Uma ideia lançada quase sem pretensão, em meio às preocupações com dinheiro, rotina e futuro entre mãe e filha, acabou se transformando em um negócio familiar. Bastou uma foto de uma cesta de café da manhã aparecer na tela do celular para que Endy Christine de Val Rodrigues, de 24 anos, enxergasse uma possibilidade que fazia sentido com a história da mãe.
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— Eu lembrei que ela sempre gostou de fazer isso. Quando eu era mais nova, minha mãe não tinha tantas condições financeiras, mas sempre amou presentear. Então ela pegava várias lembrancinhas e transformava aquilo em um grande presente — conta a publicitária.
A mãe era Jaqueline de Val Pereira, a Jaky, bancária de 53 anos, moradora de Florianópolis. Durante anos, ela fez das pequenas surpresas uma forma de demonstrar amor às filhas. Na Páscoa, por exemplo, não havia ovos, mas havia cestas, recheadas de doces, fitas e cuidado.
— Eu sempre gostei de montar cestas, colocar várias coisinhas dentro, fazer um laço, criar aquele momento de surpresa. É uma das minhas linguagens de amor — conta a mãe.
Naquele fim de novembro de 2025, a memória afetiva virou possibilidade de renda.
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Jaky buscava uma forma de complementar o salário, mas queria também empreender, além de procurar algo que também tivesse sentido e que combinasse com ela. Foi quando a sugestão da filha apareceu.
— Eu achava que as pessoas já não tinham mais esse hábito de dar cestas, mas fui pesquisar e percebi que existia mercado — relembra ela.
Assim nasceu a Nina 135, uma empresa familiar de presentes afetivos criada por mãe e filhas — e que, poucos meses depois, já soma cerca de 40 cestas vendidas e uma rotina intensa de produção que transformou a casa da família, onde moram Endy, Jaky e o cãozinho, Rock.
Mas o negócio começou muito antes da primeira venda.
O nome que virou recomeço
Antes das flores, dos laços e dos catálogos, houve um processo mais íntimo: escolher um nome.
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“Nina” era o apelido de infância de Jaqueline, derivado de Hortelina, nome dado pela mãe biológica. Adotada ainda pequena, ela passou por experiências difíceis na infância e, ao longo da vida, acabou se afastando daquele nome.
— Queríamos algo que tivesse a ver com a nossa história, então escolhemos ressignificar esse nome e transformar ele em boas lembranças — explica Endy.
Hoje, a palavra estampada nas embalagens carrega mais do que identidade comercial. Carrega memória, reconciliação e afeto.
— É uma forma de honrar a nossa história — resume a filha.
Uma empresa feita por mulheres
O processo de construir o negócio veio acompanhado de erros, improvisos e aprendizado acelerado.
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— Foi uma loucura. A gente não sabia nada, literalmente nada. Na escola ninguém ensina como empreender, como precificar, como organizar um negócio — diz Endy, em meio a risadas.
Jaky começou pesquisando preços de caixas, fornecedores de pães, doces, bolos e flores. Descobriu, na prática, quantos detalhes existem por trás de uma cesta pronta.
— Eu não fazia ideia da quantidade de coisas que precisavam ser compradas. Tamanho de fita, quantidade de fita pra fazer um laço, tipo de balão… É um trabalho muito detalhista — conta.
No começo, ela ainda comprava bolos prontos e gastava mais do que devia. Depois, aprendeu técnicas de congelamento, organização de estoque e produção antecipada. Hoje, já faz os próprios bolinhos e produz parte dos itens a cada 15 dias.
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Enquanto isso, as filhas ocuparam funções diferentes dentro da empresa.
Endy assumiu as redes sociais, atendimento e estratégia digital. Luana Carolina de Val Abreu, de 29 anos, gerente de produtos digitais que mora em São Paulo, passou a ajudar na administração financeira e na organização dos custos.
— Minha mãe e minha irmã têm mentes muito criativas. Então estruturar fluxo de custos, receitas e lucros foi um desafio importante. Mas era necessário para garantir que o negócio se mantivesse em pé — diz a mais velha.
A divisão veio naturalmente, e transformou a casa da família.
— Antes tinha uma mesa, agora já tem três. A geladeira não comportava mais as coisas, então compramos freezer, impressora, armários… — conta Endy.
As produções costumam atravessar a madrugada para garantir entregas frescas na manhã seguinte.
Veja fotos da família e das cestas
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Entre mães e filhas, novas descobertas
Embora sempre tenham sido próximas, trabalhar juntas criou uma nova camada na relação entre as três.
— Eu descobri lados da minha mãe que nunca tinha visto. Talentos, habilidades… mesmo sendo tão próximas — conta Endy.
Luana, mesmo morando longe, passou a participar mais intensamente da rotina da família.
— Depois que começamos, eu comecei a mandar mensagens quase diárias perguntando como ela está, como estão as coisas. Mesmo à distância, isso aproximou a gente — diz.
Para Jaky, o negócio deixou de ser apenas uma fonte de renda.
— Eu não consigo olhar pra isso e dizer que é só meu. É nosso. Elas são minhas sócias. Hoje eu posso dizer: eu sou empreendedora. Tenho uma empresa de presentes afetivos construída junto com as minhas filhas.
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O presente que virou a cesta mais vendida
Em poucos meses, as histórias dos clientes começaram a se misturar com a da própria empresa, e uma delas marcou a família.
Uma jovem entrou em contato dizendo que queria presentear a irmã, mas não tinha dinheiro para comprar nenhuma das cestas do catálogo. Foi aí que a família decidiu tomar uma decisão.
— Então a gente criou uma cesta menor, mais acessível, mas ainda muito bonita — lembra Endy.
Depois, descobriram o motivo do pedido: era a primeira vez que a cliente conseguiria comprar um presente com o próprio dinheiro para agradecer a irmã por todo apoio recebido ao longo da vida. As duas moravam em estados diferentes.
Quando a entrega da jovem chegou, veio também um áudio.
— A cliente mandou mensagem chorando, cheia de gratidão. Para nós, foi muito emocionante fazer parte daquele momento — relembra Jacky.
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A cesta criada especialmente para ela acabou se tornando a mais vendida da empresa.













