Era uma quarta-feira de cinzas de 1992 quando a história do Berbigão do Boca, bloco tradicional de Florianópolis, começou a ser desenhada. Sentados em uma mesa da sede do clube Doze de Agosto, no bairro Coqueiros, sete amigos bebiam para curar a ressaca de um Carnaval que havia acabado cedo demais. Boca, um dos foliões do grupo, estava inconsolável. Para ele, um “carnavalesco inimigo do fim”, o Carnaval em Santa Catarina durava pouco se comparado a festas de outros estados, como Pernambuco.

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— Nessa época o Carnaval passou para a Passarela Nego Quirido, com as escolas de samba. Com isso, houve uma diminuição do número de blocos, que sempre foi a grande manifestação carnavalesca de Florianópolis, a mais típica pelo menos, e ele [o Boca] estava inconsolável — lembra Leonardo Garofallis, o Nado, que era um dos homens sentados naquela mesa em 92.

Foi quando veio a provocação: “nós precisamos fazer alguma coisa”. A ideia, então, não era prolongar o Carnaval, mas criá-lo antes mesmo de ele começar. Assim nasceu o Berbigão do Boca — um nome que une uma iguaria típica de Florianópolis ao apelido do folião que se revoltou com o fim precoce da festa na Ilha.

Veja fotos de como era o Berbigão do Boca nos anos 90

Mais de três décadas depois, a resposta veio em forma de tradição. Nesta sexta-feira (6), o Centro de Florianópolis volta a se transformar, pelo 34° ano seguido, em um mar de cor, alegria e música. Quando a marchinha do hino-enredo começa — “É festa pra rachar, é uma coisa louca, vamos botar pra quebrar, no Berbigão do Boca!” — não há dúvida: o Carnaval começou.

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Desde 2004, o Berbigão do Boca é considerada oficialmente a abertura do Carnaval da capital catarinense, por meio do Decreto 2.150/2003. Sete anos depois, o bloco foi tombado como patrimônio cultural e material do município.

A escolha da data não é por acaso. O bloco sempre sai na sexta-feira que antecede o Carnaval, justamente para preparar o espírito dos foliões.

— O Berbigão acontece com a motivação original, de motivar o Carnaval, de lembrar as pessoas que daqui a uma semana tem Carnaval, e que elas têm que preparar os seus espíritos, se dispor já das coisas menos importantes, e cair na folia — explicou Leonardo, diretor financeiro e um dos sete fundadores do bloco, ao NSC Total.

Criado como uma festa carnavalesca, o Berbigão do Boca foi se transformando ao longo dos anos, acompanhando as expectativas de quem participa.

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— Eles trazem muito da tradição de Florianópolis [para o bloco], tornando muito mais do que uma festa carnavalesca, mas uma festa da cidade, de suas tradições, a maior da cultura popular de Florianópolis, indiscutivelmente — aponta.

Bonecos gigantes e homenagens

Foi em 1995 que o Berbigão passou a ganhar uma de suas marcas mais conhecidas: os bonecos gigantes. A ideia surgiu para homenagear e eternizar personagens importantes da cultura catarinense. O artista Alan Cardoso foi o responsável pela primeira criação, dedicada ao músico Luiz Henrique Rosa.

— O Alan é especialista em boi de mamão e fez uma maricota personalizada com a cara do Luiz Henrique Rosa. Ali, inspirados pelo Bacalhau do Batata, lá de Recife, que tem aqueles bonecos enormes, passamos a homenagear pessoas do nosso dia a dia, de variadas classes sociais, profissões, ocupações. Passamos a homenagear essas pessoas que faleceram, para eternizá-las na memória do povo — conta Leonardo.

No início, eram produzidos dois ou três bonecos por ano. Hoje, devido à necessidade de cuidados e espaço para armazenamento, a produção é de um boneco anual. Em 2026, o homenageado será Albertino João de Farias Filho, o Tinga do Repinique, símbolo do samba e da tradição carnavalesca de Florianópolis, que morreu em junho de 2024.

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Cultura manezinha em desfile

O Berbigão do Boca reúne diversas alas que representam manifestações culturais de Florianópolis. Entre elas estão as rendeiras, figuras emblemáticas da cultura açoriana, que realizam a renda de bilro durante a festa. Cerca de 80 mulheres se reúnem em uma grande roda para trabalhar e, ao final do evento, saem dançando pelas ruas do Centro.

— São pessoas de mais idade que extravasam sua alegria, chega a emocionar — conta Leonardo.

Também fazem parte do desfile as alas das antigas rainhas do Carnaval, que revivem seus anos de glória, além das passistas — incluindo futuras rainhas — e uma ala formada por meninos e meninas que apresentam uma coreografia criada especialmente para a festa.

Outro destaque é o carro alegórico “Luxo no Lixo”, idealizado por Pedro Goulart, o Pedrinho, e Silvinho D’Aláscio. Pedrinho puxava o carro vestido de smoking e tomando espumante. Ele morreu aos 71 anos, em agosto de 2024, vítima de câncer.

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Criado mais recentemente, o Bloco Místico também ganhou protagonismo.

— É importantíssimo porque o imaginário manezinho não se desprende de bruxos, bruxas e boitatás, esses entes mitológicos que nós temos. No ano passado, vieram 150 pessoas vestidas dos mais variados personagens e reverenciando, evidentemente, os três grandes magos da Ilha: o Seixas Neto, Maia Filho e Franklin Cascaes — lembra.

Há ainda a ala das escolas de samba, em que cada agremiação desfila com sua bandeira, reunindo 10 mestres-salas e porta-bandeiras.

Berbigão também no prato

Além da música e das manifestações culturais, o evento também aposta na gastronomia. Desde 2004, o Berbigão do Boca promove um festival culinário em que o ingrediente obrigatório é o berbigão, preparado por chefs amadores.

Ao longo de 21 anos, o concurso já resultou na publicação de dois livros de receitas, em parceria com a Faculdade Senac de Gastronomia.

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— Isso fez com que hoje nossos restaurantes ofereçam pratos à base de berbigão — explica Leonardo.

Mais de 150 mil pessoas devem circular pela festa em 2026

A expectativa para esta edição é de grande público. Segundo Leonardo, entre 130 mil e 150 mil pessoas devem circular pelos diferentes pontos da festa ao longo do dia. Em 2024, a folia atingiu o pico entre 19h e 20h, quando 70 mil pessoas se juntaram no Centro da Capital.

Neste ano, Leonardo tem uma expetativa de 80 mil foliões durante o desfile, que ocorre no mesmo horário.

— A partir das 19h, nós fazemos um desfile com todas as alegorias e atrações. O desfile, que sai do mercado, vai até a Praça XV, a Catedral, desce a Praça XV e retorna ao mercado. Então é isso, um pico de 80 mil pessoas para [um total de] 130, 150 mil durante as 12 horas de festa — estima.

Confira a programação do Berbigão do Boca 2026

Nesta sexta-feira, a Prefeitura de Florianópolis realiza a cerimônia de Entrega da Chave da Cidade ao Rei Momo, às 16h30min, na tradicional festa do Berbigão do Boca. O ato representa a abertura oficial do Carnaval, quando a administração municipal passa simbolicamente o comando da cidade ao Rei Momo durante os dias de folia.

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O Berbigão do Boca acontece das 12h às 22h, na Arena Central, no Largo da Alfândega. Das 13h às 16h, acontece o Concurso Gastronômico, que deverá ter como insumo principal e destacável o berbigão, valorizando a culinária local e a criatividade dos chefs.

Durante a competição, no palco principal, terá som mecânico, Banda Em Cima da Hora e apresentações de dança.

A entrega do troféu da competição será às 16h, e, em seguida a entrega do troféu amigos do Berbigão do Boca, criado em 1996 com o objetivo de homenagear entidades, empresas ou pessoas que contribuíram para o êxito da Festa. A saída do bloco será 19h e irá percorrer o entorno da Praça XV junto do trio elétrico, seguindo com a folia até 22h.

Veja a programação oficial:

  • 13h às 14h – palco principal com som mecânico;
  • 14h às 15h – Banda Em Cima da Hora;
  • 15h às 15h10min – apresentação de dança com coreografia da Andreia Zaida;
  • 15h10 às 16h – apresentação da Banda Carapeva com marchinhas de carnaval;
  • 15h45 às 15h55min – as rainhas do carnaval e do Berbigão do Boca subirão ao palco e se apresentarão junto com a banda Carapeva;
  • 16h às 16h15min – entrega do Troféu Gastronomia;
  • 16h15min às 16h30min – entrega do Troféu “Amigos do Berbigão do Boca”;
  • 16h30min às 17h – prefeito de Florianópolis, Topázio Neto (PSD), entrega a chave da cidade ao Rei Momo e sua corte;
  • 17h às 19h – apresentação do Grupo Entre Elas;
  • 18h30min às 18h45min – apresentação da ala das passistas do Berbigão, rainhas, cidadã samba e madrinhas do bebo.

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Alterações no trânsito

O Berbigão do Boca vai afetar o trânsito no Centro da Capital, que terá alterações. A concentração do bloco, que marca o começo do Carnaval em Florianópolis, inicia às 12h na Arena Central, Largo da Alfândega. A previsão é que todas as vias estejam liberadas por volta de meia-noite.

O desfile do bloco está previsto para às 19h, passando pelas ruas Deodoro, Tenente Silveira e Arcipreste Paiva. Durante a passagem dos foliões pela Tenente Silveira, o trânsito será desviado para a Rua Vidal Ramos. A partir da madrugada de quinta para sexta, o estacionamento na Praça XV será restrito.

A Avenida Paulo Fontes está bloqueada a partir do cruzamento com a Praça Fernando Machado desde segunda-feira (2) e seguirá assim até a quarta-feira de cinzas (18). A via no sentido Sul da Ilha deverá fluir normalmente, mas, caso haja grande concentração de pessoas, poderá haver bloqueio no cruzamento com a Rua Pedro Ivo, com permissão exclusiva para o acesso de ônibus ao Terminal de Integração do Centro (Ticen).

A Guarda Municipal de Florianópolis estará nas ruas para orientar o trânsito e garantir a segurança dos foliões. Em caso de emergência, a GMF pode ser acionada pelo número 153.

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