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Mário Sant'Ana: "Atitudes para tornar a transformação digital boa para todos"

Artigo traz a importância da tecnologia na vida das pessoas

14/09/2021 - 06h00

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Redação
Por Redação AN
porto itapoá
Porto Itapoá é um dos maiores portos na movimentação de cargas no país
(Foto: )

*Artigo por Mário Sant'Ana

A atmosfera serena na sala de reuniões era a mesma que senti desde o momento que passei pela portaria do terminal. Enquanto Cássio José Schreiner nos explicava sobre o colosso que preside, o Porto Itapoá, eu me esforçava para entrar no mesmo espírito tranquilo. Estou acostumado a falar com executivos cuja atenção disputo com seus smartphones e relógios de pulso. Cássio conversava conosco como se não tivesse outros compromissos. E sei que tinha.

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Não resisti e perguntei: “Aqui é sempre tão calmo?” Para o meu sistema altamente cafeinado, o tom da resposta pareceu quase zen: “Em geral, sim. Agora está mais tranquilo porque estamos esperando que um navio já carregado deixe o porto e os dois que estão aguardando atraquem.” Se achou que isso bastaria para eu entender o motivo do compasso de espera, Cássio me sobrestimou muito. “E o que falta para isso acontecer?” — perguntei, tentando conter a inquietação. “A maré subir” — foi a resposta, que me pareceu totalmente zen.

Infelizmente atípica no mundo corporativo, a placidez não é avessa aos bons resultados, mas contribui para que haja clareza na estratégia, excelência na gestão, para que as tecnologias sejam corretamente escolhidas, combinadas e utilizadas. Prova disso é que, com apenas 10 anos de operação, o terminal catarinense está entre os mais ágeis e eficientes da América Latina, e é um dos maiores e mais importantes do País na movimentação de cargas conteinerizadas, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ).

Antes da conversa com Cássio, minha esposa e eu almoçamos em um simpático restaurante português no bairro Brandalize, também em Itapoá. Na saída, uma surpresa: “Não aceitamos cartão; somente cheque ou dinheiro.” Sem uma coisa nem outra e longe de qualquer dispositivo bancário para realizar um saque, senti-me envergonhado por não ter visto antes a placa sobre as formas de pagamento nem como pagar o almoço. Percebendo minha angústia, o dono do restaurante disse sorrindo: “Não esquenta. Depois você faz um depósito, ou paga na próxima.” Era a primeira vez que eu ia àquele estabelecimento e seu proprietário nunca tinha me visto, mas confiou que eu pagaria a despesa. Felizmente, minha esposa tinha na bolsa uma coisa que não uso faz uns 20 anos: cheques. Pagou a conta e fomos embora.

Uma maquininha de cartão ou a imagem de um QR code para transferência via pix teria facilitado as coisas e reduzido o risco de inadimplência, sem prejuízo ao ambiente acolhedor do lugar ou ao delicioso sabor do bacalhau. Pelo contrário, além da cobrança, boa parte do trabalho relacionado ao atendimento das mesas, gestão financeira, contabilidade, controle de estoque e compras pode ser realizada por sistemas integrados, liberando as pessoas para o atendimento dos clientes.

Na volta para Joinville, passei por um grande e crescente número de caminhões estacionados, esperando para carregar ou descarregar no porto.

Reduzi a velocidade, baixei o vidro do carro e observei a cena. A aparência de vários veículos e de seus condutores indicava vínculos com transportadoras de todos os portes; a de outros, um nível de informalidade preocupante. Enquanto alguns motoristas cochilavam nas cabines de seus caminhões, havia os que proseavam em pequenos grupos, inclusive no entorno de barracas que funcionavam como bares improvisados. Não pareciam preocupados com a demora, como se entendessem que o porto tem seu ritmo, ditado em parte pelas variações do nível das águas da Baía da Babitonga.

Um sistema que coordene o fluxo dos veículos de transporte de carga terrestre com o das marés poderia otimizar o uso dos veículos e ajudar motoristas a deixar o trago com os amigos para outra hora, quando não fossem mais dirigir.

O movimento de transformação digital tem crescido e pode dar uma contribuição importante na geração de valor. Nesse processo, a tecnologia propriamente dita é apenas parte da equação e não é a mais importante. Encher de gadgets empresas, escolas, residências e transferir a vida para redes sociais não vai tornar a existência melhor, se não tivermos tempo para as pessoas nem saúde mental para desfrutar a vida.

É essencial, portanto, que cultivemos as atitudes certas, os comportamentos adequados, tenhamos clareza de nossos objetivos, saibamos avançar para eles em um bom ritmo e combinemos bem as melhores tecnologias para realizarmos nossos fins, como aprendi ser possível em uma tarde em Itapoá.

Mario Santana
Mário Sant'Ana escreve no AN às terças
(Foto: )

*Mário Sant’Ana é tradudor e intérprete, cofundador do Projeto Resgate, organização com ações para reduzir contrastes sociais, e co-idealizador do programa Think Tanks Projeto Resgate, para o desenvolvimento de habilidades de inovação intersetorial, soft skills e liderança não hierárquica. Escreve artigos para o A Notícia às terças-feiras. Contato: mario@projetoresgate.org.br

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