Óculos inteligentes, lojas que não têm caixa e sensores que mapeiam até o sabor dos produtos. Esse tipo de inovação parece distante, mas, algumas das maiores empresa mundiais do varejo já têm utilizado estruturas assim para otimizar a rotina. É o que uma masterclass do SXSW 2026, que abordou os bastidores da Amazon e do Whole Foods, trouxe ao público.
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A NSC tem acompanhado de perto as movimentações do evento direto de Austin, no Texas. E um dos maiores aprendizados do evento é, justamente, que a inovação já faz parte da operação de empresas que se diferenciam no mercado. Cada vez mais, elas são integradas ao dia a dia do consumidor de forma quase imperceptível.
Por Gustavo Teixeira, diretor de marketing da NSC – direto de Austin, Texas
O futuro do varejo de alimentos não está apenas em lojas sem caixas, mas em uma infraestrutura invisível e altamente inteligente. Durante a missão do grupo “Cidades Inovadoras” de SC no SXSW, uma masterclass exclusiva com Leandro Balbinot, o executivo brasileiro que atua como CTO e COO da Amazon Grocery, revelou os bastidores dessa transformação.
Ele está à frente da operação tecnológica de marcas de peso como Whole Foods, Amazon Fresh e o braço de mercado da própria Amazon.com, um ecossistema de mais de US$ 140 bilhões. Durante a aula, Balbinot detalhou como a gigante do varejo utiliza IA e visão computacional para resolver dores reais e escalar a eficiência.
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Para profissionais de marketing, negócios e lideranças do setor supermercadista, o bate-papo foi uma aula sobre como aplicar tecnologia com foco obsessivo no cliente. Confira os principais insights e cases revelados:
“One Grocery”: O desafio logístico e o fim das fronteiras entre canais
O comportamento do consumidor já decretou o fim da divisão entre físico e digital: ele quer resolver a vida em uma única viagem. A resposta da empresa a isso é o movimento “One Grocery”, que visa unificar a infraestrutura da Amazon.com, Amazon Fresh e Whole Foods.
O grande desafio prático dessa unificação é puramente logístico e de tempo. Na rotina, o cliente pode comprar um eletrônico no aplicativo da Amazon e retirar o pacote em um balcão dedicado dentro da Whole Foods exatamente enquanto faz a feira semanal. A Inteligência Artificial atua nos bastidores para orquestrar essa sincronia complexa e garantir que o pedido seja separado e disponibilizado na loja no exato momento em que o cliente está por lá.
Para viabilizar a entrega integrada de itens perecíveis, especialmente sob o sol de 45ºC do Texas, a inovação se uniu à simplicidade: a operação passou a congelar garrafas de água mineral e enviá-las junto com as compras. A temperatura da sacola se mantém estável por horas e o cliente ainda ganha água gelada como cortesia.
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Gêmeos digitais: o fim do “achismo” e a criação do sortimento perfeito
Um dos maiores dilemas do setor supermercadista é a adequação de sortimento. Como definir com precisão o que vender em uma loja localizada em um bairro premium ou em uma unidade próxima a um campus universitário? Tradicionalmente, isso exigiria meses de testes físicos e planilhas intermináveis para calcular o impacto de cada troca na gôndola.
A solução da Amazon Grocery é o uso de Sensory (Flavor) Digital Twins, ou seja, Gêmeos Digitais Sensoriais. Nessa solução, a Inteligência Artificial mapeia o perfil de sabor, ingredientes e características dos produtos em um ambiente 100% digital.
Ao cruzar essas informações sensoriais com os dados hiperlocais de consumo, a IA consegue simular cenários e definir o mix ideal de produtos para aquela loja específica em questão de segundos, eliminando a necessidade de testes físicos exaustivos. O resultado é um sortimento “cirúrgico”, que atende perfeitamente à demografia daquele bairro, otimizando o giro de estoque de forma automatizada.
Amazon Dash Cart: O poder da inteligência contextual no salão de vendas
Se há uma tecnologia física que transforma a experiência em loja, é o Amazon Dash Cart. Embora o carrinho seja famoso por permitir que o cliente pule a fila do caixa, pesando produtos frescos e debitando o valor automaticamente, o verdadeiro poder está na inteligência contextual e nas oportunidades que ele cria para o marketing.
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O Dash Cart atua como um hub interativo e um assistente de compras inteligente. Como o sistema sabe exatamente onde o cliente está na loja e o que já colocou no cesto, ele se torna uma ferramenta de cross-selling imbatível. Se o cliente adiciona uma massa específica às compras, ao passar perto do corredor de bebidas, a tela do carrinho sugere proativamente um vinho que harmoniza com aquele prato e indica a prateleira para pegá-lo. É a personalização e a inteligência de recomendação do e-commerce aplicadas de forma orgânica no mundo físico.
ShelfSight e Óculos Inteligentes: A revolução invisível no estoque
Para quem opera supermercados, os produto em falta na prateleira são grandes vilões das vendas. Para combater isso, a Amazon desenvolveu o ShelfSight, um sistema de monitoramento de gôndolas que une modelos de visão computacional e IA Generativa (LLMs).
As câmeras da loja identificam espaços vazios nas prateleiras. Em vez de apenas emitir um alerta genérico, a IA analisa a imagem, cruza com o planograma (o mapa de onde cada produto deveria estar) e deduz exatamente qual SKU está faltando. O gerente da loja recebe um dashboard em tempo real (ShelfSight Dashboard) mostrando a foto da prateleira vazia, qual produto deve ser reposto e sua localização exata no mapa da loja.
Na ponta da operação, a separação de pedidos ganhou o reforço de Óculos Inteligentes. Balbinot detalhou o case da escolha de bananas: clientes têm preferências distintas, mais verdes ou mais maduras. Com os óculos inteligentes, o funcionário olha para a bancada e o sistema projeta a instrução visualmente e em áudio: “Pegue esta banana específica para este pedido e leve ao corredor 4”. A IA dos óculos traduz as instruções automaticamente para o idioma nativo do funcionário, reduzindo o tempo de treinamento e a margem de erro.
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Rufus: A IA generativa como assistente de compras
A inteligência artificial também está mudando a forma como o cliente planeja sua ida ao supermercado. Durante a apresentação, foi demonstrado o uso do Rufus, um assistente virtual conversacional focado em criar experiências mais intuitivas.
Em vez de buscar ingredientes soltos, o cliente digita comandos complexos no aplicativo, como: “Vou fazer uma festa para 10 pessoas e um dos convidados tem intolerância à lactose. Me dê opções de cardápio”. A IA Generativa responde com sugestões de pratos e, com um único clique, o cliente adiciona todos os itens necessários nas quantidades corretas direto para o seu carrinho.
O desafio da inovação e o cenário brasileiro
Questionado sobre a expansão global e os desafios de implementar essas soluções, Balbinot classificou o ecossistema brasileiro de e-commerce como um dos mais competitivos do mundo, com gigantes locais que operam em um nível de excelência logística altíssimo e com margens apertadas.
Qual o segredo para inovar nesse cenário? A cultura corporativa. O CTO pontuou uma premissa clássica da Amazon: a inovação exige tolerância ao erro. A empresa aceita operar inovações no vermelho por alguns anos, desde que haja um plano claro para escalar e, o mais importante, que a solução encante o cliente a ponto de construir um hábito. No fim do dia, a tecnologia é apenas o meio; o que garante a fidelidade é a fluidez da experiência.
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A presença da NSC no evento conta com o patrocínio de Rudnik e F/BRAVE.

