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    Médicos recém-nomeados foram vacinados contra Covid-19 no primeiro dia de imunização em Manaus

    Envolvidos citados em tuíte são médicos recém-formados, foram nomeados em janeiro de 2021 e vacinados no primeiro dia de imunização em Manaus (AM)

    25/01/2021 - 15h46 - Atualizada em: 25/01/2021 - 15h48

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    Por Projeto Comprova
    Postagem no Twitter exibe fotos de jovens de famílias conhecidas do Amazonas sendo vacinados no primeiro dia de imunização na capital amazonense
    Postagem no Twitter exibe fotos de jovens de famílias conhecidas do Amazonas sendo vacinados no primeiro dia de imunização na capital amazonense
    (Foto: )

    É verdadeira a publicação feita pelo perfil “Bora Conversar Política” sobre filhos de políticos e de empresários em Manaus terem sido vacinados um dia após suas nomeações a cargos comissionados na prefeitura da capital do Amazonas. O post exibe imagens dos jovens sendo vacinados e mostra, como noticiado por diversas mídias e checado pelo Projeto Comprova, Gabrielle Kirk Lins e Isabelle Kirk Lins, filhas de Niltinho Lins Jr., herdeiro do hospital e da universidade Nilton Lins. O terceiro citado é David Dallas, filho do ex-deputado estadual e empresário Wanderley Dallas.

    > É enganoso que imunogenicidade da vacina CoronaVac ofereça risco

    O Comprova confirmou no site do Conselho Federal de Medicina que todos os envolvidos são médicos. Eles são recém-formados e tiveram suas nomeações publicadas no Diário Oficial da prefeitura de Manaus nos dias 18 e 19 de janeiro de 2021. Desse modo, não haveria tempo para os médicos terem trabalhado na linha de frente nos hospitais que estão atuando contra a covid-19.

    A prefeitura de Manaus, em nota publicada em seu site, disse não haver irregularidade “uma vez que se encontram nomeadas e atuando legitimamente no plantão da unidade de saúde, para a qual foram designadas, em razão da urgência e exceção sanitárias, estabelecidas nos primeiros 15 dias da nova gestão”. O Comprova entrou em contato com as jovens citadas e com o perfil “Bora Conversar Política”, tendo o retorno apenas desse último.

    > É falso que eficácia da CoronaVac seja apenas 0,38% superior ao placebo

    Como verificamos?

    Consultamos o Diário Oficial para confirmar se os três médicos foram nomeados, bem como a data da nomeação. Confirmamos também com o Conselho Federal de Medicina a formação dos jovens em medicina.

    A consulta também confirmou a veracidade do print da página do Diário Oficial que foi colocada na postagem verificada. Também pesquisamos, na página da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas o sobrenome do médico David Louis de Oliveira Dallas Dias, e confirmamos que ele é filho do ex-deputado estadual Wanderley Dallas.

    Em seguida, apuramos no portal da Prefeitura de Manaus a nomeação e a vacinação das duas médicas, vacinadas no primeiro dia da imunização no estado. Segundo a nota, a prefeitura afirmou que não há irregularidades na imunização de ambas.

    Também tentamos contato com as páginas do Instagram de Gabrielle Lins e Isabelle Lins, que não responderam e com a página que viralizou o caso no Twitter, BC Política, que respondeu ao Comprova.

    Procuramos o Sindicato dos Médicos do Amazonas para comentar a situação da falta de doses de Coronavac na capital, e se as irregularidades estão diretamente ligadas à situação de médicos na linha de frente que ainda não foram vacinados.

    O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 25 de janeiro de 2021.

    > São enganosas postagens que dizem que vacinados terão proteção pela metade

    Verificação

    Pessoas vacinadas na foto são médicos familiares de políticos

    As duas mulheres nas fotos das postagens são Gabrielle Kirk Maddy Lins e Isabelle Kirk Lins, ambas médicas da família Lins, proprietária da Universidade Nilton Lins na capital amazonense. De acordo com o Diário Oficial, Gabrielle foi nomeada gerente de projetos da Secretaria Municipal de Saúde (SEMSA) no dia 18 de janeiro. A irmã, Isabelle, foi nomeada gerente de projetos na mesma secretaria no dia 19 de janeiro.

    Como mostrou a Agência Amazônia Real, a família Lins, além de um hospital e uma universidade, mantém negócios com a prefeitura de Manaus e o governo do Amazonas. Desde 15 de outubro de 2012, as gêmeas são sócias da empresa de laticínios Rancho Ing Ferradurinha Agro Industrial, que tem um capital de R$ 1 milhão de reais. Quando da criação da empresa, elas tinham 16 anos.

    O homem na terceira foto é David Loius de Oliveira Dallas Dias. Ele é médico e foi nomeado gerente de projetos SEMSA, em 19 de janeiro. É filho do ex-deputado estadual Wanderley Dallas, e também se formou no ano passado na mesma instituição que as irmãs Lins.

    Médicos foram vacinados no primeiro dia da imunização

    Segundo uma nota publicada pela Prefeitura de Manaus em 19 de janeiro, as duas médicas foram vacinadas no primeiro dia de imunização da capital. Em uma live no Facebook o prefeito de Manaus se pronunciou devido à repercussão do caso. David Almeida disse que as nomeações tiveram que ser urgentes devido à situação da capital.

    “Nós estamos com aproximadamente 122 médicos afastados, você não tem ideia da dificuldade de conseguir médicos. Nós conseguimos 10 médicos e, pela primeira vez, foram nomeados no gabinete, não dava tempo de fazer contrato”.

    Isabelle Lins e David Dallas foram nomeados no mesmo dia do início da vacinação na capital, como é possível verificar no Diário Oficial de 19 janeiro. Já Gabrielle Lins foi nomeada no dia 18 de janeiro.

    A prefeitura diz que houve baixo volume de doses repassadas pelo governo do estado à SEMSA – apenas 40.072 das 282 mil recebidas do Ministério da Saúde, após ter divulgado que o repasse foi de 256 mil doses. A prefeitura reservou 12,2% delas para os profissionais da rede municipal, que estão atuando no enfrentamento à covid-19. O acontecido foi de encontro com as alegações, visto que as médicas não poderiam ter sido vacinadas, pois foram nomeadas apenas a cargos administrativos e não atuando nas Unidades Básicas de Saúde quais as vacinas foram destinadas.

    Procurado pelo Comprova, o presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas, Dr. Mário Vianna, afirma que também não foi vacinado. “A questão das médicas vacinadas foi um dos pontos que complicaram a imunização em Manaus. Há denúncias sobre outros profissionais da saúde que não estão na linha de frente ou que não seriam prioridade por não serem de áreas de atuação, como UTI, Sala Rosa ou Prontos Socorros. O TCU e o MPF já se meteram, pedindo investigações; a lista de vacinados mostrou uma série de irregularidades, como CPFs falsos e nomes repetidos. Com tudo isso, possivelmente se comprova que houve desvio de vacinas”, defende.

    O médico, que trabalha como cirurgião na UTI da Maternidade Balbina Mestrinho, conta que há hoje sete internados com covid-19 na unidade. “Na lista de vacinados, há trabalhadores aqui da maternidade que receberam a dose da Coronavac, mas não houve vacinação oficial no hospital”.

    A vacinação na capital ficou suspensa por dois dias na semana passada, devido às denúncias de irregularidade, conforme publicou o portal G1. Foi dada uma ordem judicial à prefeitura para que abra a lista dos vacinados. A lista foi publicada nesse fim de semana.

    > Médico descontextualiza manual da Pfizer ao sugerir alteração genética por vacina

    Quem é BC Política

    Postagens com referência às irmãs começaram a circular a partir de capturas de tela do instagram. A postagem encontrada pelo Comprova com maior circulação é de uma página de conteúdo político – a maior parte local de Manaus – com cerca de 17 mil seguidores, a @BCPolitica.

    Procurados, os autores da página responderam que já encontraram o conteúdo circulando e que o objetivo do perfil é discutir política, mas que não são jornalistas.

    Os perfis no instagram @gablins e @isalins desde que o caso viralizou, estão fechados.

    > Não há conhecimento suficiente para deixar de vacinar quem já teve covid-19

    Por que investigamos?

    Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus, principalmente as que têm grande alcance nas redes sociais.

    O Amazonas vive, pela segunda vez durante a pandemia do coronavírus, um colapso nas redes pública e particular de saúde. O mês de janeiro é marcado por mortes por falta de oxigênio no estado, colocando a capital amazonense na imprensa internacional.

    O assunto ganhou repercussão nas redes sociais desde que o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), disse em transmissão ao vivo no Facebook na noite da terça-feira, 19, que os profissionais de saúde da cidade não poderão publicar registros da vacinação contra a covid-19 nas redes sociais.

    A postagem do BC Política de 20 de janeiro, teve mais de 13 mil retweets e cerca de 50 mil interações. A Folha de S.Paulo também noticiou o caso das irmãs Lins. A Revista Fórum noticiou o caso de David.

    Comprovado, para o Comprova, é o fato verdadeiro; evento confirmado; localização comprovada; ou conteúdo original publicado sem edição.

    A checagem acima foi produzida pelo Projeto Comprova, iniciativa que reúne a NSC Comunicação e outros 27 veículos de mídia do país no combate à desinformação.

    > Veja todas as checagens do Projeto Comprova em 2020

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