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Segurança

Medo da violência faz mulheres de Florianópolis procurarem curso de defesa pessoal

Prefeitura oferece treinamento gratuito até março de 2020 

05/06/2019 - 09h43

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Por Dayane Bazzo
Sthefanie é uma das alunas
(Foto: )

Sthefanie Mendonça, de 21 anos, não esquece do relato de uma amiga que foi estuprada por um desconhecido a caminho de casa para o trabalho. O crime aconteceu pela manhã há alguns anos na cidade de São Paulo, onde ela morava com a família. Atualmente, vive em Florianópolis, onde cursa faculdade de ciências e tecnologia de alimentos. Mas o trauma vivido pela amiga e o medo de ser violentada a acompanha por todos os lugares.

— Aconteceu com ela, mas eu penso que pode ser comigo. Se eu sair de casa para ir à faculdade de manhã e alguém me abordar, eu não tenho nada para me defender. As pessoas falam que eu sou exagerada porque não gosto de andar sozinha à noite, só porque vim de São Paulo, como se aqui não tivesse violência, mas tem sim. Saber que alguém tão perto de você foi vítima dessa violência é muito traumatizante, a gente fica em choque — diz Sthefanie.

Uma estudante de geografia da Capital de 18 anos, que pediu para não ter o nome divulgado, conta que carrega spray de pimenta na bolsa e evita sair sozinha à noite. Ela diz que relatos de violência sexual estão cada vez mais comuns em Florianópolis.

— Conheço pessoas que já foram estupradas ou que foram ameaçadas. A minha prima estava num ônibus e um cara começou a mexer com ela, teve que empurra-lo e falar com o cobrador. Em Capoeiras, um cara tentou beijar uma mulher a força no ônibus. São muitos relatos e, por isso, eu tenho muito medo de ficar na rua, não ando de noite sozinha — afirma.

O medo delas, assim como o de tantas mulheres, fez com que tomassem a iniciativa de aprender a autodefesa. Ambas realizaram o curso de defesa pessoal oferecido pela prefeitura de Florianópolis de forma gratuita. O projeto Floripa com Elas foi lançado em abril e, entre as primeiras ações, está a defesa pessoal voltada para mulheres, com mais de 5 mil vagas, que será realizado até março de 2020.

Caio Felipe Santos Correa, organizador das aulas, explica que a intenção não é tornar as mulheres especialistas em defesa pessoal, mas ensinar o básico para se defenderem de forma rápida, ajudar a elevar a autoestima e a confiança.

— Queremos passar para elas que não precisam ser as vítimas. Tentamos trabalhar a violência de todas as formas, não só física, mas psicológica e verbal, e fazer com que elas percebam se estão sofrendo com isso dentro de casa. Dados da violência do país apontam que a maioria dos casos de violência são praticados dentro de casa, porque o homem não aceita o fim do relacionamento ou quando a mulher já tem medida protetiva em mãos — informa Caio.

Segundo ele, o projeto foi desenvolvido em parceria com o Instituto de Geração de Oportunidades de Florianópolis (Igeof) e três academias que atuam na cidade, a Nova Forma, Ilha Fight Floripa e a Pa-Kua. As academias cederam os espaços e os professores para o treinamentos, já a prefeitura organiza as turmas e oferece divulgação das marcas. As aulas têm duração de três horas e ocorrem aos sábados.

Até o momento, quase 4 mil mulheres já se inscreveram. As inscrições podem ser feitas gratuitamente pela internet.

Quase 4 mil mulheres já se inscreveram para as aulas
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Defesa é 99% psicológica, diz mestre em arte marcial

Ian Paes é mestre Pa-Kua, tem 13 anos de experiência em artes marciais e atualmente é um dos apoiadores do projeto. Ele explica que o primeiro passo para aprender sobre defesa pessoal é entender que ela é 99% psicológica.

— Quando uma pessoa é abordada na rua, a primeira reação dela é congelar. Eu mesmo não sei qual será minha reação se for abordado na rua, se vou conseguir me defender. Acredito que sim, mas pode ser que congele e não saiba o que fazer, independentemente de eu saber milhões de técnicas. Isso porque em uma situação dessa ninguém pode prever como a pessoa vai reagir — diz.

Por isso, parte da aula é voltada para uma conversa sobre a importância e os benefícios que treinar a defesa pessoal traz e o que ela influencia de forma física e mentalmente durante uma agressão. Ian explica que a pessoa precisa ter a consciência do que fazer de forma rápida e objetiva. Em muitos casos, a mulher só precisa conseguir se soltar para fugir e pedir ajuda.

— A primeira reação a uma agressão é dar um golpe no peito, porque isso destrói a mentalidade do agressor. O agressor sempre vai pensar que está no comando e escolher a pessoa que sabe que consegue vencer. Então se a vítima revida com um golpe rápido no peito, cria uma abertura de tempo para continuar uma reação, seja fugir, seja finalizar a técnica e contragolpear — afirma.

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Durante a aula, as mulheres aprendem também alguns golpes fáceis, porém eficazes. Além disso, segundo Ian, ao saber algumas técnicas, as mulheres ganham confiança e, com isso, ajudam a afastar possíveis agressores nas ruas.

— O fato de treinar te dá confiança e se você anda na rua com essa confiança, a pessoa que vai agredir alguém não vai te escolher, porque ela vai escolher quem ela percebe que vai conseguir vencer — explica.

Segundo Ian, a parte física das técnicas é importante em momentos de briga, por exemplo. Neste caso, onde a vítima já não tem o elemento susto que pode fazer ela paralisar, saber imobilizar, torcer o braço, derrubar uma pessoa é muito importante para evitar a agressão.

Atualmente, segundo o professor, entre 60% e 70% das pessoas que procuram as academias de artes marciais são para aprender defesa pessoal.

Dados sobre violência

Dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP) apontam que 2.155 mulheres foram estupradas em Santa Catarina entre os meses de janeiro e agosto de 2018. No mesmo período, 403 mulheres sofreram tentativa de estupro. Na Capital catarinense, foram registrados 127 ocorrências de estupro entre os mesmos meses de 2018.

A reportagem solicitou os números completos do ano anterior e também o parcial de 2019, mas não recebeu resposta até o fechamento desta edição.

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