A trajetória da Legião Urbana e de Renato Russo com Brasília é cercada de mitos, mas a relação entre a banda e sua terra natal terminou de forma traumática. O que começou como uma fuga do tédio da capital federal nos anos 1980 virou um divórcio definitivo após um show que terminou em quebra-quebra generalizado e revolta.
Continua depois da publicidade
A ruptura aconteceu em 18 de junho de 1988, no antigo Estádio Mané Garrincha. No auge do sucesso do álbum “Que País é Este”, o evento foi marcado por graves falhas de som, atrasos e superlotação. Durante a apresentação, um fã conseguiu invadir o palco e agarrou Renato Russo pelo pescoço.
O vocalista reagiu assustado e profundamente irritado com a falta de segurança. As constantes interrupções e o clima tenso desencadearam uma onda de vandalismo no estádio, com confronto entre o público e a polícia. O show foi encerrado às pressas após apenas 50 minutos, e o episódio fez o grupo banir Brasília de sua agenda de turnês comerciais para sempre.
Doença e isolamento na Asa Sul
Anos antes de lotar estádios, o líder da Legião Urbana usou o isolamento geográfico de Brasília para criar sua identidade musical. Nascido no Rio de Janeiro, Renato Manfredini Júnior chegou à capital federal em 1973. Na adolescência, enfrentou a epifisiólise, uma doença óssea grave que o obrigou a passar por cirurgias e a ficar trancado na cama por longos períodos.
Foi nesse período de reclusão na Superquadra Sul 303 que ele mergulhou na literatura e no cinema. No quarto, o jovem rabiscou as primeiras letras e inventou bandas fictícias. Ao se recuperar, passou a dar aulas de inglês e a frequentar o cenário punk local. Em 1978, fundou o Aborto Elétrico ao lado dos irmãos Fê e Flávio Lemos, que mais tarde criariam o Capital Inicial.
Continua depois da publicidade
A explosão que mudou o rock nacional
Brigas internas e a busca de Renato por um som mais poético sepultaram o Aborto Elétrico. Após uma rápida fase como O Trovador Solitário, o músico se uniu ao baterista Marcelo Bonfá, ao guitarrista Dado Villa-Lobos e ao baixista Renato Rocha para dar vida à Legião Urbana, em 1982. O grupo estreou em Patos de Minas, mas se consolidou nas arenas improvisadas do Distrito Federal.
As letras contestadoras sobre as angústias dos jovens e o fim da ditadura militar chamaram a atenção da gravadora EMI-Odeon. O primeiro disco, lançado em 1985 com faixas como “Será” e “Geração Coca-Cola”, vendeu 550 mil cópias.
O sucesso abriu as portas do mercado nacional para o rock feito no Planalto Central e pavimentou o caminho para o álbum Dois, que consolidou o grupo no topo das paradas com os clássicos “Tempo Perdido” e “Eduardo e Mônica”.






