As luzes natalinas se acendem, as agendas apertam e o calendário anual chega ao seu último capítulo. O final do ano costuma ser apresentado como um período de celebração, encontros e renovação de esperanças. Mas, para muitas pessoas, dezembro carrega também um peso silencioso: o cansaço acumulado, as cobranças internas, as expectativas não cumpridas e a sensação de que tudo precisa ser resolvido antes da virada. Nesse contexto, a prevenção em saúde mental e emocional torna-se tão essencial quanto a troca de presentes de fim de ano.

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A simbologia das roupas brancas, tradicionais nas festas de Réveillon, remete à paz e à tranquilidade desejadas para o novo ciclo. Na prática, porém, essa serenidade nem sempre acompanha o ritmo acelerado das últimas semanas do ano. Demandas profissionais, compromissos familiares, eventos sociais e balanços pessoais criam um cenário propício ao estresse, à ansiedade e à exaustão emocional. O corpo dá sinais e a mente pede pausas, mas nem sempre há tempo para o autocuidado.

É justamente nesse intervalo entre o que esperamos sentir e o que de fato vivemos que a saúde mental pede atenção redobrada. Mais do que um tema pontual, trata-se de um cuidado contínuo, que atravessa todos os dias do ano e tende a se intensificar em períodos simbólicos e afetivos, como aniversários e encerramentos de ciclo.

A anatomia do estresse sazonal

Para entender por que uma época teoricamente festiva pode se tornar um fator de risco emocional, é necessário analisar a dinâmica emocional do final de ano. Segundo o médico psiquiatra Dr. Gustavo Adolfo Matos, cooperado da Unimed Grande Florianópolis, o fim do ano reúne uma combinação particular de fatores estressores. “Há o cansaço acumulado, o excesso de demandas e as expectativas em relação à pausa das comemorações. Quando finalmente param, muitas pessoas entram em contato com questões emocionais que ficaram encobertas pela rotina”, explica o médico.

Dr. Gustavo destaca que esse período também envolve vínculos familiares e memórias sensíveis. “Conflitos, perdas e feridas emocionais que passam despercebidas durante o ano podem se tornar mais evidentes nesse momento.”

Além do reencontro com o passado, vem a sensibilidade do último mês do ano e o peso do julgamento sobre o presente. Segundo o psiquiatra, “as expectativas depositadas no novo ano e o balanço do que foi ou não alcançado no ciclo anual que se encerra geram mais carga emocional”. 

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A frustração pelo que não foi alcançado pode ofuscar a celebração pelo que foi conquistado. Por isso, ‘neste período, pode ser necessário reforçar o cuidado, sem esquecer que a saúde mental necessita atenção todos os dias, o ano inteiro’, avalia o médico.

O desafio da sociedade do desempenho

Esse cenário não surge de forma isolada. Um dos maiores obstáculos para a saúde mental nesta época não é individual e sim, coletivo e cultural, pois reflete o modo como a vida contemporânea tem sido organizada. 

“Vivemos em uma sociedade marcada por muita exigência de produtividade e sucesso, o que gera aceleração e cobrança constante. A vida poderia ser mais leve se não estivéssemos o tempo todo submetidos a tantas metas”, observa Dr. Gustavo, que relembra a importância de pensarmos em formas de proteger a saúde mental nesse contexto.

Nesse sentido, a prevenção começa na compreensão de que a saúde da mente precisa ser observada continuamente, com rotina, e está relacionada à forma como cada pessoa estabelece limites, organiza prioridades e cuida do equilíbrio emocional ao longo do tempo. A principal recomendação não diz respeito ao cuidado apenas nas datas específicas, mas em todos os seus 365 dias: cultivando a atenção constante à saúde mental. Dessa forma, é possível esperar por um excelente final de ano e um 2026 que traga avanços importantes nesse campo tão fundamental da vida, conclui o psiquiatra.

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Estratégias de regulação e autocuidado

Se o cenário apresenta riscos claros de sobrecarga emocional, ele também oferece a oportunidade ideal para recalibrar a rota. Além da conscientização, pequenas mudanças práticas na rotina podem ajudar a atravessar esse período com mais leveza. 

De acordo com a psicóloga Ana Priscila Rischter, do Departamento de Atenção à Saúde da Unimed Florianópolis (DPAS), o autocuidado emocional envolve escolhas possíveis e realistas, como reduzir o ritmo sempre que possível e inserir pequenas pausas na rotina.

A psicóloga sugere um roteiro de higiene mental para atravessar o período:

  1. Ajuste de expectativas: é fundamental compreender que o dia 31 de dezembro é somente uma data no calendário. Nem tudo precisa ser concluído agora e aceitar que projetos podem continuar em janeiro reduz a sensação de urgência artificial.
  2. Desaceleração fisiológica: o corpo precisa de pausas reais para que a mente recupere a clareza, o que envolve cuidar do trio: sono de qualidade, hidratação e alimentação equilibrada.
  3. Ritual de encerramento consciente: em vez de remoer o que deu errado, a sugestão é escrever: coloque no papel o que se deseja deixar em 2025 e o que se pretende levar para 2026. A prática ajuda a organizar sentimentos e esvaziar a mente.
  4. Autocompaixão contra a comparação: em tempos de excesso de redes sociais, evitar comparar os seus bastidores com o palco alheio é uma medida de saúde pública. Lembre-se que cada indivíduo possui ritmos e desafios distintos.

Outro ponto crucial é a validação das emoções. Ana Priscila reforça que não é preciso performar felicidade. Tristeza, saudade, cansaço ou desânimo são sentimentos naturais e devem ser respeitados. 

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Toda essa cobrança externa alimenta um mecanismo psicológico perigoso, aponta a psicóloga: o viés da negatividade, que aumenta os sentimentos de culpa, insuficiência e autocrítica.

Ana Priscila chama a atenção, ainda, para a ambivalência emocional típica dessa época. “Esses dias podem reunir conquistas e frustrações, luz e sombra ao mesmo tempo”, e a positividade é uma das formas inteligentes de enfrentar os desafios da data. 

“Muitas pessoas vivem um balanço interno espontâneo e acabam focando mais no que faltou do que no que foi alcançado. Por isso, reconhecer vitórias, mesmo que pequenas, é fundamental”. A psicóloga reforça que “essa atitude fortalece a autoestima, a motivação e a esperança, que são fundamentais para a saúde de cada pessoa”. 

Esta reflexão reforça que a saúde mental é um projeto de continuidade. Investir em prevenção e no reconhecimento das próprias emoções é uma das estratégias mais inteligentes para quem busca longevidade com qualidade de vida. Assim, torna-se possível iniciar 2026 com mais serenidade, presença e equilíbrio emocional.

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