Quem olhou para o céu durante o mês de fevereiro em 1986 notou um rastro luminoso, semelhante a uma bola de fogo, mas repleto de cores e que insistia em aparecer, dia após dia, no horizonte. Era o cometa Halley, que a cada sete décadas faz uma visita à Terra. A última passagem do corpo celeste completa quarenta anos agora em 2026 e já desperta ansiedade entre os entusiastas da astronomia para o retorno ao Sistema Solar.

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O astro foi “descoberto” no início do século 18 pelo astrônomo inglês Edmond Halley (daí a origem do nome), que identificou que os cometas vistos no céu em 1531, 1607 e 1682, na verdade, eram o mesmo corpo celeste, em órbita periódica. Edmond percebeu que esse mesmo cometa mantinha uma trajetória única e que voltava ao Sistema Solar em intervalos regulares de aproximadamente 76 anos.

A descoberta feita por Edmond Halley quebrou uma teoria da ciência na época, que acreditava que os cometas, independente da origem, faziam uma única visita ao Sistema Solar. Posteriormente, foram descobertos outros corpos celestes semelhantes que também apresentam órbitas periódicas, como o Encke (a cada 3,3 anos). Atualmente, agências espaciais já catalogaram mais de 400 cometas com visitas frequentes ao nosso sistema solar.

Chegamos perto

A última passagem do cometa Halley pelo Sistema Solar foi muito bem aproveitada pela ciência. Durante a aproximação com a Terra, a sonda Giotto, da Agência Espacial Europeia (ESA), passou a menos de 600 quilômetros de distância do corpo celeste.

O equipamento, lançado em 1985, se aproximou de Halley no dia 13 de março de 1986 e fez imagens do núcleo do cometa, possibilitando estudos detalhados do corpo celeste, que são usados até hoje para explicar detalhes de diversos astros semelhantes.

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Uma das imagens mostra o núcleo em forma de batata e coberto por um material escuro, liberando jatos de poeira e gás. Foi através desses registros que os cientistas descobriram como são formadas as famosas caudas dos cometas.

A sonda foi atingida por detritos do cometa, mas continuou funcionando normalmente e enviando imagens e dados para os observatórios na Terra. 

Presentes de Halley

Apesar de só nos visitar a cada 76 anos, o cometa Halley deixou lembranças: anualmente, podemos observar no céu noturno uma espécie de presente do corpo celeste que transcende gerações. 

Trata-se de duas chuvas de meteoros: as Eta Aquáridas, no início de maio, e as Orionídeas, geralmente entre o final de outubro e os primeiros dias de novembro. Ambas podem ser vistas a olho nu, desde que as condições meteorológicas permitam.

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Os meteoros são causados por detritos do cometa — fragmentos que se soltam do corpo celeste após a passagem pelo Sol. Anualmente, a Terra, durante a órbita em torno da estrela, passa por esse rastro. Em contato com a nossa atmosfera, esses fragmentos do Halley se desintegram, causando efeitos visuais no céu — geralmente riscos luminosos e coloridos e que são popularmente conhecidos como “estrelas cadentes”.

Durante os chamados picos de atividade, as chuvas podem proporcionar dezenas de meteoros por hora. O auge das Eta Aquáridas, em 2026, está previsto para a madrugada de 5 para 6 de maio, quando vamos poder observar até 50 ocorrências por hora no céu.

Já as Orionídeas terão o pico de atividade entre os dias 21 e 22 de outubro, tendo o melhor horário para observação entre as 23h até poucos minutos antes do amanhecer. Em condições ideais, será possível ver até 20 meteoros por hora cruzando o horizonte.

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Fim do mundo

Como é de se esperar, uma série de lendas urbanas ronda o cometa Halley a cada passagem pela Terra. Uma das mais famosas foi durante a penúltima visita do astro ao Sistema Solar, em 1910. Na época, interpretações equivocadas de alguns cientistas e matérias sensacionalistas em jornais espalharam a notícia de que a cauda do cometa poderia causar um envenenamento em massa, e que possivelmente esse fenômeno resultaria na extinção de toda a vida na Terra.

Por conta desses boatos, o Halley ganhou o apelido de “Cometa do Fim do Mundo” no início do século passado.

Ele está voltando

A última visita do Halley foi em 1986, mas já podemos nos preparar para recebê-lo em nosso céu. O cometa já iniciou o “caminho de volta” para o nosso Sistema Solar. A próxima passagem está prevista para meados de 2061 – daqui a pouco mais de 35 anos.

A aproximação máxima com o Sol, chamado de periélio, está prevista para acontecer no dia 28 de julho de 2061. A partir do dia seguinte, chegará perto da Terra e passa a ser visível no céu, especialmente entre a madrugada e as primeiras horas após o amanhecer. O brilho deve ser ainda mais intenso do que o da última passagem, ou seja, as condições de visibilidade devem ser excelentes por algumas semanas.

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Será, literalmente, uma oportunidade única de presenciar um dos astros mais famosos já conhecidos. Muitos de nós nem éramos nascidos na última passagem, em 1986, e certamente não estaremos vivos quando, mais uma vez, o cometa Halley voltar ao Sistema Solar, em 2137.