A bióloga e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Tatiana Silva Leite descobriu uma espécie de polvo ameaçada de extinção que está morando dentro do lixo jogado no mar. O polvo-pigmeu, a menor espécie de polvo da América Latina, foi encontrado pela cientista utilizando latinhas de refrigerante, garrafas, potes, objetos plásticos, baterias e até um vaso sanitário como abrigo no fundo do oceano.
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A pesquisadora é coordenadora do Projeto Cephalopoda, especializado no estudo de polvos e lulas há mais de 20 anos. Seu estudo é o primeiro no mundo a tratar desse tema e ganhou repercussão internacional, com divulgação pela National Geographic, Smithsonian e o jornal The Guardian.
Segundo Tatiana, os polvos que antes ocupavam conchas e buracos em ambientes recifais como abrigo natural hoje utilizam o lixo descartado no oceano como casa.
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— O polvo perdeu a concha na evolução, então ele sempre está procurando um local para proteção. Espécies pequenas de polvos normalmente usam conchas, e as conchas estão desaparecendo, tanto pela retirada feita pelo ser humano quanto pela acidificação dos oceanos — explica Tatiana.
Veja fotos dos polvos morando no lixo
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Menor polvo da América Latina era confundido com filhote
A descoberta ocorreu em 2021, quando Tatiana analisava fotografias de filhotes de polvos e percebeu que alguns registros não mostravam filhotes, mas sim um animal adulto de pequeno porte. Assim, ela identificou, no litoral do Rio de Janeiro — e posteriormente em Santa Catarina — uma nova espécie: o polvo-pigmeu (Paroctopus cthulu n. sp.), o menor da América Latina.
— O pessoal achava que esse polvo pequenininho era filhote do grande, e ninguém nunca olhou para ele. Aí, quando souberam que eu estava aqui, mandaram uma foto e percebi que ele não era filhote, era o tamanho normal dele — conta Tatiana.
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A pesquisa descobriu que essa espécie, presente em diversos pontos do litoral brasileiro, está utilizando o lixo marinho como abrigo. Após a descoberta, a equipe lançou uma campanha para coletar imagens subaquáticas do mundo todo e entender como esses animais estão se relacionando com os resíduos.
As atualizações mais recentes do estudo mostraram que o polvo está ameaçado de extinção e que, além da perda do ambiente natural, uma das hipóteses é que ele esteja vivendo em áreas do oceano contaminadas.
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— A poluição com certeza é uma ameaça para essa espécie — afirma Tatiana.
Ao menos 24 espécies de polvo estão morando no lixo
Durante a pesquisa, foram analisados fotos e vídeos de bancos de imagens, cientistas e também da própria comunidade por meio das redes sociais. Como resultado, os pesquisadores descobriram outras 24 espécies de polvos utilizando lixo como abrigo e proteção contra predadores.
— Os polvos são muito inteligentes, têm um ciclo de vida curto e se adaptam muito rápido. Entender essas mudanças no habitat ajuda a compreender os impactos do lixo no ambiente marinho — explica a pesquisadora.
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Para se proteger dos predadores, os polvos passam a maior parte da vida entre rochas, conchas, fendas e outros esconderijos naturais. A pesquisadora explica que, com a acidificação dos oceanos e a ação humana, as conchas estão desaparecendo. Como consequência, os animais estão trocando o habitat natural pelos resíduos sólidos descartados no mar.
E o volume de resíduos é preocupante: segundo uma campanha de 2025 da organização Oceana Brasil, cerca de 1,3 milhão de toneladas de plástico chegam ao oceano todos os anos no país.
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Devolução das conchas para o mar
Além do descarte de lixo no oceano, outro problema apontado pela pesquisa é a retirada irregular de conchas do ambiente. Isso porque pessoas que frequentam a praia, principalmente turistas e crianças, costumam levar as conchas como lembrança.
Como parte do projeto, Tatiana coordena uma campanha para incentivar a devolução dessas conchas ao mar, em uma tentativa de recuperar o ambiente natural das espécies marinhas.
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— Estamos fazendo um trabalho com escolas e crianças para que esses polvos que hoje vivem no lixo tenham novamente o ambiente natural para morar — diz a cientista.






