Sonhei com o dia em que encontraria Manoel Carlos. Seria uma manhã de vento quente soprando. Eu pararia em uma banca de revistas, debaixo da sombra de uma árvore qualquer das ruas do Leblon, e ele viria, com seu chapéu, sua bengala, seus óculos escuros e a barba branca.
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Eu não pediria uma foto. Não pediria um autógrafo. Nem mesmo diria o quanto sou admirador de suas novelas. Eu sorriria. Apenas sorriria. O sorriso terno e grato de quem olha para a pessoa que transformou o cotidiano em ficção e me fez sonhar tantas vezes.
Maneco me ensinou a acreditar que a vida simples e rotineira é bonita, colorida e ritmada como uma bossa nova. Entrou fundo na alma das mulheres e das relações familiares, das mais simples às mais complexas.
Transformava a alma humana em blocos gigantescos de texto. Imaginava a novela da vida real e devolvia a realidade em forma de novela. Recortes de jornais viravam personagens; notícias ganhavam espaço nas cenas de café da manhã. Para um jornalista, nada poderia ser mais encantador.
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Como se não bastasse, criou seus próprios universos. Quem já foi ao Leblon sabe o quanto ele é, ao mesmo tempo, muito parecido e muito diferente daquele que existe nas novelas de Maneco. Acima de tudo, criou uma categoria única de protagonistas: as Helenas. Uma classe no Olimpo da teledramaturgia brasileira, reservada às anti-heroínas.
Todas as Helenas de Manoel Carlos vivem em mim. A que tem amigos na feira, a que bate papo com a vizinha, a dona da escola, a que pede para conferir se o mamão não está passado no mercadinho da esquina, a que toma um cafezinho, a que caminha pela praia ao som de MPB.
Não encontrei Maneco em vida, mas ele viverá para sempre em mim. E quem sabe, então, um dia, andando pelas ruas do Rio de Janeiro, eu entenda que ele nunca se foi. Segue vivo na força de quem acredita que a ficção pode, sim, salvar o mundo.
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