federação Brasil da Esperança, atualmente composta por PT, PCdoB e PV, em reunião marcada para este sábado (7).









