Pela primeira vez em cinco meses, a Lagoa de Ibiraquera, em Imbituba, no Sul catarinense, foi classificada como imprópria para banho. O alerta consta no mais recente relatório de balneabilidade divulgado pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), com base em coleta realizada no dia 13 de janeiro de 2026.

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O ponto monitorado próximo à foz da lagoa apresentou contaminação fecal recente, identificada pela presença da bactéria Escherichia coli (E. coli), indicador de poluição por esgoto ou dejetos de origem animal e humana. Um local é considerado impróprio quando mais de 20% das amostras analisadas ultrapassam 800 E. coli por 100 mililitros, ou quando a última coleta registra valor superior a 2.000 E. coli por 100 mililitro, critério atendido nesta análise.

Localizada em uma área de grande valor ambiental e turístico, a Lagoa de Ibiraquera vem sofrendo, há anos, os impactos da ocupação humana em seu entorno. Apesar do resultado negativo neste ponto específico, a maioria das praias inseridas na Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca segue própria para banho, com índices considerados bons em comparação a outras regiões do litoral catarinense.

Dentro da unidade de conservação, além da Lagoa de Ibiraquera, foram apontados como impróprios no relatório divulgado em 16 de janeiro os seguintes locais: Praia da Pinheira, Praia de Garopaba, Lagoa dos Freitas e a Praia do Rincão, em Balneário Rincão.

Saneamento deficiente causa impacto na Lagoa da Ibiraquera

A deficiência no saneamento básico é apontada como um dos principais fatores de pressão sobre as lagoas costeiras da região. Conforme avaliação do analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) na Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca (APABF), Stéphano Diniz Ridolfi, o cenário está associado, em grande parte, ao processo de ocupação irregular no entorno desses ambientes.

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Segundo Ridolfi, a poluição por esgoto pode ocorrer de forma pontual, quando há uma fonte específica identificável, ou de maneira difusa. No local, predomina a contaminação difusa do lençol freático, causada principalmente pelo uso de fossas irregulares, que acabam contribuindo para o lançamento de resíduos nas águas da lagoa.

Esse tipo de contaminação dificulta a responsabilização direta dos poluidores, já que não é possível identificar com precisão as edificações que contribuem para a degradação ambiental, o que limita a adoção de medidas punitivas individuais. A abertura irregular da barra, que ocorre quando a faixa de areia entre a lagoa e o mar é rompida sem autorização ambiental, não resolve a contaminação da água.

De acordo com o analista, o enfrentamento do problema depende da atuação integrada de diferentes esferas do poder público. Ele destaca a necessidade de envolvimento de órgãos ambientais, prefeituras e Ministério Público, além da participação da sociedade, para lidar com o conflito socioambiental que afeta tanto a qualidade de vida da população quanto a conservação dos ecossistemas.

Plano de ação para lagoas costeiras

Ainda no primeiro semestre de 2026, a Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca deve lançar o Plano de Ação das Lagoas Costeiras da APA. O documento terá vigência de cinco anos e prevê medidas voltadas à conservação e ao monitoramento ambiental, incluindo análises periódicas da qualidade da água, acompanhamento do nível hídrico e caracterização das lagoas costeiras sob influência da unidade de conservação.

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O que diz a prefeitura de Imbituba

A prefeitura se manifestou em nota:

“A Prefeitura de Imbituba, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca (SMAAP), em conjunto com o Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (SAMAE), esclarece que a classificação da Lagoa de Ibiraquera como imprópria para banho decorre de monitoramento realizado pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), no âmbito do Programa Estadual de Balneabilidade.

A coleta que resultou nessa classificação ocorreu no dia 13 de janeiro, período em que a barra da lagoa já se encontrava aberta, condição que influencia diretamente a dinâmica hidrológica do sistema, a circulação da água e a dispersão de possíveis contaminantes, devendo esse contexto ambiental ser considerado na análise dos resultados.

A secretária municipal de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca, Patrícia Menegaz, destaca que a balneabilidade reflete a qualidade momentânea da água, podendo variar conforme fatores ambientais como o regime de chuvas, a abertura da barra, as características hidrodinâmicas da lagoa e os aportes difusos na bacia de contribuição. O cronograma e os resultados das coletas são públicos e estão disponíveis no site do IMA.

Do ponto de vista da gestão ambiental, a SMAAP informa que está em fase de implantação o Programa Lagoas Costeiras de Imbituba, com execução prevista ainda para este ano. A iniciativa terá como foco o diagnóstico ambiental, o monitoramento da qualidade da água e do meio biótico, além de suporte técnico à gestão ambiental das lagoas do município.

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Em relação ao saneamento básico, o SAMAE reconhece que a ausência histórica de infraestrutura adequada é um dos fatores que contribuem para a degradação ambiental da Lagoa de Ibiraquera, especialmente no que se refere à qualidade da água e à balneabilidade, conforme apontado pela APA da Baleia Franca.

Nesse sentido, o diretor-presidente do SAMAE Regis da Silva, informa que já estão em andamento ações concretas para enfrentar o problema. No final de 2025, foi assinada a ordem de serviço para a elaboração dos estudos e projetos executivos do Sistema de Esgotamento Sanitário da região central do município, etapa fundamental para viabilizar a futura implantação da rede pública de coleta e tratamento de esgoto. Para 2026, está previsto o lançamento de um novo edital de licitação para a elaboração de projetos de esgotamento sanitário nas demais regiões da cidade, incluindo áreas que influenciam diretamente a Lagoa de Ibiraquera.

Paralelamente às ações estruturantes, o SAMAE adotará medidas de curto prazo, como a Operação Rede Limpa, que entrará em operação em breve e terá como foco a fiscalização, orientação e regularização de ligações irregulares de esgoto, especialmente o lançamento indevido de efluentes em redes pluviais. Como ação permanente e de longo prazo, também será implantado, a partir de 2026, o Programa de Educação e Valorização da Água (PROEVA) nas escolas do município, com foco na educação em saneamento básico, conscientização ambiental e mudança cultural.

Para finalizar a Prefeitura de Imbituba reforça que a recuperação e a preservação da Lagoa de Ibiraquera dependem de um conjunto de ações contínuas, integradas, estruturais e educativas, e reafirmam que o saneamento básico é tratado como prioridade dentro do planejamento estratégico do município.”

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