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    SITUAÇÃO NA ÍNDIA 

    "Não vamos morrer de Covid-19, mas de fome"

    Na Índia, milhares de trabalhadores fazem fila duas vezes por dia para receber pão e legumes refogados para driblar a fome

    06/05/2020 - 12h56

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    Por The New York Times
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    *Por Abdi Latif Dahir

    Nairóbi, Quênia – Na maior favela da capital queniana, pessoas desesperadas de fome criaram um tumulto durante uma distribuição recente de farinha e óleo de cozinha que resultou em dezenas de feridos e dois mortos.

    Na Índia, milhares de trabalhadores fazem fila duas vezes por dia para receber pão e legumes refogados para driblar a fome. Em toda a Colômbia, os mais pobres estão pendurando bandeiras ou peças vermelhas nas portas e janelas para sinalizar que não têm o que comer.

    "Não temos dinheiro nenhum, mas precisamos sobreviver, o que significa não ter muito o que comer", diz Pauline Karushi, que perdeu o emprego em uma joalheria em Nairóbi e mora em uma casa de dois cômodos com a filha e quatro parentes.

    Com a pandemia, milhões de pessoas agora estão passando fome. A implantação de quarentenas e medidas de distanciamento social está resultando em demissões e na inevitável falta de renda, e deve interromper a produção agrícola e as rotas de abastecimento, deixando milhões sem saber como vão conseguir se alimentar.

    O coronavírus às vezes é chamado de "nivelador" pelo fato de atingir pobres e ricos, mas, quando se trata de alimentação, as semelhanças desaparecem. É a população carente, incluindo grandes segmentos das nações mais pobres, que agora está passando fome e enfrenta a perspectiva de nem ter o que comer.

    "O coronavírus é tudo, menos um grande equalizador. Na verdade, é um grande revelador, escancarando a divisão de classes e expondo a desigualdade arraigada que acomete este país", afirma Asha Jaffar, uma das voluntárias que levaram comida às famílias na favela de Nairóbi depois do tumulto fatal.

    "Cento e trinta e cinco milhões de pessoas já enfrentavam uma escassez séria de alimentos, mas agora, com a pandemia, outros 130 milhões podem engrossar esse número em 2020. Nunca vimos nada parecido. O quadro já era desesperador, mas agora entramos em um território totalmente desconhecido, em uma situação sem precedentes", diz Arif Husain, economista-chefe da agência da ONU Programa Alimentar Mundial. Ao todo, calcula-se que 265 milhões de pessoas cheguem ao limiar da miséria até o fim do ano.

    O mundo já enfrentou crises alimentares severas antes, mas eram regionais e causadas por um ou outro fator, como condições climáticas, desaceleração econômica, guerra ou instabilidade política.

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    A atual, explicam os especialistas, é global e causada por uma série de fatores ligados à pandemia e à consequente interrupção da ordem econômica: a perda repentina de renda de milhões que já viviam só de salário; o colapso do preço do petróleo; escassez generalizada de dinheiro vivo devido à paralisação do turismo; a mão de obra imigrante no exterior sem ganhos para mandar para o país de origem; e problemas já existentes como a mudança climática, a violência, o deslocamento populacional e os desastres humanitários.

    E já começaram os protestos e saques em lugares como tão díspares como Honduras, África do Sul e Índia, em meio à frustração gerada pela quarentena e ao medo da fome. Com as escolas fechadas, mais de 368 milhões de crianças deixaram de receber a merenda nutritiva de que dependiam.

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    Em âmbito mundial, não há falta de alimentos ou inanição em massa – ainda. "As dificuldades logísticas de plantio, colheita e transporte deixarão os países mais pobres expostos nos próximos meses, principalmente os que dependem da importação", explica Johan Swinnen, diretor-geral do Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares de Washington.

    E completa: "Embora o sistema de distribuição e comercialização das nações ricas seja organizado e automatizado, a estrutura dos países em desenvolvimento é dependente da mão de obra, ou seja, são cadeias de fornecimento muito mais vulneráveis à Covid-19 e às normas de distanciamento social."

    Mesmo que não haja grandes saltos nos preços dos alimentos, a situação da segurança alimentar dos pobres tem tudo para se deteriorar significativamente no mundo inteiro. Isso vale particularmente para economias como o Sudão e o Zimbábue, que já estavam em dificuldades antes do surto, ou como a iraniana, que tem de usar uma fatia cada vez maior da receita do petróleo para financiar produtos essenciais como alimentos e remédios.

    Na Venezuela, a pandemia pode representar um golpe arrasador a milhões que já estão enfrentando o maior colapso econômico do mundo em tempos de paz. Na imensa favela Petare, na periferia da capital, Caracas, a quarentena nacional deixou Freddy Bastardo e cinco pessoas de sua família desempregados. As cestas básicas fornecidas pelo governo, que antes da pandemia chegavam a cada dois meses, há muito desapareceram.

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    "Já estamos pensando em vender coisas da casa que não usamos para poder comer. Tenho vizinhos que estão passando fome e tenho medo de que, se os protestos começarem, não vamos mais poder sair daqui", confessa Bastardo, um segurança de 25 anos.

    A incerteza alimentar também está se agravando na Índia, onde operários e trabalhadores diaristas com uma rede de segurança social mínima ou inexistente enfrentam um futuro no qual a fome é uma ameaça mais imediata que o vírus.

    "Com a interrupção da remuneração, calcula-se que 500 mil pessoas tenham deixado as cidades a pé para voltar para casa, gerando a maior migração em massa da nação desde a independência", conta Amitabh Behar, CEO da Oxfam Índia.

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    Há pouco tempo, centenas desses trabalhadores, sem poder sair em Nova Déli por causa da quarentena imposta de forma abrupta, em março, viam-se sentados à sombra de uma ponte, esperando a chegada da comida. O governo local organizou diversos sopões, mas pessoas como o trabalhador Nihal Singh, por exemplo, passam fome porque o volume de gente nesses centros aumentou absurdamente. "Não é o coronavírus que vai matar a gente, é a fome", lamenta, esperando poder fazer a primeira refeição do dia.

    É comum ver nessas filas migrantes saindo no braço por causa de um prato de arroz com lentilha. Singh admite ter vergonha de pedir comida, mas sabe que não tem opção. "A quarentena atropelou nossa dignidade", desabafa. Os refugiados e as populações das zonas de conflito deverão ser os mais afetados.

    Os toques de recolher e as restrições de movimento já estão afetando a renda magra dos desalojados em lugares como Uganda e Etiópia, a entrega de sementes e ferramentas agrícolas no Sudão do Sul e a distribuição de ajuda alimentar na República Centro-Africana. Segundo o Comitê Internacional de Resgate, as medidas de contenção no Níger, que abriga quase 60 mil pessoas que fugiram do conflito no Mali, forçaram aumentos dos preços dos alimentos.

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    "Os efeitos das restrições talvez causem mais sofrimento do que o próprio desastre", completa Kurt Tjossem, vice-presidente para a África Oriental da instituição.

    Com tantos famintos, teme-se que a escassez leve à discórdia social em muitos países. Na Colômbia, a população do estado costeiro de La Guajira começou a bloquear as estradas para chamar a atenção para sua necessidade alimentar. Na África do Sul, grupos inteiros se unem para invadir mercearias e encaram a polícia. E até as distribuições de comida por instituições de caridade podem expor as pessoas ao vírus quando há aglomerações, como aconteceu na favela de Kibera, em Nairóbi.

    "Um chamava o outro e aí vinha todo mundo correndo. O pessoal está desempregado. O que aconteceu mostra bem o nível de desespero geral", conta Valentine Akinyi, que trabalha na repartição pública distrital onde os alimentos foram distribuídos.

    Para aplacar o impacto da crise, alguns governos estão fixando os preços de alguns itens, distribuindo alimentos e instaurando programas de envio de dinheiro para as famílias mais carentes.

    Mas muitas comunidades ao redor do mundo também estão arregaçando as mangas e partindo para a ação, arrecadando dinheiro mediante plataformas de financiamento coletivo e/ou iniciando programas de compra de refeições para os mais necessitados.

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    Há pouco tempo, Jaffar e um grupo de voluntários foram a Kibera levando itens como açúcar, farinha, arroz e absorventes para dezenas de famílias. Nativa da área, ela conta que organizou a iniciativa depois de ouvir um sem-fim de histórias de pessoas revelando que iam dormir com fome.

    "O movimento já atingiu 500 famílias até agora, mas isso, com tantos pedidos de ajuda que recebemos, é só uma gota no oceano", conclui.

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