O menino de 3 anos que morreu após ser picado por escorpião recebeu o soro antiescorpiônico mais de quatro horas depois do acidente, segundo relato do pai. Bernardo de Lima Mendes foi picado na noite de terça-feira (31), em Conchal (SP), e morreu na manhã de quarta (1º), após ser transferido para Araras. Com informações do g1.
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A Secretaria Estadual de Saúde afirma que crianças de até 10 anos precisam de tratamento em até uma hora e meia após a picada. Já o Instituto Butantan, principal fornecedor do soro para o SUS, reforça que a aplicação deve ocorrer o mais rápido possível.
Segundo o pai, houve demora no atendimento e na identificação da gravidade do caso no Hospital e Maternidade Madre Vannini, em Conchal, onde o menino recebeu os primeiros socorros. A Polícia Civil vai abrir inquérito para investigar a suspeita de negligência. O hospital informou que adotou as medidas clínicas compatíveis.
O que se sabe sobre o caso
Como foi o atendimento inicial?
De acordo com o tatuador Paulo Mendes, pai de Bernardo, o menino foi picado por volta das 20h, enquanto brincava em casa, deitado em um colchão. Ele foi levado imediatamente ao hospital.
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Durante a triagem, o pai relata que o atendente recolheu o escorpião para mostrar à equipe médica, enquanto a criança permaneceu por um tempo na sala de espera chorando e reclamando de muita dor.
Segundo ele, apenas um médico atendia naquele momento, enquanto outro estava sem pacientes. Uma madre, responsável pela administração do hospital, teria percebido a situação e pedido que o profissional atendesse a criança. Ainda conforme o pai, houve demora também para a aplicação de medicação para dor.
Paulo disse que questionou se o filho receberia o soro antiescorpiônico, mas foi informado de que o medicamento só seria aplicado em caso de necessidade e que a criança ficaria em observação por seis horas. Esse tipo de soro não é disponibilizado na unidade. O hospital de referência mais próximo é a Santa Casa de Araras, a 26 quilômetros.
Durante esse período, segundo o pai, Bernardo vomitou cerca de dez vezes em apenas 20 minutos e apresentava salivação intensa.
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— O meu filho gritava de dor, dizendo que estava com muita dor na barriga. Foi aí quando começaram a notar que o caso dele era muito grave — disse em entrevista à EPTV.
Transferência e agravamento do quadro
Diante da gravidade, foi solicitada uma vaga via Central de Regulação para transferência. Inicialmente, a equipe informou que o menino seria levado para Piracicaba, mas depois surgiu vaga em Araras.
Segundo o pai, o Samu levou cerca de 40 minutos para chegar. Durante o trajeto, o menino teve a primeira parada cardíaca.
O soro foi aplicado por volta de 0h25min, já na Santa Casa de Araras, com a administração de seis ampolas. O pai relatou que o filho teve outra parada cardíaca e ficou cerca de 10 minutos sem respirar, sendo posteriormente entubado.
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Após a piora nos sintomas, os pais foram orientados a ir para casa. Na manhã seguinte, receberam ligações informando que o estado de Bernardo era grave. Pouco depois, às 10h15min, a morte foi confirmada.
O que explica a gravidade nesses casos?
Segundo o Instituto Butantan, o veneno de escorpiões do gênero Tityus atua no sistema nervoso autônomo, podendo causar dor intensa, náuseas, vômitos, dor abdominal, alterações na pressão arterial e complicações respiratórias e cardíacas.
A bula do soro destaca que o tratamento é mais eficaz quanto mais cedo for administrado, já que o medicamento neutraliza o veneno em circulação e deve ser aplicado por via intravenosa.
O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp afirma que a maioria dos casos graves ocorre em crianças. Como o veneno se espalha rapidamente, os sinais mais graves costumam aparecer nas primeiras duas horas após a picada, o que reforça a necessidade de atendimento imediato.
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O pai também questionou a equipe sobre os sintomas apresentados pelo filho. Segundo ele, ouviu de um profissional que “só tinha visto casos assim em vídeo”, o que, na avaliação dele, indica falta de preparo.
Investigação e posicionamentos oficiais
O delegado Luís Henrique Pereira informou que será instaurado inquérito policial para apurar a suspeita de negligência. A família ainda deverá ser ouvida.
Em nota, o Hospital e Maternidade Madre Vannini afirmou que adotou todas as medidas clínicas compatíveis com sua estrutura, mas destacou que não possui UTI pediátrica nem integra a rede de aplicação de soro antiescorpiônico. Segundo a instituição, essas são limitações estruturais do sistema público de saúde.
A Santa Casa de Araras informou que a criança chegou em estado gravíssimo, com parada cardiorrespiratória, rebaixamento neurológico e edema pulmonar. O hospital afirmou que seguiu os protocolos do CIATox, com aplicação do soro e suporte intensivo, mas o caso evoluiu para óbito.
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A Prefeitura de Conchal informou que o município não é referência para aplicação de soros antivenenos, e que os pontos são definidos de forma regionalizada, sendo Araras a unidade responsável. A Secretaria de Saúde municipal disse que vai solicitar avaliação para disponibilização do soro na cidade e que a Vigilância em Saúde investigará o atendimento.
Acidentes com escorpiões e como agir
Em 2025, o Brasil registrou mais de 173 mil acidentes com escorpiões e mais de 200 mortes. Em 2024, houve mais casos, mas menos óbitos, o que indica aumento da taxa de letalidade. Crianças e idosos são os mais vulneráveis, e saber agir rapidamente faz diferença.
Em caso de picada:
- Lave o local com água e sabão
- Procure atendimento médico imediatamente
- Use compressas mornas para aliviar a dor
Evite:
- pomadas
- torniquetes, cortes ou sucção
- gelo no local
A presença de escorpiões nas cidades tem relação com expansão urbana, altas temperaturas e acúmulo de lixo, que favorece a proliferação de insetos, principal alimento desses animais.
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Para prevenir:
- Mantenha o lixo bem fechado
- Evite acúmulo de entulhos e folhas
- Mantenha ralos fechados
- Afaste móveis das paredes
- Chacoalhe roupas e calçados antes de usar
- Feche frestas e buracos em paredes e instalações
Essas medidas ajudam a reduzir o risco de acidentes, especialmente em ambientes urbanos.






