Quem vive em Florianópolis sabe que a cidade pode ser experimentada de muitas formas. Há a capital que aparece com frequência na mídia e nas redes sociais, marcada pelas praias famosas, pelos pores do sol disputados, pela Ponte Hercílio Luz, pela arquitetura açoriana e pelos endereços procurados por quem busca belas paisagens, boa gastronomia e experiências mais sofisticadas.
Continua depois da publicidade
Mas Florianópolis não se resume a esse recorte. A cidade também se revela nos botequins antigos de bairro, nas praças ocupadas no fim da tarde, nas feiras que misturam cheiros, sabores e sotaques, no comércio popular do Centro e nas ruas que ganham música quando a noite começa. Mais do que lados opostos, esses cenários ajudam a formar uma capital plural, que acolhe diferentes estilos de vida e maneiras de circular pela Ilha e pelo Continente.
Bares de bairro convivem com endereços badalados
Uma parte importante dessa Florianópolis está em redutos que passaram décadas fora da vitrine e agora começam a ser redescobertos por gente mais nova. Ao mesmo tempo em que a cidade oferece bares badalados, restaurantes concorridos e espaços mais sofisticados, também preserva locais em que a principal marca é a permanência.
No Continente, bairros como Estreito e Abraão ainda guardam botequins tradicionais em que a graça não está na novidade, mas no costume. São lugares em que a vizinhança se encontra para tomar “aquela gelada”, jogar dominó ou simplesmente conversar. Na Ilha, o mesmo vale para endereços da Tapera, do Saco dos Limões e do Rio Vermelho, onde o balcão de fórmica, as cadeiras de plástico, o bate-papo e os velhos frequentadores fazem parte do ambiente.
São espaços que não costumam entrar nos pacotes de turismo, mas ajudam a contar a cidade de outra forma. Para quem prefere programas mais sofisticados, Florianópolis oferece opções já consolidadas. Para quem busca ambientes sem cerimônia, os bares de bairro continuam sendo parte importante da rotina local.
Continua depois da publicidade
Praças seguem como ponto de encontro em diferentes regiões
As praças também ajudam a mostrar essa Florianópolis diversa. Se há quem prefira espaços mais estruturados e áreas com vista para o mar, também há pontos de encontro que mantêm força pela convivência cotidiana e pelo vínculo afetivo com os bairros.
No Estreito, a Praça Nossa Senhora de Fátima continua sendo referência para quem cresceu na região e mantém o hábito de voltar. A educadora física e massoterapeuta Dani Silveira é uma dessas frequentadoras antigas. Desde criança, ela passa por ali e, em dias de jogos do seu time, associa o lugar a um ritual afetivo.
— Embora meu time não esteja tão bem, um cachorro-quente na pracinha serve tanto para comemorar as vitórias quanto para afogar as mágoas. É daquelas paradas que a gente leva da infância para a vida adulta sem nem perceber — conta bom humor.
A mesma lógica vale para a Praça do Carianos, onde a vizinhança se encontra nas feirinhas e no dia a dia. O mesmo acontece na Praça da Berman e no Parque Linear, ambos no Córrego Grande, e na Praça José Francisco, a famosa “Praça dos Cachorros”, opção para quem quer um local mais calmo e tão bonito quanto o Parque de Coqueiros.
Continua depois da publicidade
Nesses espaços, Florianópolis deixa de ser apenas cenário e se torna lugar de convivência.
Feiras revelam uma cidade de muitos sotaques e sabores
As feiras populares também ajudam a desmontar a ideia de uma cidade homogênea. Florianópolis reúne desde experiências gastronômicas mais requintadas até espaços abertos e acessíveis, onde diferentes culturas se encontram de forma direta.
A Ecofeira da UFSC é um exemplo. Realizada às quartas-feiras na Praça da Cidadania, no campus da Trindade, reúne produtos orgânicos, brechós, artesanato e alimentação, mantendo um fluxo regular de estudantes, moradores e trabalhadores da região.
O engenheiro sanitarista Aliatir Filho, formado pela mesma universidade em 2010, ainda volta todos os dias ao campus para caminhar com o cachorro, Bento, que já virou xodó de alunos e servidores.
— A universidade virou um lugar de passeio para mim. É arborizada, tem espaços de contemplação, como o lago e o bosque da Botânica, tem a feira às quartas, com opções de lanches de diversos lugares do mundo, e tem gente muito diferente circulando ao mesmo tempo. Além disso, tem uma programação cultural bastante interessante no Teatro Carmen Fossari e na Igrejinha. É como um microcosmo da cidade viva e pulsante que é Florianópolis — afirma.
Continua depois da publicidade
Outras feiras reforçam essa mistura. Algumas são itinerantes, outras permanentes, como a que acontece todos os dias em frente ao Ticen. Já a Feira dos Imigrantes, na Beira-Mar, aos fins de semana e feriados, ajuda a mostrar uma Florianópolis feita também de deslocamentos recentes, de presenças latino-americanas, africanas e asiáticas, de receitas e produtos que ampliam o repertório da cidade para além da herança açoriana.
Centro reúne comércio popular, tradição e vida cultural
Quem quiser ver essa diversidade mais de perto pode começar um passeio pelo Centro fora do circuito mais óbvio. Florianópolis tem, sim, seus cartões-postais incontornáveis e seus endereços mais disputados, mas também guarda uma vida urbana intensa nas ruas de comércio, nos encontros casuais e nas ocupações culturais.
Ruas como Conselheiro Mafra e Felipe Schmidt mostram uma Florianópolis de vitrines populares, lojas antigas e circulação constante de pessoas de diferentes idades. Ali, o manezês segue firme, mas divide espaço com outros sons da cidade.
É um pedaço da capital em que sotaques árabes, gregos, africanos, asiáticos e de outros estados brasileiros se misturam sem cerimônia. O Centro revela uma cidade em movimento, marcada por trocas e convivências que nem sempre aparecem para quem olha Florianópolis apenas pelas redes sociais.
Continua depois da publicidade
Mais adiante, a feira livre da Alfândega continua sendo um dos espaços mais vivos da região central. Hortifruti, plantas, produtos coloniais, grãos e o tradicional “pastel com caldo-de-cana” atraem quem mora ou trabalha na região e também quem gosta de “ir pra cidade” passear e ver o movimento sem compromisso.
Centro Leste amplia opções para quem busca arte, cultura e boemia
Quando anoitece, o passeio pode seguir para o Centro Leste. A região se consolidou como um dos polos de arte, cultura e boemia da capital, reunindo locais movimentados da vida noturna e atraindo públicos variados.
Para quem prefere bares autorais, espaços culturais e experiências urbanas mais contemporâneas, essa é uma das áreas em que Florianópolis mostra outra de suas vocações. Ruas e bares concentram apresentações musicais e uma ocupação cada vez mais diversa, especialmente às sextas-feiras e nos fins de semana. A Travessa Ratcliff segue como referência histórica desse processo, hoje ampliado por outras vias e por manifestações espontâneas.
A artista e curadora Kamilla Nunes acompanha essa mudança há anos.
— Eu frequentava o Centro Leste quando quase tudo girava em torno da Travessa Ratcliff. Ver aquele pedaço da cidade se transformar num reduto tão forte de arte, cultura e festa é muito bonito. Hoje tem música nos bares, mas também tem o que escapa deles: samba puxado na rua, o rap das minas, os blocos que fazem carnaval o ano todo — afirma.
Continua depois da publicidade
No fim, esse roteiro menos óbvio mostra que Florianópolis não precisa ser entendida a partir de uma única imagem. A cidade reúne paisagens que permanecem na memória, espaços sofisticados, redutos tradicionais, feiras populares, praças de bairro e áreas culturais em transformação. É justamente nessa combinação que a capital catarinense se revela por inteiro.

