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    Guia para a vida em confinamento

    Assim como a vida antes da Covid, a rotina pode ajudar a promover e manter o sentimento de normalidade e realização

    11/05/2020 - 12h57

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    Por The New York Times
    vida
    (Foto: )

    *Por Jane E. Brody

    Não tenha medo, caro leitor. Não vou dizer quanto estou me divertindo ao me resguardar da Covid, imaginando se a próxima pessoa sem máscara que passar muito perto de mim na rua ou em uma loja vai me transmitir um vírus mortal. Mas espero oferecer algumas dicas úteis de sobrevivência e ajudá-lo a perceber que, por mais angustiado que você possa estar se sentindo, você não é anormal nem está sozinho.

    Sei que tenho mais sorte do que muitos milhões de pessoas na minha cidade e em outros lugares, mas isso não me torna imune a sentimentos periódicos de desespero, que luto para superar. Além da idade (faço 79 anos no dia 19 de maio) e de uma relutância em evitar totalmente os supermercados, não tenho condições subjacentes que me coloquem em risco especialmente alto de doença e morte por Covid-19.

    Entre as vantagens que não tomo como certas, tenho um emprego e uma renda decente; uma casa confortável, sem aluguel ou hipoteca; um cão que me conecta com outros humanos três vezes por dia; e um estoque de alimentos não perecíveis que amigos e familiares sempre brincaram que poderia sustentar um exército por um ano.

    E, até agora, esses amigos e a família estão vivos e bem. Uma vez por semana, na porta de casa, falo com meu filho, minha nora e meus netos que vivem aqui na cidade, para manter um contato pessoal.

    Mas esses benefícios não apagam a mesmice relativa de todos os dias, que me obriga a checar meu telefone para saber se é quinta ou domingo. Eles não compensam os sentimentos de vazio, sem perspectivas de diversão, nos próximos meses, com amigos e familiares, ou a solidão de ter de depender de atividades solo como rádio, televisão, livros, "The New Yorker" e "The New York Times" para informação, distração e cultura. Muitas vezes, acho difícil me concentrar e já abandonei várias séries na TV, além de às vezes ter de ler os mesmos parágrafos várias vezes.

    E, claro, a angústia resultante é aumentada exponencialmente pelas perdas trágicas aparentemente intermináveis de vidas e meios de subsistência sobre as quais leio ou das quais ouço falar, e que me sinto tão impotente para prevenir.

    Dito isso, como todos vocês, fui forçada a criar um novo normal e uma rotina que é razoavelmente gratificante na maioria dos dias e ocasionalmente até mesmo alegre. Como na tarde de domingo em que meu amigo e eu assistimos, cada um em sua casa, à retransmissão da PBS da produção do Metropolitan Opera de "Akhnaten", durante a qual mandamos comentários um para o outro, algo que não poderíamos ter feito no Met ou durante a exibição em um cinema.

    Assim como a vida antes da Covid, a rotina pode ajudar a promover e manter o sentimento de normalidade e realização. Meu despertador ainda toca às 05h30 todas as manhãs e me dá tempo de tomar uma xícara de café, preparar meu desjejum, verificar as manchetes do dia, arrumar a cama e fazer 40 minutos de exercícios para as costas antes de tirar meu cão, Max, de sua caminha e levá-lo para passear no parque (a vida dele não mudou!).

    Continuo dedicada ao exercício diário para mim também. Incapaz agora de nadar todas as manhãs no Y, alterno entre uma caminhada de 45 minutos e uma volta de bicicleta antes de tomar banho, vestir roupas casuais e tomar um café da manhã completo. Com tão poucos carros na rua, nunca houve um momento mais seguro para pedalar por Nova York, caso o parque local esteja superlotado com caminhantes erráticos, corredores e ciclistas, muitos dos quais sem máscaras.

    Devidamente mascarada, quase bati em um pedestre que não pude ver através dos meus óculos de ciclismo embaçados e me lembrei de um truque dos meus dias de mergulho: esfregar detergente nas lentes, enxaguar bem e secar com uma toalha de papel. Funciona para caminhadas também.

    Mesmo costurando mais de uma dúzia de colchas, fui reprovada no curso básico de fabricação de máscaras. Em todas as tentativas, só consegui produzir algumas que me machucavam as orelhas, superaqueciam o rosto ou ambos, de modo que encomendei cinco máscaras comerciais e, enquanto isso, uso uma de exame médico ou de poeira na rua, e ambas quando vou às compras.

    Muitas pessoas admitem ter dificuldades com problemas alimentares agora que o estresse relacionado ao vírus e ao trabalho em casa interrompem os horários regulares de refeição e permitem viagens frequentes à geladeira. Embora um vizinho tenha dito que perdeu dez quilos desde que seu escritório fechou, histórias de ganho de peso indesejado são mais comuns.

    Sabendo que eu ficaria tentada a recorrer à comida (ou à bebida) para combater minha perda de peso induzida pelo vírus, fiz uma promessa a mim mesma em meados de março: pesar-me todas as manhãs e me manter dentro de uma faixa de dois quilos, mas com um prêmio diário – alguns biscoitos salgados ou um quarto de xícara de sorvete leve – para evitar me sentir infeliz. Quando meu peso começou a aumentar em meados de abril, revivi um antigo hábito de escovar os dentes e passar fio dental depois do jantar, para controlar o desejo de um lanche noturno.

    Ainda gosto de cozinhar, mas, como é só para mim, e com as tarefas negligenciadas e a limpeza da casa reivindicando meu tempo livre, simplifiquei o preparo das refeições. Toda semana asso muitos legumes – cenoura, couve-de-bruxelas, minipimenta, aspargo, couve-flor etc. – para usar em várias refeições.

    Os cafés da manhã alternam entre banana fatiada com manteiga de amendoim; uma tigela de espinafre, legumes assados picados e um terço de uma lata de sopa aquecida por três minutos no micro-ondas; ou Cheerios com nozes, passas, banana e leite desnatado. E café, claro, com um biscoito salgado.

    Para almoços leves, rápidos e nutritivos, conto com um suprimento de homus, bolachas integrais, tomates, iogurte grego, melão e mirtilos. Paro de trabalhar por volta das 17h30 para jantar cedo com Max, que faz sua caminhada noturna durante os aplausos de agradecimento aos trabalhadores essenciais, às 19h. Estoquei filés de peixe congelado, hambúrgueres vegetarianos e vieiras, além de salsichas de frango com baixo teor de gordura, atum enlatado, feijão-preto e grão-de-bico, combinando-os de várias maneiras para fazer uma salada ou um prato para o jantar.

    Com medo de me esquecer de cozinhar, fiz uma grande panela de sopa picante de repolho e peru, e congelei porções individuais. Assei cubos de abóbora com cebola picada em uma forma e, em outra, uma lata de grão-de-bico com curry, depois combinei os dois para um jantar delicioso. Para as refeições simples, para não precisar cozinhar, fiz uma salada de feijão-preto.

    Depois de algumas noites sem dormir, aprendi a evitar ler sobre a pandemia e não assistir a programas perturbadores como o especial da PBS "Mudanças Climáticas – Os Fatos" antes de dormir.

    E estou sempre à procura de maneiras de enriquecer o espírito. A primavera está gerando um monte de flores magníficas em cada quarteirão, e todos os dias paro para admirar as papoulas e samambaias que surgem no meu pequeno jardim da frente. É como se a natureza soubesse que precisávamos de ajuda para superar este desafio.

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