Morreu aos 84 anos, na manhã desta segunda-feira (6), Claudete Régis, conhecida como Dona Dete, a mãe de santo mais antiga do Morro do Mocotó, em Florianópolis, que dedicou a vida à religião e à luta pelo acesso à água potável na região. A informação foi confirmada por amigos e familiares. O velório será realizado no Cemitério do Itacorubi, seguindo as tradições da Umbanda. A causa da morte não foi informada.

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Dona Dete, como era conhecida, viveu toda a vida no Morro do Mocotó e se dedicou a trazer melhores condições de infraestrutura, incluindo moradia, luz e água potável para os moradores da comunidade. Além de liderança na luta comunitária, ela também foi uma importante líder religiosa. Acolhia, em sua própria casa, pessoas que precisavam de ajuda e benzimento. Sua filha, Norma Machado, descreveu a mãe como “um espelho de fortaleza e resiliência”.

A luta por água potável no Morro do Mocotó

Em 1979, enquanto se preparava para se tornar mãe de santo, o caminho de Dona Dete se cruzou com o Padre Vilson, fundador e líder do Instituto Pe. Vilson Groh (IVG), quando ele ainda era seminarista. Os dois, em processo de formação — Vilson na doutrina católica e Claudete na Umbanda — criaram uma relação de diálogo e união e, juntos, construíram o poço de água potável no alto do Morro do Mocotó.

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Vilson conta que, quando chegou ao morro, Dona Dete, então com 37 anos, já era uma liderança que mobilizava a comunidade pela perfuração do poço. Ele então se ofereceu para ajudar e passou a cavar, junto com os moradores, o poço de água. Assim nasceu uma amizade entre os religiosos que durou mais de 40 anos, marcada por luta, diálogo ecumênico e sensibilidade.

Em uma reportagem do Jornal do Almoço, da NSC TV, em 2023, Dona Dete descreveu a amizade dos dois como uma obra de Deus:

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— Deus escreveu torto por linhas certas para “nóis”, e foi uma união muito grande.

Diálogo entre Umbanda e Catolicismo

Um dos feitos de Dona Dete foi a luta pelo diálogo entre as religiões de matriz africana e o catolicismo. Ela relatava que a Umbanda não era aceita e que ela e a família sofreram preconceito. Ao Jornal do Almoço, a mãe de santo afirmou que, quando sua filha foi fazer a primeira comunhão na religião católica, teve dificuldades para ser aceita por causa das crenças da mãe.

Padre Vilson descreveu Dona Dete como uma mulher “extremamente importante” do ponto de vista do diálogo e da abertura para os cultos afro-brasileiros. Ele relata que a mãe de santo participava ativamente das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ou seja, pequenos grupos de leigos católicos organizados em bairros ou comunidades rurais.

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Claudete, inclusive, chegou a participar de congressos nacionais, inclusive da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o evento católico mais importante do país.

— Uma mulher, uma liderança comunitária, uma mãe de santo, uma trabalhadora. Dona Claudete é uma mulher que se constitui como uma das grandes personagens líderes do Morro do Mocotó, do ponto de vista das diversas áreas cruciais de infraestrutura, de água, de luz, de saneamento, e que tinha a porta do seu terreiro sempre aberta para acolher todas as pessoas — diz Padre Vilson.

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O padre relembra que o orixá (divindade das religiões de matriz africana) de Dona Dete era justamente uma mulher, Tia Maria de Minas. Alguém que, segundo Vilson, assim como a mãe de santo, “fazia o bem a todas as pessoas”.

— Dona Claudete é um ser de luz, sempre foi um ser de luz e continuará sendo um ser de luz, referência de que vale a pena fazer o bem e vale a pena trabalhar pela construção de um caminho de solidariedade, justiça social, fraternidade e rompimento com a desigualdade social — completa o padre.

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Veja fotos de Dona Claudete

História de Dona Dete

Em 2023, Dona Dete relatou sua história à estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Juliana Naomi Ferrari para a produção do estudo A Guardiã de Desterro: histórias do Morro do Mocotó. No texto, a autora destaca que “sua memória rica em detalhes das vivências passadas pela comunidade vem sempre com um sorriso e um brilho no olhar, uma emoção que demonstra aos seus ouvintes e espectadores o filme nostálgico sobre a cultura e a história do morro, repleto de recordações gostosas”.

Segundo o texto, Claudete Régis nasceu em 2 de abril de 1942 e era a mãe de santo mais velha do Morro do Mocotó e uma das moradoras mais antigas. Aos 30 anos, entrou para um terreiro e se encantou pela crença. Participou de muitas giras e de muitos terreiros e, posteriormente, abriu seu próprio cantinho de atendimento no quarto do filho, dentro da própria casa, para dar assistência à comunidade e benzer os moradores que precisavam.

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Já aos 60 anos, Dona Dete fez sua “camarinha”, quando se “deita para ser babá”. Este é um termo utilizado pelas religiões de matriz africana para quando um médium já desenvolvido na religião permanece deitado em uma esteira por sete dias, preparando-se para se tornar mãe de santo.

Ela diz que, após muita luta, entre 1975 e 1989 a comunidade teve alguns progressos. Durante os mandatos do ex-prefeito de Florianópolis Esperidião Amin e de sua esposa, Angela Amin, Dona Dete conseguiu, com engajamento político, que as casas dos moradores do Morro do Mocotó fossem passadas para seus próprios nomes. Até então, as residências faziam parte do terreno do Hospital da Guarnição.

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Também foi nesse período que a comunidade teve acesso à água encanada e à luz, que antigamente eram origem de diversos problemas de saúde no Mocotó.

No texto, Dona Dete compartilhou uma recordação dos tempos em que ainda era jovem e brincava no topo do morro, quando tudo era mato:

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“Tenho uma saudade dessa época… da juventude… a gente, sei lá… esse morro aqui era pouco pra gente. Pra brincar, correr, se esconder… porque ali nessas casinhas da Angela, ali não tinha casa nenhuma. Ali no topo era um morro. A gente rolava por ali. Se arrastava de carriola. O coqueiro não dá assim aquelas coisas, um cacho de coco? Aí tem aquelas coisas ali, que parecem uma canoa? Então a gente pegava aquilo e rolava lá para baixo… ohhh que maravilha… pegava tudo do alto para correr e brincar… era bom, era bom”.