Quem trafega pela BR-470 em Santa Catarina dificilmente nota a construção de tijolinhos discreta às margens da rodovia. Não há placas luminosas, não há fumaça chamativa, não há filas de caminhões estacionados e nem mesmo promoções chamando clientes. No entanto, dentro daquela unidade industrial em Indaial, a poucos quilômetros de Blumenau, opera uma das empresas mais estratégicas e tecnológicas do mundo – e que provavelmente o brasileiro médio nunca ouviu falar.
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A Albany International, sediada em New Hampshire (EUA), é uma gigante silenciosa. Com faturamento anual de 1,18 bilhão de dólares (cerca de R$ 6,7 bilhões na cotação atual) em 2025, a empresa de capital aberto é líder global na fabricação de tecidos industriais de altíssima precisão. São componentes que, embora invisíveis ao consumidor final, são absolutamente essenciais para a produção de itens do dia a dia, como papelão, papel higiênico, cadernos e até mesmo para componentes de aviões como o Boeing 737 MAX.
Afinal, o que a Albany faz ali?
A unidade de Indaial pertence ao segmento mais tradicional da Albany, o Machine Clothing (na tradução literal, “roupas para máquinas). Na prática, a fábrica produz mantas e feltros técnicos que vestem as enormes máquinas de papel. Sem esses tecidos de alta engenharia, capazes de suportar temperaturas extremas, pressão e atrito contínuo, não é possível formar, prensar ou secar a folha de papel em alta velocidade.
É como se a Albany fornecesse a “lona do ringue” para a luta diária das papeleiras. E a escolha de Indaial não é aleatória.
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Estratégia logística no Sul
A localização na BR-470, a 160 quilômetros de uma das maiores fábricas de celulose da América Latina, revela o jogo de xadrez corporativo da empresa.
A Albany instalou-se em Santa Catarina prioritariamente para atender a Klabin, que opera em Otacílio Costa (SC) a máquina PM 27, que é um dos maiores e mais modernos equipamentos do mundo para produção de papéis para embalagens.
Além da Klabin, a fábrica catarinense atende outras gigantes do setor no Brasil e na América do Sul, como Suzano e Bracell, consolidando-se como um hub logístico para o continente.

Mas por que a Albany é tão “discreta”?
Há três razões para a Albany ser uma “gigante invisível”. O primeiro deles está especificamente no modelo B2B: ou seja, a empresa não vende para consumidores finais. Os clientes são indústrias multibilionárias, não o varejo.
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O segundo motivo é o produto incorporado. O tecido industrial vira parte da máquina, não da prateleira do supermercado. O consumidor vê a caixa de papelão, mas não vê o feltro que a produziu.
E o terceiro ponto é a cultura de baixo perfil. Empresas de tecnologia industrial de ponta, especialmente as que atuam também no segmento aeroespacial e de defesa (o outro braço da Albany, o AEC, acredite se quiser), não costumam fazer alarde.
O outro lado bilionário
Aliás, o segmento Albany Engineered Composites (AEC) é o motor de crescimento da empresa. Ele fabrica componentes estruturais em compósitos avançados, incluindo peças que vão nos motores que equipam os aviões da Airbus e Boeing. É lá que estão aplicados os materiais mais nobres e de maior valor agregado.
Apesar da receita anual de 1,18 bilhão de dólares em 2025 (ligeiramente abaixo do 1,23 bilhão de dólares de 2024), a empresa enfrentou desafios no último ano. O resultado líquido foi negativo em US$ 57 milhões, puxado por custos excessivos e dificuldades de execução em contratos aeroespaciais, um problema pontual que a diretoria afirmou ao MarketBeat estar sob controle para 2026.
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Fato que o que a Albany faz é o que poucos veem, mas todos (ou quase todos) usam. Um papelão, uma folha de sulfite, uma encomenda da Amazon. Em algum lugar da cadeia produtiva, quase sempre há um tecido industrial da Albany. E parte deles nasce em Santa Catarina.









