nsc
an

Nosso Vale do Silício

Joinville precisa se reinventar para consolidar o ecossistema local de inovação

Entendimento do governo municipal é de que a atual matriz econômica está com prazo de validade já em contagem regressiva, de cerca de 20 anos

14/11/2018 - 15h33 - Atualizada em: 12/02/2019 - 16h08

Compartilhe

Luan
Por Luan Martendal
Hoje a indústria responde por R$ 7,4 bilhões dos R$ 25,6 bilhões que formam o Produto Interno Bruto (PIB) de Joinville, indicando que a economia local precisa mudar de “chave”
Hoje a indústria responde por R$ 7,4 bilhões dos R$ 25,6 bilhões que formam o Produto Interno Bruto (PIB) de Joinville, indicando que a economia local precisa mudar de “chave”
(Foto: )

Joinville herdou em seu DNA a veia empreendedora trazida pelo povo germânico às terras catarinas, e essa vocação a tornou a mais industrial das cidades catarinenses e detentora do terceiro maior polo econômico do Sul do Brasil. São essas conquistas que diante do horizonte que se desenha legitimam Joinville mais uma vez a mostrar sua força em um momento de transição. Estalo que pode servir como catalisador para que Santa Catarina fortaleça ainda mais e melhor seu ecossistema de inovação.

O entendimento do governo municipal é de que a atual matriz econômica está com prazo de validade já em contagem regressiva, de cerca de 20 anos. Hoje a indústria responde por R$ 7,4 bilhões dos R$ 25,6 bilhões que formam o Produto Interno Bruto (PIB) de Joinville, indicando que a economia local precisa mudar de “chave”. A percepção é notória, segundo o secretário de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável, Danilo Conti.

— Temos uma indústria tradicional, que é competitiva, que continua se desenvolvendo e crescendo bem, mas estudos atestam que daqui a pouco isso se estabiliza, entra em decadência e vai forçar a cidade a se reinventar. Estamos nos antecipando e o desafio é desenvolver uma matriz econômica não para substituir quem está no mercado, mas para ampliar a competitividade e dar condições de renovação para a economia local — salienta ele.

O caminho escolhido veio por meio de uma análise de tendências, vocação e potencial que mostrou as áreas que Joinville deve investir: internet industrial, tecnologia da informação e comunicação (TIC), biotecnologia, desenvolvimento de novos materiais e logística. Foi essa visão que ajudou a traçar o plano da Joinville do amanhã, o de virar a maior referência de ‘Smart City’ da América Latina.

Um plano ousado iniciado há três anos e que tem como marco alcançar o posto de principal cidade inteligente e humana da Região até 2040. O projeto se baseia na ligação de tecnologia avançada com mecanismos de gestão urbana, que, por meio do armazenamento e leitura inteligente de dados. Ação que pode se reverter na melhoria da qualidade de vida da população e, ao mesmo tempo, fazer de Joinville uma propulsora de tecnologia de ponta no Estado.

— Não dou muito tempo para que Joinville tenha esse protagonismo, porque temos recursos determinantes como capital de risco e mercado. Nós estamos falando em desenvolver startups e nossa indústria já começou a perceber que é determinante pelo menos abrir portas para elas e se reinventar. E o fato de termos mercado mais do que qualquer outra cidade vai nos colocar num estádio de vanguarda — visualiza o secretário.

“Vibe” em construção

O ponto de partida para este novo ciclo foi dado com a proximidade da cidade com a internet industrial e a consciência de que era necessário fomentar o ecossistema de inovação local. E a mudança de “vibe” começou a aparecer com o crescimento de eventos como ExpoInovação, Meetups, Startup Weekend e Hack Town. Além disso a cidade passou a interagir de forma mais enérgica com incubadoras. Um exemplo é a Softville, que reoxigenou o perfil das empresas lá existentes e acelera, capacita e orienta uma nova geração de empreendedores joinvilenses.

Os espaços compartilhados e os coworkings, características desse novo modelo, também são evidenciados. A cidade tem exemplos reconhecidos como o Fliperama, que mantém um espaço colaborativo com cerca de 30 empresas instaladas, e o Carbon Coworking, com cerca de 120 pessoas ocupando juntas um ambiente com dois mil metros quadrados, em 21 empresas e em projetos paralelos.

O momento é reforçado pelo desenvolvimento de hubs de inovação e ideias como o Inovaparq - Parque de Inovação Tecnológica de Joinville, gerenciado pela Universidade da Região de Joinville (Univille) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e o Join.Valle, espécie de bandeira que representa a virada econômica municipal.

O Join.Valle inclusive, à exemplo do Vale do Silício, nasceu como iniciativa pública e se tornou uma organização sem fins lucrativos com o propósito de unir todos os atores do ecossistema rumo a uma inovação sustentável e durável.

— O poder público teve há três anos esse papel de colocar todos numa mesma direção, em que não é preciso todo mundo caminhar junto, mas essas iniciativas nas suas individualidades precisam enxergar a mesma cidade lá na frente, porque aí vai haver um ponto de confluência e então a cidade se transforma — conclui.

Região do Porto Digital em Recife
Região do Porto Digital em Recife
(Foto: )

Inspiração no modelo do Porto Digital em Recife

De Recife, a capital de Pernambuco, vem um exemplo inspirador para o futuro que se quer para Santa Catarina: a capacidade de transformar a economia e a qualidade de vida local com a tecnologia. O polo pernambucano é um dos mais reconhecidos parques tecnológicos do Brasil e conta com cerca de 300 empresas concentradas na região do Marco Zero, que empregam milhares de pessoas, faturam bilhões de reais todos os anos e ajudaram a mudar a realidade de um bairro inteiro.

Durante décadas, a região portuária do Recife antigo sofreu com o abandono e a criminalidade, mas nos últimos anos tudo ficou para trás. Os casarões centenários antes ocupados por traficantes e usuários de drogas ganharam um novo significado com a instalação do Porto Digital, que simboliza o parque tecnológico da cidade.

Um caminho de sucesso trilhado há 17 anos, que começou com três empresas e deve fechar 2018 com faturamento de quase R$ 2 bilhões. Tudo calcado no modelo da tríplice hélice, o mesmo que Santa Catarina está começando a seguir.

— É como se fosse uma reocupação do conhecimento — descreve Guilherme Calheiros, diretor de inovação e competitividade.

Colunistas