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    Fotojornalistas enfrentam a pandemia com máscaras e zoom

    A pandemia pode ser a maior notícia de uma geração e, mesmo tomando precauções, muitos editores procuram obter imagens que a mostram

    24/04/2020 - 17h30

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    Por The New York Times
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    *Por Marc Tracy

    Março seria um bom mês para Brian Bowen Smith, fotógrafo em Los Angeles que trabalha para a "Vogue" e a "GQ". Ele tinha cinco grandes trabalhos, incluindo fotos para dois pôsteres da Netflix. Todos os cinco foram cancelados por causa da pandemia de coronavírus.

    "Não há trabalho nenhum. É meio assustador, na verdade", disse ele.

    Para preencher suas novas horas livres, Bowen Smith foi até o Parque Nacional Joshua Tree e fotografou a paisagem estéril. Era algo que não tinha nada a ver com o trabalho que normalmente paga suas contas. Nos últimos anos, quando não está fotografando Christian Bale, Miley Cyrus e Issa Rae para as principais revistas, Bowen Smith faz campanhas publicitárias para Marc Jacobs e outras empresas de moda.

    Agora ele está dizendo a si mesmo que tudo vai ficar bem. "Muitas coisas podem ser feitas remotamente. E talvez esse seja nosso futuro. Todo mundo usando máscaras." Como praticantes de um ofício que requer longas horas de aproximação pessoal, os fotógrafos são afetados por restrições de distanciamento social, talvez mais do que outros trabalhadores da mídia.

    "Os fotógrafos não podem fazer o que os repórteres podem, isto é, ficar ao telefone. Eles precisam estar muito perto da ação", afirmou María Salazar Ferro, diretora de emergências do Comitê de Proteção aos Jornalistas.

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    Josh Ritchie, fotógrafo freelance na Flórida, estimou que perdeu US$ 10 mil nas últimas semanas por causa de trabalhos cancelados. Para conseguir algum dinheiro, seu advogado tem vasculhado a web em busca do uso ilegal de suas imagens.

    "À noite, fico assistindo a 'Tiger King' e tendo miniataques de pânico", contou Ritchie.

    Alguns fotojornalistas, como Gary He, foram em busca de imagens específicas de um momento único. Uma de suas fotografias, tirada em março para o site de alimentação Eater, capturou uma cena perturbadora que seria normal antes da propagação do vírus: dezenas de pessoas, incluindo entregadores, lotando uma calçada de Manhattan enquanto aguardavam pedidos do restaurante Carbone.

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    "Fiz muito mais fotos do outro lado da rua do que normalmente teria feito", afirmou He em uma mensagem de texto. E isso significou uma mudança. "Uso um zoom de médio alcance na maior parte do meu trabalho, e tenho usado mais o maior hoje, para ficar alguns metros mais longe dos meus fotografados, principalmente para a segurança e o conforto deles."

    Alguns fotógrafos contraíram o vírus. Mark Kauzlarich, fotojornalista freelance e fotógrafo comercial cujo trabalho apareceu no "The New York Times", na "The Atlantic" e na "Vanity Fair", disse que ficou muito doente em março. Os médicos o informaram de que era Covid-19, embora ele não tenha sido testado.

    "Eu disse abertamente que tinha certeza de que ia ficar doente. Temos de estar em campo. Não há como se defender completamente."

    Kauzlarich, que está se recuperando, parecia não querer mudar sua abordagem. "Para ser um bom jornalista, você não pode estar a 12 metros de distância."

    A pandemia pode ser a maior notícia de uma geração e, mesmo tomando precauções, muitos editores procuram obter imagens que a mostram. Em dez de março, Radhika Jones, editora-chefe da "Vanity Fair", contratou Alex Majoli para fotografar seu país natal, a Itália. A "Vanity Fair" publicou seu ensaio fotográfico sobre a Sicília duas semanas depois.

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    Jones disse que a experiência de Majoli, que incluiu passagens pelo Kosovo, pelo Afeganistão e pelo Iraque, a deixou confiante de que ele se cuidaria.

    "Há algo muito poderoso com uma imagem. Não requer tradução. Fizemos essas fotos na Itália e, de certa forma, elas são específicas dessa experiência e até específicas desse fotógrafo como italiano. Mas elas também têm a ver com a humanidade e são universais", declarou Jones.

    Caitlin Ochs, fotojornalista freelance no Brooklyn, capturou imagens do cotidiano no bairro em meio ao surto para um projeto da Reuters. Ao começar outro trabalho, para o "The Wall Street Journal", um editor do jornal lhe deu um saco plástico contendo máscaras N95, luvas e desinfetante para as mãos.

    Sua rotina de desinfecção diária, orientada por uma enfermeira do pronto-socorro que ela fotografou, pode levar mais de uma hora. No fim de um dia de trabalho, ela coloca novas luvas e limpa seu equipamento – câmeras, lentes, tampas de lentes, cabos – com uma solução de álcool isopropílico a 70 por cento. Também usa uma solução de alvejante no chão, nos interruptores e nas torneiras. Antes de tomar banho, põe suas roupas em um saco de lixo para lavar depois.

    "Às vezes, tudo isso parece loucura, como se eu estivesse me transformando em uma hipocondríaca, mas estou tentando ser cautelosa", escreveu Ochs em um e-mail.

    O que aumenta o desafio é o fato de que os trabalhos de equipe para fotógrafos são difíceis de encontrar, e muitos atuam como freelancers. A Juntos Photo Coop, composta por quatro fotojornalistas no Arizona, publicou uma carta aberta argumentando que a crise do coronavírus expôs as condições de trabalho injustas dos fotógrafos freelancers. O grupo exigiu que as organizações de mídia fornecessem equipamentos de proteção, check-ins de saúde mental e seguro-saúde de emergência aos profissionais.

    "Estamos descobrindo que as pessoas mais vulneráveis da nossa indústria são as que não têm seguro-saúde, que não podem pagar aluguel, que não podem se sustentar durante a quarentena. Vamos perder todas essas vozes diversas em nossa indústria se apenas as pessoas que podem se dar ao luxo de atravessar a quarentena continuarem trabalhando", observou Caitlin O'Hara, membro da Coop.

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    Apesar dos perigos, muitos fotojornalistas perseveram graças à necessidade de registrar o mundo em um momento dramático.

    "É por causa desse tipo de história que todos nós nos tornamos jornalistas, né? A pandemia é histórica e, especialmente por causa do distanciamento social, com todos dentro de casa, há uma necessidade real de contadores de histórias treinados para informar os leitores sobre o que realmente está acontecendo lá fora", disse He, o fotojornalista.

    E acrescentou: "Eu faria o trabalho de graça se fosse preciso."

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