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Santa Catarina

Laudo sobre morte de delegados federais em Florianópolis aponta divergências

Concluído na última sexta-feira, dia 13, a peça agora será juntada ao inquérito policial presidido pelo delegado Ênio Mattos, titular da Delegacia de Homicídios da Capital

18/10/2017 - 04h57

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Por Redação NSC
Reprodução simulada dos fatos foi realizada em 2 de julho deste ano, no mesmo local onde ocorreu o tiroteio
Reprodução simulada dos fatos foi realizada em 2 de julho deste ano, no mesmo local onde ocorreu o tiroteio
(Foto: )

Mais de quatro meses após o vendedor de cachorro-quente Nilton Cesar Souza Júnior trocar tiros com dois delegados da Polícia Federal em uma casa de prostituição do Estreito, em Florianópolis, o laudo de reprodução simulada dos fatos no local onde os PFs morreram apresenta sete pontos de divergência entre as versões apresentadas em depoimentos e as evidências materiais colhidas por peritos do Instituto Geral de Perícias (IGP/SC). Concluído na última sexta-feira, dia 13, a peça agora será juntada ao inquérito policial presidido pelo delegado Ênio Mattos, titular da Delegacia de Homicídios da Capital.

Como há novas diligências a serem feitas, não há expectativa para que o documento seja encaminhado ao Ministério Público de Santa Catarina (MP/SC), onde a 36° Promotoria, do promotor Affonso Ghizzo Neto, decidirá por oferecer ou não denúncia contra Nilton, 36 anos, principal suspeito de matar os delegados Elias Escobar, 60 anos, e Adriano Antônio Soares, 47 anos, na madrugada de 31 de maio, na rua Fúlvio Aducci, região continental de Florianópolis. Além de Nilton e dos delegados mortos, o laudo faz algumas referências a Thiago Gionko, que trabalhava no cachorro-quente de Nilton e estava com ele no local dos fatos.

Uma das sete divergências apontadas pelo laudo do IGP expõe que nenhuma das versões apresentadas na reconstituição indica quem ou em que momento a pistola de Elias Escobar teria sido disparada contra seu próprio rosto. Esta hipótese foi confirmada pela perícia anterior feita na casa de prostituição conhecida como "portinha azul", que sugeriu a presença de um quarto atirador pelo fato de que o disparo contra o rosto do delegado Elias partiu de sua própria arma. O perito do IGP, no documento juntado aos autos nesta segunda-feira, dia 16, reafirma que o disparo que atingira Elias não pode ter saído da arma de Nilton.

"O disparo que atingira o rosto de Elias igualmente não poderia ter sido efetuado por Nilton na posição em que relatou, pois foi produzido por projétil oriundo de sua própria arma (a pistola de Elias) disparado a distância, pois o ferimento de entrada de projétil de arma de fogo no canto interno do olho direito de Elias não apresentava zona de tatuagem ou esfumaçamento, conforme laudos periciais...", assinala o IGP/SC.

Outra divergência entre as versões da reconstituição e as provas técnicas do IGP é a de que Nilton afirma ter disparado "duas vezes" contra Elias e "duas ou três" contra Adriano. Porém, as evidências encontradas no local permitem afirmar que a pistola de Nilton disparou apenas duas vezes, sendo uma contra Elias e uma contra Adriano. Também não encontra amparo nas evidências técnicas o relato de Nilton sobre a posição em que estava no momento em que sofreu o primeiro ferimento na coxa direita por disparo vindo da arma de Elias. Em outro momento, o IGP destaca:

"A posição em que Nilton afirma ter disparado duas vezes contra Elias não converge em número e posição com os ferimentos no corpo de Elias".

Nilton está preso por suposto estupro de vulnerável

Após a morte dos delegados da PF, Nilton permaneceu quase três semanas internado no Hospital Florianópolis. Em 23 de junho, dois dias após receber alta, participou de audiência de custódia no Fórum da Capital e foi solto com a condição de cumprir algumas medidas cautelares.

Mas em 29 de julho, Nilton foi novamente preso, dessa vez sob a acusação de estupro de vulnerável. Quem efetuou a prisão foi a Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI) da Capital. Ou seja, Nilton não está preso pela morte dos delegados, mas por estupro de vulnerável.

Os policiais chegaram a Nilton após o seu telefone, e de outros suspeitos, ter sido grampeado pela Polícia Federal em investigação que apura o sumiço da arma do delegado Elias Escobar. Nesses grampos, surgiu a informação que sustentou o pedido de prisão contra o comerciante, de um suposto estupro ocorrido anos atrás.

Em 25 de agosto, o Juizado De violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, da 34ª Promotoria de Justiça da Comarca da Capital, acatou a representação da Polícia Civil e converteu a prisão temporária em prisão preventiva. Assim, Nilton continuará no Presídio da Agronômica enquanto aguarda o julgamento do suposto caso de estupro.

Contraponto

O advogado Marcos Paulo Silva dos Santos, que defende Nilton, diz que diante da inexistência de provas contra seu cliente, estão surgindo questões de menor importância com intuito de incriminar Nilton.

— Essas divergências que estão sendo apontadas são de menor importância, não justificam o que foi ocasionado pelos delegados federais. Nós não podemos esquecer que os delegados federais realizaram mais de 30 disparos, enquanto Nilton salvou sua vida com apenas dois disparos — afirma o advogado Marcos Paulo Silva dos Santos.

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