O sentimento que hoje se traduz em cuidado foi, durante muitos anos, como medo. Em Faxinal dos Guedes, no Oeste catarinense, Michele Adamio construiu uma relação improvável com uma jiboia, que agora é seu animal de estimação. Uma convivência que nasceu do pavor, atravessou a curiosidade e chegou ao afeto.

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A transformação não aconteceu de forma repentina. Desde a infância, cobras representavam ameaça real dentro da rotina familiar.

— Eu tinha pavor de cobras. Infelizmente, quando surgia a oportunidade, eu as matava. Elas picavam, matavam nossos animais, e eu temia por mim e pela minha família. Minha mãe já foi picada dentro de casa, inclusive. O medo vinha da necessidade de proteção — recorda.

Durante muito tempo, essa foi a única forma de lidar com a situação. Até que, já adulta, Michele começou a buscar maneiras de simplesmente afastar os animais, sem precisar matá-los. Foi nesse momento que algo começou a mudar.

— Comecei a pesquisar formas de espantar. E quanto mais eu estudava, mais o medo dava lugar ao interesse. Sem perceber, me apaixonei — diz.

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Relação entre tutora e animal foi construída com paciência, respeito e tempo (Foto: Arquivo Pessoal, Divulgação)

A decisão que parecia impossível

O passo seguinte veio em fevereiro do ano passado, quando Michele encontrou uma jiboia que cabia no orçamento e reunia as características que procurava. A escolha, porém, não significou tranquilidade imediata.

— No primeiro contato, fui recebida com um bote. E ali não havia mais como desistir, porque ela já estava em meu nome. Lembro de pensar, assustada e nervosa: “Paguei caro pra matar essa aqui também…” — conta.

O pensamento revela o conflito interno daquele momento: entre o medo antigo e a nova decisão que começava a tomar forma. O vínculo, então, precisou ser construído devagar.

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— Com muito receio, paciência e respeito, fui aos poucos conquistando a confiança dela. E ela, a minha também — cita.

A jiboia recebeu o nome de Jiji, inspirado simplesmente na palavra “jiboia”. O animal foi adquirido em Sarandi, já com documentação regular, incluindo nota fiscal, Guia de Trânsito Animal (GTA) e termo de responsabilidade assinado pela tutora.

Para Michele, a convivência com Jiji representa um processo de ressignificação pessoal (Foto: Arquivo Pessoal, Divulgação)

Crescimento, rotina e comportamento

Hoje, dois anos depois, Jiji mede cerca de 1,5 metro, pesa aproximadamente 1,5 quilo e já triplicou de peso desde que chegou, quando tinha apenas 358 gramas. A expectativa é que alcance até 2,5 metros na fase adulta.

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Segundo Michele, o comportamento do animal surpreende quem ainda associa cobras apenas ao perigo.

— Ela me identifica em meio às outras pessoas, interage, reconhece estímulos. Quando bato no vidro, ela vem. Gosta de nadar, aceita carinho. As crianças adoram — comenta.

A alimentação segue orientação específica: apesar de a espécie normalmente se alimentar uma vez por mês, Michele oferece comida duas vezes mensais para estimular o crescimento, sempre com ratos pré-abatidos que não ultrapassam 15% do peso vivo do animal.

Mesmo sem outros pets, decisão tomada por causa da rotina corrida, ela afirma que o manejo da jiboia é mais simples do que muitos imaginam.

— Como ela se alimenta poucas vezes no mês, acaba sendo mais tranquilo do que animais que exigem cuidados diários — frisa.

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Jiji tem cerca de 1,5 metro e recebe cuidados específicos em um terrário preparado dentro de casa (Foto: Arquivo Pessoal, Divulgação)

Um ambiente pensado para o bem-estar

Para garantir qualidade de vida à jiboia, Michele preparou um terrário completo, planejado de acordo com as necessidades da espécie, que não é nativa da região fria do Oeste catarinense.

O espaço conta com toca aquecida, sistema de aquecimento contínuo, lago para beber água e se banhar, estrutura de árvore, já que a espécie é semi-arborícola, e cobertura de substrato com grama, chips de coco e carvão ativado.

A estrutura reflete não apenas responsabilidade, mas também a mudança de olhar construída ao longo do tempo.

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Michele Adamio ao lado da jiboia Jiji, animal que marcou a superação de um medo da infância (Foto: Arquivo Pessoal, Divulgação)

Muito além de um animal diferente

Embora registros do cotidiano com Jiji tenham chamado atenção nas redes sociais, Michele destaca que o significado da convivência vai muito além da curiosidade das pessoas.

Para ela, a presença da jiboia representa um processo interno de cura e reconstrução.

— Mais do que perder o medo, eu ressignifiquei uma história inteira — relata.

O futuro já tem um novo objetivo: criar, de forma legalizada, um criatório da espécie, agora movida não pelo instinto de defesa que marcou a infância, mas pelo conhecimento, respeito e cuidado que nasceram ao longo do caminho.

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