O historiador e coordenador do Programa Memória CVJ (Câmara de Vereadores de Joinville), Patrik Roger Pinheiro, descobriu uma lacuna na história da maior cidade de Santa Catarina. Um prefeito que governou Joinville entre 1950 e 1951 não consta na lista oficial de chefes do executivo municipal. Emilio Stock Junior foi “apagado” do passado joinvilense, mas seu impacto na cidade dura até hoje e ajuda a contar essa história para gerações futuras.

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Família Stock

As pesquisas de Patrick apontam que Emilio Stock Junior veio de uma família com raízes alemãs e de boa condição financeira. Seu avô, Augusto Stock — ou Friedrich August Stock —, foi vereador da 3ª Legislatura Monárquica de Joinville. Ele veio de Hainichen, na Saxônia, uma região que atualmente é conhecida como o leste da Alemanha.

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Ele chegou à Colônia Dona Francisca em agosto de 1855, aos 22 anos, e continuou a profissão de açougueiro. Augusto abriu um estabelecimento no Centro da cidade, onde nos dias atuais fica localizada a Praça Bailarina Liselott Trinks, no cruzamento das ruas 9 de Março, Visconde de Taunay e Avenida Juscelino Kubitscheck. Também mantinha terrenos na área rural da cidade.

Conforme pesquisa da Memória CVJ, Augusto venceu a eleição de 1876 com 343 votos e se tornou o presidente da Câmara. Augusto era pai do comerciante Emílio Stock — também conhecido como Emil August Christian Stock —, um homem de negócios de Joinville.

Emílio Stock Sênior, pai do prefeito esquecido, fundou a Emilio Stock & Cia, uma empresa que atuava na fabricação de telhas. Sênior foi vereador, na 9ª Legislatura da Primeira República, e membro fundador da Lira — que mais tarde se fundiu ao Harmonie, criando a Sociedade Harmonia Lyra.

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Emilio Stock Junior, filho de Emílio Stock Sênior e neto de Augusto Stock, decidiu não seguir a carreira política. Focou nos negócios da família e era chamado de “doutor Emilio”, apesar de não haver registros se este era médico ou advogado, profissões que costumam levar o título.

Como Emilio Stock Junior se tornou prefeito

O historiador Patrik Roger Pinheiro conta que, em março de 1950, começou a circular na imprensa a possibilidade do prefeito da época, João Herbert Érico Colin — ou simplesmente João Colin —, renunciar ao cargo para concorrer ao governo do Estado. No dia 29 daquele mês veio a confirmação e uma reunião de última hora para eleger o chefe do executivo.

Na época, não eram formadas chapas para eleições. Dessa forma, não havia um vice-prefeito a postos para assumir o cargo. Conforme lei, o presidente da Câmara de Vereadores deveria assumir a função caso fosse necessário. Rolf João Max Colin, primo de João Colin, recusou a oferta e decidiu seguir como presidente do legislativo — para, no ano seguinte, concorrer ao cargo e ficar quatro anos à frente da prefeitura.

Por isso, os vereadores da época precisaram chegar a um consenso e escolher um nome para indicar ao cargo. Foi assim que chegaram ao não-político Emilio Stock Junior.

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— Não sei como eles chegaram a esse nome, a gente não tem acesso aos bastidores, só o que saiu em jornais. Mas dá para imaginar que a Câmara se alinhou, já que tinha a maioria do [partido] UDN, com nove vereadores. O João Colin era da UDN também. Antes de dizer que ia renunciar, o Colin já devia ter avisado os amigos na Câmara. E quando eles foram escolher, houve uma eleição unânime. Então, os alinhamentos já estavam prontos quando eles foram fazer essa eleição — especula o historiador.

Pinheiro ainda afirma que Emilio Stock Junior já era conhecido por João Colin, já que em 26 de setembro de 1949 o político assinou um projeto de lei que recebia dois terrenos na região central da cidade. A doação foi feita por Emilio Stock Junior e pela empresa da família.

Os terrenos, de 436,42 quadrados e 1.456 metros quadrados, formaram o território que o executivo precisava para a construção da Praça da Bandeira, inaugurada em 1951, e que existe até os dias atuais no Centro de Joinville.

À frente do executivo municipal

Como prefeito, Emilio esteve à frente de decisões importantes e polêmicas. Em 7 de junho de 1950, por exemplo, o prefeito declarou três feriados municipais: a Comemoração dos Mortos (atual Dia dos Finados), Sexta-feira da Paixão e Ascensão de Nosso Senhor.

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Já em 6 de julho do mesmo ano, Emilio assinou uma lei que permitia a construção de edificações de madeira no Centro durante as festas do centenário da cidade.

— Joinville estava se preparando para a festa do centenário, uma festa muito grande que teve. Então, iam receber muita gente de fora. [Na época] não podia ficar construindo qualquer casebre no Centro, por lei, mas para acomodar as pessoas que vinham de fora, precisaram fazer algumas construções de forma rápida. Então, permitiram que fossem feitas edificações de madeira, de forma emergencial, mas depois tiveram que desmontar — conta o historiador.

Preso no batalhão

Durante o tempo que estava à frente da Prefeitura de Joinville, Emilio enfrentou uma polêmica e chegou a ficar detido no batalhão. Em 19 de outubro de 1950, uma briga com um cabo da polícia levou o prefeito a passar a noite no 13º BC de Joinville, atual Batalhão de Infantaria (62º BI).

Conforme noticiado no Jornal de Joinville, nas edições de 20 e 21 de outubro de 1950, a discussão aconteceu por volta das 22h em um estabelecimento conhecido como “café Ravache”.

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— Um camarada passou perto dele [do Emilio], quebrou uma garrafa e discutiu por causa do Getúlio Vargas. Então, o Emilio Stock, enquanto era prefeito, foi recolhido no 13º Batalhão. Teve que ser impetrado um habeas corpus preventivo para ele ser liberado depois — relata o historiador.

Segundo as notícias da época, o próprio João Colin foi seu advogado e atuou na liberação de Emilio.

Homenagens ao Emilio

Emilio Stock Junior ficou praticamente nove meses à frente da prefeitura municipal, entre o final de março e dezembro de 1950. Em 31 de janeiro de 1951, foi homenageado com um grande jantar na Sociedade Ginástica. O Jornal de Joinville registrou a celebração, que iniciou às 17h30min daquele dia.

“O sr. Emilio Stock Junior […] manteve-se à altura do cargo, agindo com prudência e dedicação aos interesses do município”, pontuou o jornal na matéria de homenagem.

Além da política, Emilio também atuou como presidente da Sociedade Harmonia Lyra, entre os anos de 1926 e 1927, e, novamente, entre 1932 e 1933.

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Após os meses como prefeito, Emilio não retornou ao cenário político da cidade. Ele morreu anos depois e foi homenageado, em 1969, com a criação de uma escola que leva o seu nome na Estrada do Salto, no bairro Vila Nova.

Escola que leva seu nome (Foto: Prefeitura de Joinville, Divulgação)

Memória CVJ

A descoberta sobre a vida e mandato de Emilio Stock Junior foi possível graças ao trabalho do programa Memória CVJ, com coordenação do historiador Patrik Roger Pinheiro. Conforme o profissional, o legislativo atual apoia e incentiva as ações de resgate à história da cidade.

— O nome [do Emilio] eu já conhecia, já sabia que era prefeito. Mas, por acaso, eu pensei em dar uma olhada na página dos prefeitos. Eu estava trabalhando na história do Emílio. Aí pensei: “mas o Emilio não está aqui” — revela.

Falta do Emilio nos registros oficiais

A reportagem do NSC Total confirmou que, além de Emilio Stock Junior não estar listado de forma digital no site da prefeitura como um dos ex-prefeitos de Joinville, ele também não está presente na galeria de prefeitos na sede da prefeitura.

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Questionada, a administração atual afirmou que não houve solicitação para inclusão do nome na lista oficial de prefeitos e não há, neste momento, pesquisa em andamento sobre o assunto.

“Para que um novo nome seja incluído na lista oficial, é necessário que a atuação no cargo seja confirmada mediante estudo, com verificação de fontes e registros históricos”, disse a prefeitura.