Fevereiro é marcado por devoção e tradição para religiões distintas, que se unem no mesmo dia em atos de comemoração. Fiéis católicos celebram o dia de Nossa Senhora dos Navegantes, e religiões de matriz africana celebram Iemanjá, ambos comemorados no dia 2 de fevereiro.

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Em Navegantes, a Padroeira do município é celebrada com uma procissão terrestre com o maior manto do mundo e dias de programação religiosa e cultural. A 130ª Festa de Nossa Senhora dos Navegantes une missas, novenas, procissões e shows musicais, como o da dupla Thaeme e Thiago.

A festa, considerada Patrimônio Cultural Imaterial de Navegantes, começa nessa sexta-feira (30), com a Santa Missa e 1ª Novena, seguida por um jantar de massas, que será aberto a todos os públicos. As atividades seguem até o dia 8 de fevereiro, com um show nacional que deve embalar moradores e turistas no fechamento de mais uma edição do evento.

A procissão terrestre, muito aguardada por fiéis, será no dia 2 de fevereiro a partir das 19h30, no Dia Nacional da Nossa Senhora dos Navegantes. Milhares de pessoas são esperadas no cortejo e devem auxiliar a levar o manto, que foi reconhecido pelo Guinness Book como o maior manto do mundo, medindo 1.059,80 metros quadrados.

Já no dia 8 de fevereiro, a Procissão fluvial leva a fé sobre as águas em um cortejo com embarcações pelo Rio Itajaí-Açu, a imagem da santa é tradicionalmente conduzida pelo ferry boat, seguida por devotos. Na edição do ano passado, aproximadamente 15 barcos participaram da procissão e ao todo, mais de 30 mil pessoas participaram dos dez dias de comemoração da festa.

A programação completa da festa está disponível e pode ser consultada no site oficial da Prefeitura de Navegantes.

11ª Caminhada para Iemanjá

Organizada por André Trindade, produtor cultural e Pai de Santo de Umbanda, a Caminhada para Iemanjá celebra a Rainha dos Mares há dez anos em Itajaí. Em 2026, o evento chega na décima primeira edição e reunirá fiéis a partir das 19h no dia 2 de fevereiro.

A concentração será em frente à Rua Teresa Francisca Pereira, Nº 289, na Praia de Cabeçudas, e segue até o pontal Norte da praia, conhecido como “Canto de Iemanjá”. Os participantes são convidados a irem vestidos de branco e levarem suas oferendas à divindade.

O encontro é marcado por orações, homenagens, música e expressões de fé. Na última edição, cerca de três mil pessoas participaram da caminhada. A 11ª edição da Caminhada para Iemanjá teve a autorização deferida pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação

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Hibridismo Cultural

As celebrações do dia 2 de fevereiro marcam mais do que uma data religiosa; elas expressam um encontro histórico entre diferentes culturas e crenças. Nesse dia, fiéis católicos celebram Nossa Senhora dos Navegantes, enquanto praticantes das religiões de matriz africana rendem homenagens a Iemanjá.

Para a historiadora, mestra em patrimônio cultural e docente no curso de história da Univali, Evelise Moraes Ribas, o tema é uma oportunidade para abordar a hibridização cultural, conceito formulado por Néstor García Canclini.

— A aproximação simbólica entre as figuras de Maria e Iemanjá deve ser compreendida no interior das estratégias históricas de sobrevivência religiosa desenvolvidas por africanos e seus descendentes no Brasil escravista. Diante de toda a violência sofrida pelos negros escravizados no processo colonizador, da repressão e silenciamento de suas práticas culturais, os orixás foram, em muitos casos, associados a santos católicos, produzindo um campo de correspondências que permitia tanto a continuidade de seus ritos quanto a dissimulação diante do controle do sistema colonial — relata.

Nossa Senhora dos Navegantes é um título dado à Maria, mãe de Jesus, trazida da tradição católica europeia e fortalecida no Brasil entre pescadores, marinheiros e comunidades ribeirinhas. A santa é vista como protetora dos que vivem do mar.

Iemanjá, por sua vez, é um orixá cultuado no Candomblé e na Umbanda, ligada às águas salgadas, à origem da vida e à maternidade. Suas homenagens incluem oferendas ao mar e rituais que preservam a ancestralidade africana e a relação espiritual com a natureza.

Para Evelise, manter essas celebrações vivas garante a continuidade de manifestações e saberes imateriais. Conhecimentos como rezas, cantos e ritos, só existem e se perpetuam quando são praticados e passados entre gerações.

— Valorizar a festa de Nossa Senhora dos Navegantes e o culto a Iemanjá é proteger a história, reconhecer a diversidade religiosa, combater o preconceito e a intolerância e fortalecer os saberes e as relações sociais de Itajaí e Navegantes — finaliza a historiadora.