Os terremotos registrados na Venezuela em junho de 2026 trouxeram novamente ao debate público a atividade sísmica na América do Sul e a situação do território brasileiro. Ao contrário do que indica a percepção de que o país é totalmente imune a tremores ou terremotos, dados da geofísica demonstram a existência de áreas expostas a tremores de terra. No contexto nacional, o Nordeste concentra o maior risco sísmico do país devido a uma característica específica de seu subsolo, a presença da Província Borborema, uma zona onde a crosta terrestre é mais fina e possui uma rede de falhas geológicas ativas. Essa estrutura abrange os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, além de trechos da Bahia e do Piauí

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FOTOS: O monitoramento do risco sísmico no Brasil e os registros na Província Borborema

Embora o Brasil ocupe uma posição estável no interior da Placa Sul-Americana, o que difere do cenário de fronteira de placas observado na Venezuela, o continente passa por pressões tectônicas contínuas. Quando essas forças internas se distribuem pelo subsolo, elas encontram menor resistência nas fraturas localizadas sob a região Nordeste. De acordo com o Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis/UFRN), a região apresenta 10% de probabilidade de registrar sismos de magnitude entre 5,5 e 6,2 em um período de 50 anos, índice superior ao do restante do território nacional.

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A atividade na região é frequente. No balanço de maio de 2026, o LabSis catalogou 19 eventos sísmicos distribuídos por sete estados nordestinos, a maioria de baixa intensidade. Esses dados evidenciam que, embora os eventos de grande magnitude sejam característicos de bordas de placas tectônicas, o monitoramento e o planejamento urbano no Nordeste demandam atenção em função da dinâmica geológica local.

Histórico de impactos e monitoramento

O evento mais expressivo ocorreu em 1980, no Ceará, atingindo magnitude 5,2. Seis anos depois, em 1986, o município de João Câmara (RN) registrou um sismo de magnitude 5,1 associado à Falha da Samambaia. Na ocasião, cerca de 4 mil edificações sofreram danos estruturais ou colapso parcial, resultando no deslocamento temporário de aproximadamente 10 mil moradores.

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Fora da área continental, o monitoramento identifica atividades significativas na margem oceânica. Em 2020, os sismógrafos registraram um abalo de magnitude 6,9 no Oceano Atlântico, nas proximidades do arquipélago de São Pedro e São Paulo, a nordeste de Fernando de Noronha. O movimento foi classificado como transcorrente, com deslizamento horizontal dos blocos rochosos, dinâmica que não gera deslocamento vertical de água e, portanto, reduz a possibilidade de tsunamis na costa brasileira.

Mais recentemente, a atividade sismográfica se manteve regular. Além dos eventos catalogados no primeiro semestre de 2026, sequências sísmicas expressivas foram documentadas no ano anterior. Em abril de 2025, o município de Carnaubais (RN) enfrentou mais de 20 tremores em um intervalo de 48 horas, com picos de magnitude 3,0. Embora a maioria das ocorrências recentes apresente baixa intensidade, a persistência dos registros fundamenta os modelos de perigo futuro calculados pelas redes acadêmicas.

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Parâmetros de engenharia e defesas 

A partir dessas evidências, a engenharia civil brasileira adota parâmetros específicos para mitigar os efeitos de possíveis abalos de maior intensidade. A principal referência é a NBR 15421 (Projeto de Estruturas Resistentes a Sismos), diretriz que estabelece as exigências para o cálculo de aceleração do solo e detalhamento estrutural em prédios, pontes e viadutos. O objetivo da norma é garantir que as novas construções possuam flexibilidade e resistência para absorver a energia de tremores de caráter moderado.

No âmbito da gestão pública e prevenção de desastres, o país é respaldado pela Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (Lei 12.608/2012) e pelas metas de planejamento integrado do Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil. O governo federal disponibiliza o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), plataforma que inclui o módulo PLANCON para que administrações estaduais e municipais elaborem planos de contingência específicos para riscos geológicos e hidrológicos.

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Desafios na prevenção e planejamento urbano

A aplicação prática desse conjunto de normas e ferramentas governamentais, contudo, varia de acordo com a priorização local. Pesquisas na área de engenharia estrutural apontam que parcelas significativas das habitações e dos prédios comerciais das cidades nordestinas foram erguidas sem a incorporação dos requisitos da NBR 15421, situação comum em construções mais antigas ou em áreas periféricas com menor índice de fiscalização municipal.

Além disso, os planos de contingência validados e em vigência nas prefeituras da região concentram-se historicamente no enfrentamento de fenômenos climáticos recorrentes, como períodos de estiagem prolongada ou inundações sazonais. Protocolos voltados especificamente para a resposta a abalos sísmicos ainda são raros nas administrações municipais situadas sobre a Província Borborema.

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Como consequência, as diretrizes de ação preventiva em caso de tremores não constam de forma regular em rotinas pedagógicas escolares ou em simulações públicas de evacuação nas cidades da região. O cenário técnico atual do Nordeste brasileiro indica que, embora o monitoramento científico de redes como a RSBR (Rede Sismográfica Brasileira) seja contínuo e preciso, as medidas de segurança nas cidades ainda não acompanham a frequência dos tremores que ocorrem no subsolo.

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*Com edição de Luiz Daudt Junior.