Um desafio que assola gestores de recursos hídricos e operadores de hidrelétricas em todo o mundo são as pequenas espécies aquáticas invasoras que conseguem se proliferar em sistemas de captação, tubulações e reservatórios, comprometendo a infraestrutura hídrica e a geração de energia.
Continua depois da publicidade
Foi pensando nesse problema, mais especificamente em espécies como os mexilhões quagga, zebra e dourado, que o governo dos Estados Unidos lançou uma competição: até US$ 200 mil, cerca de R$ 1 milhão na cotação atual, serão pagos a quem apresentar soluções inovadoras para conter a disseminação desses moluscos.
A iniciativa é da Bureau of Reclamation, agência federal dos Estados Unidos responsável por boa parte do abastecimento de água e da geração de energia hidrelétrica do país.
Desafio “Halt the Hitchhiker”
A competição se chama Halt the Hitchhiker: Invasive Species Challenge (“Detenha o carona: Desafio das Espécies Invasoras”). Segundo o site oficial, o objetivo é encontrar “soluções inovadoras para eliminar o risco de espécies aquáticas invasoras transportadas em água residual presa nos compartimentos de lastro das embarcações”, as estruturas internas que os barcos usam para se equilibrar na água.
Continua depois da publicidade
As propostas precisam ser capazes de eliminar, excluir ou inativar os mexilhões quagga, zebra e dourado, sem prejudicar embarcações, pessoas ou o meio ambiente, e sem gerar resíduos perigosos. Podem se candidatar pesquisadores, universidades, startups e inventores baseados nos Estados Unidos. As inscrições da primeira fase encerram em 29 de maio de 2026, e o vencedor final será anunciado no fim de setembro de 2027.

Como funciona o problema
Mesmo quando uma embarcação parece estar seca, sempre permanecem pequenas quantidades de água em mangueiras, válvulas e compartimentos de lastro fora do alcance dos inspetores. Essa água residual pode carregar veligers, as larvas microscópicas dos mexilhões, que sobrevivem ao deslocamento entre lagos e reservatórios, especialmente nos finais de semana de pico do turismo náutico.
Quando esses moluscos se instalam em um novo corpo d’água, eles se reproduzem rapidamente e se acumulam em sistemas de captação de cidades, fazendas e usinas de energia, em tubulações e bombas. Os equipamentos perdem força e potência, e o custo de manutenção dispara.
Continua depois da publicidade
Etapas e prêmios da competição
A competição é organizada pela empresa de inovação yet2 e dividida em três fases:
- Fase 1 (Conceito): até seis equipes vencedoras recebem até US$ 25 mil cada para apresentar conceitos de novas tecnologias de inspeção ou descontaminação;
- Fase 2 (Pitch virtual): até três equipes podem receber até US$ 50 mil cada após apresentação no formato de pitch virtual, para avançar com o desenvolvimento dos projetos;
- Fase 3 (Protótipos em laboratório): três equipes desenvolvem protótipos para testes em laboratório, com prêmios de até US$ 125 mil (cerca de R$ 625 mil) para o primeiro lugar; US$ 75 mil (R$ 375 mil) para o segundo; e US$ 50 mil (R$ 250 mil) para o terceiro.
Se distribuído entre equipes diferentes em todas as fases, o pagamento total da competição pode chegar a US$ 550 mil, segundo a Bureau of Reclamation.
Continua depois da publicidade
Um problema bilionário, e que também afeta o Brasil
Apenas os mexilhões quagga e zebra já causam mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões) por ano em prejuízos nos Estados Unidos, segundo dados da própria agência federal. A urgência aumentou após a detecção do mexilhão-dourado no delta do Sacramento-San Joaquin, na Califórnia, em outubro de 2024. Em poucos meses, foram registradas centenas de exemplares em uma única estação de bombeamento.
A história tem um paralelo direto com o Brasil. O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), um dos alvos da competição americana, é uma espécie originária da Ásia e chegou à América do Sul nos anos 1990, também por meio de água de lastro de navios cargueiros, com a Argentina como ponto de entrada, segundo o Ibama. A espécie já está presente nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e, mais recentemente, foi detectada na bacia do rio São Francisco.
Em Santa Catarina, o mexilhão-dourado foi incluído em junho de 2025 na nova lista oficial de espécies exóticas invasoras do Instituto do Meio Ambiente (IMA). De acordo com o Programa Estadual de Espécies Exóticas Invasoras, ele integra um conjunto de 99 espécies invasoras que ameaçam a biodiversidade catarinense. Estudo divulgado em 2024 e noticiado pelo NSC Total estimou que apenas 16 espécies invasoras causaram prejuízo mínimo de bilhões de reais ao Brasil em 35 anos.
Continua depois da publicidade
Enquanto não há solução
Enquanto o desafio americano não avança, o controle dessas pragas segue sendo feito por programas de inspeção e descontaminação manuais, que demandam tempo e mão de obra especializada. O processo geralmente começa com o enxágue dos compartimentos das embarcações com água aquecida, procedimento que pode levar até uma hora por barco e que se torna gargalo nos finais de semana de alta temporada turística.
A expectativa é que as tecnologias desenvolvidas pela competição “Halt the Hitchhiker” complementem (sem substituir) os programas de inspeção tradicionais.
