A areia importada entra por um lado da fábrica e, do outro, sai uma taça reluzente da Mozart Crystal. Só que entre esses dois pontos existe um labirinto de calor, precisão, sopro e paciência que a maioria das pessoas nunca parou para imaginar. A Galeria do Cristal de Blumenau, localizada na Rua Bahia, no bairro no bairro do Salto Weissbach, permite o visitante caminhar pela história mundial do vidro e do cristal, conhecer a coleção da fábrica de cristais artesanais e até ver os bastidores da produção a todo vapor.
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Para fazer um único copo, são pelo menos oito pessoas só na fase de fundição, sopro e modelagem. Com a finalização e lapidação, contam-se mais 10. Se passar por uma personalização, mais uma especialista. O controle de qualidade tem, ao menos, três pessoas que medem e observam cada linha com calma cirúrgica. Quem olha de fora não vê nada disso, mas quem bebe sente o cuidado artesanal.

A visita pela Galeria do Cristal é uma aula de história mundial e regional, geografia e até de química. Lá, descobrimos que a indústria do cristal começou com um romance e uma imigração. Uma neta da família Hering se apaixonou por um gerente de hotel chamado Karl Strauss na Baviera, trouxe ele para o Brasil e juntos montaram uma cristaleria.
A Cristal Zelig importava peças da Alemanha até 1954, quando Kubitschek proibiu a importação. Sem outra saída, oito artesãos alemães foram trazidos e a produção começou em Blumenau mesmo. A cidade cresceu ao redor dessa tradição até empregar 4 mil trabalhadores no auge dos anos 1980.
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Depois, veio a abertura do mercado, a concorrência internacional e, uma por uma, as fábricas locais fecharam. Em 2018, novos investidores contrataram Frederico Strauss, filho de Karl e engenheiro químico, e toda a mão de obra remanescente do setor. Reacenderam os fornos e batizaram o lugar de Mozart, em uma brincadeira com o sobrenome Strauss, que pertencia ao compositor austríaco famoso pelas valsas.

O que acontece dentro do forno
A areia que chega ali vem importada de Minas Gerais por ser de mineração, com grão definido e controlado. Antes de entrar no processo, é lavada para remover toda a matéria orgânica, seca e peneirada. A cada 100 quilos comprados, 20 são descartados da produção de cristal, mas reaproveitados em outras etapas do processo. Nada vai para o lixo.
A mistura de areia com óxido de chumbo e outros componentes vai para uma panela de cerâmica com argila europeia, que entra no forno a quase 1,5 mil graus por até 12 horas. Essa panela tem vida útil de 40 a 60 dias e depois vira vaso de plantas decorativo na entrada da fábrica. Quando o cristal está pronto para ser trabalhado, ele sai a 1,2 mil graus.
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É aí que entram as canas de vidreiro, utilizadas só quatro vezes ao dia porque precisam resfriar e, por isso, são revisadas. O artesão coleta o cristal líquido na cana, modela e sopra em uma forma de madeira torneada para novos produtos ou de ferro fundido para os já consolidados. O banco de vidreiro, uma peça que permitiu a criação de taças com haste e pé, só existe desde a Revolução Industrial. Antes disso, as taças de cristal não tinham a parte de baixo que conhecemos hoje.

O óxido de chumbo é o que separa o cristal do vidro comum. Ele reage com o óxido de ferro presente na areia e neutraliza aquela coloração esverdeada clássica, transformada em um material incolor, brilhante e translúcido. A densidade do chumbo também compacta a matéria de um jeito que permite a lapidação, um processo que estilhaçaria se fosse vidro comum ao menor contato com a pedra.
Mais de 10 pessoas para um copo
A visita guiada passa por cada etapa desse processo e revela um número que surpreende a maioria dos visitantes. Nenhuma taça é produzida por máquinas, de forma robotizada ou automatizada. Todas passam por diversas mãos humanas, que trabalham em sincronia e precisão. O grupo de artesãos e mestres vidreiros trabalham desde às 5h em um ritmo que parece uma coreografia concentrada.
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Você sabe por quantas mãos passam por um único copo até chegar na prateleira à venda? Só para transformar a areia em cristal e dar forma, já são oito pessoas. Um aquece, outro sopra, um terceiro puxa a haste, mais um faz o pé, um ao lado corta a sobra, o de trás lixa a borda, outro lava e aquele mais à frente seca. Na área de fundição, sopro e modelagem são 32 pessoas.
E esse número nem contabiliza quem faz a finalização, lapidação, o polimento, a personalização, o controle de qualidade… São mil funcionários no total, cada um no seu quadrado, com a sua respectiva função e sempre em sincronia com os demais colegas na linha de produção.
Hoje, 1,6 mil peças saem da fábrica por dia. A Mozart Crystal fornece taças para 162 vinícolas brasileiras e uma internacional, e até produziu as taças oficiais do Governo do Estado de Santa Catarina, com o escudo de armas gravado, usadas pelo governador para receber autoridades na Casa Agronômica.
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Quanto custa e o que fazer
A visitação ao museu e lojinha é gratuita. Lá estão reunidas mais de dez países de peças de cristal do mundo todo, da França à Eslovênia, de Portugal à Áustria, incluindo uma ânfora do século I a.C. de provável origem fenícia. Há também um acervo fotográfico, que também foi digitalizado, que documenta toda a história do cristal em Blumenau desde os primeiros dias de sopro da Hering até as feiras internacionais da Strauss.
A visita guiada custa R$ 38, dura mais de uma hora e passa pela fábrica em funcionamento. É possível encaixar em qualquer horário, segundo os organizadores do espaço. Ela ganhou o prêmio Best of Best do TripAdvisor, o mais alto reconhecimento da plataforma, e também acumula o selo Travelers’ Choice pelo quarto ano consecutivo. Os agendamentos podem ser feitos através deste link.
Além da visita guiada, existem outras três experiências. A segunda é o “sopro de criatividade” com a cana de vidreiro em uma forma que dá molde para a peça, disponível às 9h30min da manhã com agendamento, feito durante o intervalo dos artesãos. A terceira é a degustação de vinhos em diferentes taças de cristal. A quarta é a degustação de cervejas em tulipas. Ambas as experiências etílicas são bem avaliadas no TripAdvisor e mostram na prática a promessa de que a forma da taça muda o que está dentro dela.
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