O governo Lula reagiu à classificação das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas por parte dos Estados Unidos atribuindo a decisão à articulação da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A gestão federal afirmou que a medida pode representar risco à segurança e à economia do país.

Continua depois da publicidade

Em uma dura manifestação divulgada no site do governo federal na tarde desta sexta-feira (23), a gestão do presidente Lula afirmou que atua no combate às duas facções criminosas alvo da decisão dos EUA. O texto pontua que a atuação das organizações criminosas busca obter lucro por meio de crimes como tráfico de drogas e armas. Por isso, segundo o governo “não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional”.

O governo atribuiu o anúncio do governo dos Estados Unidos à articulação da família Bolsonaro. Nesta semana, o senador e pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro esteve na Casa Branca para visitar o presidente americano Donald Trump e afirmou que teria novamente feito a solicitação de que PCC e CV fossem declaradas organizações terroristas pelo governo norte-americano.

“A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros. É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país“, diz um trecho da nota.

O governo cita a Lei Antifacções aprovada no início do ano com aumento de penas para membros de organizações criminosas, o recente pacote contra o crime organizado e parcerias com o governo dos Estados Unidos para cooperação internacional com foco na ampliação dos controles sobre a lavagem de dinheiro praticada no exterior e sobre o tráfico de armas enviadas ao Brasil.

Continua depois da publicidade

“Qualquer colaboração internacional para o combate às facções será bem-vinda. Seguimos dispostos a construir soluções conjuntas benéficas aos países envolvidos. Mas não aceitaremos o uso de medidas arbitrárias vindas do estrangeiro como pretexto para atacar a nossa soberania e a nossa economia”, completou o governo.

A nota do governo Lula citou ainda que medidas unilaterais, não negociadas entre os países, podem enfraquecer o combate aos criminosos e “gerar ações que colocam em risco a vida das pessoas que nada têm a ver com o crime”. O governo citou ainda ameaças ao sistema financeiro e a ferramentas nacionais como o Pix, que já foi citado em manifestações do governo norte-americano como possível concorrência a mecanismos de pagamento dos Estados Unidos.

Relembre encontro de Lula e Trump

“Em resumo, trata-se de possível retrocesso no combate ao crime, risco à vida das pessoas e prejuízos econômicos ao país. A soberania nacional é inegociável. O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança”, conclui a nota, publicada no início da tarde desta sexta-feira.

Continua depois da publicidade

O anúncio dos EUA

O anúncio do governo dos Estados Unidos que gerou reação da gestão federal brasileira ocorreu nesta quinta-feira (28). O Departamento de Estado americano afirmou que vai classificar as duas principais facções criminosas brasileiras como “Specially Designated Global Terrorists” (terroristas globais especialmente designados, em tradução livre).

O anúncio foi feito pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que afirmou que o país também pretendem classificar as duas facções como “organizações terroristas estrangeiras” (“Foreign Terrorist Organizations”). A medida entraria em vigor a partir do dia 5 de junho.

A manifestação ocorreu dias após a visita de Flávio Bolsonaro ao presidente norte-americano Donald Trump, na Casa Branca. A classificação das facções como terroristas era uma reivindicação do grupo bolsonarista que vinha sendo defendida nos últimos meses.