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Trombone sem Mazinho

Mazinho do Trombone: quem foi o músico e figura típica dos carnavais de Florianópolis

Músico de Florianópolis faleceu aos 78 anos na madrugada desta quarta-feira

10/07/2019 - 13h25 - Atualizada em: 10/07/2019 - 16h17

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Por Ângela Bastos
Mazinho será velado ao longo da tarde desta quarta-feira (10) no cemitério do Itaccorubi, na Capital.
Mazinho será velado ao longo da tarde desta quarta-feira (10) no cemitério do Itaccorubi, na Capital.
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A morte do músico catarinense Mazinho do Trombone deixa o seu instrumento sozinho, silencioso, encaixotado. Manezinho do Ribeirão da llha e que carregava o mar no nome, Daldumar Roberto Vieira, 78 anos, nos deixou na madrugada fria deste 10 de julho por volta das 4h no Hospital Celso Ramos, em Florianópolis, onde tinha sido internado por causa de uma pneumonia. Madrugada de sereno caindo, como a letra de uma música tantas vezes por ele tocada. Mesmo horário em que tantas outras vezes retornava dos bailes de carnaval, de shows e das incontáveis apresentações em festas e bares da cidade. Quarenta dias depois de ser golpeado pela morte da esposa, Zânia, falecida em 31 de maio.

A boemia foi uma presença na vida de Mazinho, mas é consenso que ele só chegou aos 78 anos, depois de três AVCs e outros problemas de saúde, pelos cuidados da dedicada companheira. Compartilha-se entre amigos e familiares que a nota final na vida do virtuoso músico foi mesmo a saudade da mulher. Ainda que os seis filhos, nove netos e 15 bisnetos tentassem preencher o vazio com carinho e atenção. Inclusive, dispostos a levá-lo para algum lugar onde ele pudesse tocar o seu trombone: a mais exitosa das terapias e tratamento capaz de surpreender os médicos que o acompanharam ao longo dos anos.

— Morro se parar de tocar — dizia ele.

Ungido pela sensibilidade de quem aprenderia samba, jazz, salsa, merengue, bolero, marchinhas, Mazinho foi um autodidata. Quando criança gostava de ver o avô tocar cavaquinho, mas a família era pobre e o pai precisava que ele ajudasse nas pescarias. Com sete anos deu suas dedilhadas. Revelou-se ungido pela sensibilidade de quem aprenderia samba, jazz, salsa, merengue, bolero, marchinhas. Foi na banda do Exército que ele achou espaço e se abraçou ao instrumento de sopro que o acompanhou até os últimos dias. Mas também foi bem nas cordas, como violão e cavaco. Não faz tanto tempo assim, músicos telefonavam para que ele ajudasse na afinação. Gênio! Fazia isso por telefone.

Mazinho é a última página de um livro escrito por uma turma dourada que teve nomes como Djalma do Piston, Nilo do Clarinete, o Tião do Violão e tantos outros. A nova geração está aí, cheia de novos talentos. Resta a esses músicos dar continuidade ao que fizeram 0s “das antigas”, os quais ajudaram a construir a história da música da cidade.

Música como arte, sem egos e poucas cifras

Mazinho com Luiz Henrique, Neide Mariarrosa, Hermeto Pascoal, Toquinho, Alcione. Também com o Quarteto Em Cy e MPB 4. Até para Lize Minelli, quando a cantora esteve na Ilha a convite do amigo Luiz Henrique Rosa. Apresentou-se em dezenas de cidades catarinenses, assim como em outros estados e até Portugal, numa feira internacional na cidade de Porto.

Podia estar "meio mal das pernas", como dizia, mas tinha sempre planos: o de continuar tocando.

Mas nunca se deixou levar pela vaidade. Para ele, estar à frente da Joia Rara, banda que criou com os filhos e netos, ou no palco com a Marrom tinha mesma importância. Assim como uma roda de samba no Morro do Mocotó. Aliás, foi ali pelo lendário “Bar da Bete” e com "Vado na percussão" que também se inspirou e compôs "Exaltação ao Mocotó". A música fala do cotidiano do morro onde viveu por 20 anos, até se mudar para a comunidade da Queimada. Nos últimos tempos vivia com a esposa e um dos filhos no Bairro Floresta, em São José.

A música deu a Mazinho pouco dinheiro, mas muitos amigos. Alguns tiveram a sorte de descobrir nele uma pureza de espírito, um despojamento e uma relação com a música além de egos e de cifras. Mais recentemente, suas apresentações no cenário musical da cidade já não eram tão comuns como antes, principalmente, por estar mais debilitado fisicamente. Mas era ainda levado por familiares e amigos a algumas rodas. Podia estar "meio mal das pernas", como dizia, mas tinha sempre planos: o de continuar tocando.

Miramar, peixe ensopado, saudade

Mazinho era uma pessoa muito simples. Preferia comer uma corvina ensopada em casa do que ir a um restaurante sofisticado. Gostava de jogar no bicho, comprar peixe no mercado e, pelo radinho, torcer pelo Avaí.

O corpo de Mazinho do Trombone será velado a partir das 13h30min nas capelas do Cemitério São Francisco, no Itacorubi. O enterro será às 10h desta quinta-feira (11), depois de uma missa de corpo presente, no cemitério do Ribeirão da Ilha.

Por algumas horas a cidade que tanto alegrou com sua generosidade musical poderá se despedir de Mazinho. Noticiar a morte de um músico sugere outro músico. Nelson Cavaquinho, outro grande, cantou "depois que eu me chamar saudade/Não preciso de vaidade/Quero preces e nada mais...".

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