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    Nossa saúde corre perigo em um mundo ocupado por vírus e influencers

    Não há nada como uma pandemia para demonstrar a diferença entre bem-estar e saúde

    22/04/2020 - 17h25

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    Por The New York Times
    saúde
    (Foto: )

    *Por Amanda Hess

    Todos temos mecanismos de sobrevivência, alguns mais produtivos que outros. Nos últimos tempos, encontrei uma forma perversa de escapismo ao observar o Instagram de influencers de bem-estar – nutricionistas intuitivos, alquimistas adaptogênicos, pregadores do veganismo – para ver como eles estão se saindo neste momento.

    Resumindo: estão reluzentes. Miranda Kerr, a modelo que virou empreendedora da beleza orgânica, posa ao lado de uma maçã mordida, em um jardim cheio de plantas, aproveitando o tempo da quarentena "para me dedicar aos cuidados com a pele e fazer uma máscara todo dia". Jordan Younger, conhecida como Balanced Blonde, conta tudo sobre o "jejum da água", que fez durante 14 dias, e aconselha suas seguidoras a "se voltar para dentro", pois "a Terra está fazendo algo POR nós, e não CONTRA nós". Enquanto isso, Amanda Chantal Bacon, guru de estilo de vida que vende suplementos naturais por meio de sua empresa, a Moon Juice, aparece de roupão branco, com uma caneca em uma das mãos e um bebê na outra, com seu rosto de santa emoldurada por uma linda madeixa.

    A legenda é constrangedora. Bacon reuniu uma sequência de emojis – um cogumelo, um planeta com anéis, uma cabeça de alho, uma hélice dupla de DNA, uma barra de sabão espumada e o símbolo do yin e yang –, sugerindo uma reunião sórdida entre o científico e o místico. Ela afirma ser uma "entusiasta da imunomodulação" e aconselha as pessoas a evitar "açúcar, brigas, álcool, medo, alimentos processados, isolamento e estagnação". Em vez disso, ela sugere vitamina C lipossômica, acupuntura, caldos, banhos frios de um minuto e o consumo de diversos adaptógenos, uma categoria de suplementos herbais que supostamente protegem o corpo contra fatores estressantes, oferecidos pela Moon Juice por US$ 38 em potes de 43 gramas.

    Não há nada como uma pandemia para demonstrar a diferença entre bem-estar e saúde. Nossa saúde coletiva não anda muito bem, como quase todo mundo já percebeu. Porém, por meio da lógica dos produtos de bem-estar, essa situação pode representar não apenas a perda de vidas e empregos, mas também uma boa oportunidade. Com o texto motivacional correto e produtos semimedicinais, pessoas em posição de destaque transformam a própria quarentena em uma incubadora de novas oportunidades, uma chance não apenas de evitar o vírus, mas de alcançar o auge da forma física, mental e espiritual.

    Existe algo de tenebroso por trás desses esforços. Mesmo quando não estamos diante de uma pandemia, a ideia de que alguém possa fazer propaganda de um jejum de 14 dias já me faz sentir vontade de chamar a polícia. Ainda assim, as pregadoras do bem-estar se envolveram em um verdadeiro paradoxo neste momento: à medida que o vírus faz nosso sistema de saúde entrar em colapso e obriga as pessoas a se isolar em casa, o autocuidado se torna uma questão urgente.

    O vírus tem o poder de matar as pessoas que infecta, além de causar estresse, luto, solidão e desespero nas pessoas que sobrevivem. "A ansiedade é a parte mais difícil", afirmou o governador de Nova York, Andrew Cuomo, em uma entrevista recente. Os produtos de bem-estar nos oferecem uma sensação de retomar o controle, mesmo que apenas sobre os alimentos que consumimos, sobre nossas práticas de higiene pessoal e sobre o interior de nossa residência.

    Nas últimas semanas, parece que a internet inteira passou a se preocupar com o bem-estar. Atores começaram a ensinar suas receitas; estrelas pop comandam sessões de meditação; blogueiros de moda disputam o patrocínio de marcas de roupa de ficar em casa. O casal do showbiz Kumail Nanjiani e Emily V. Gordon criou o podcast "Em casa com Emily e Kumail", no qual fala sobre como se adaptar à vida dentro de casa com a ajuda de um Nintendo Switch. O público quer as dicas de autocuidado nas apresentações de PowerPoint do governador Cuomo, ou de um solitário que vive em uma cidade abandonada há 50 anos. Estou fazendo ioga pela primeira vez na vida, reclinando a cabeça e sussurrando "namastê" ao fim de cada dia com a ajuda de um instrutor on-line.

    Esses guias de autoajuda do coronavírus oferecem dicas sobre como manter a saúde mental e os relacionamentos durante a quarentena. Mas alguns praticantes do bem-estar estão dando um passo além.

    De Gwyneth Paltrow a Tom Brady, todos estão fazendo propaganda de um suplemento de "suporte imunológico" que obviamente dá a entender que protege contra o vírus. Kerr foi publicamente ridicularizada por compartilhar um guia de "proteção viral" escrito por um "médium médico" que afirma ser o líder do "movimento mundial do salsão". E Bacon foi criticada por criticar um guia de "imunidade" que misturava dicas de como lavar as mãos com produtos da Moon Juice, como o Power Dust e o Spirit Dust.

    Entretanto, com pequenas alterações na mensagem, os mesmos influenciadores ganharam elogios por sua reação à epidemia. A Moon Juice está realizando rifas relativas ao coronavírus por meio do Instagram, enviando "pacotes imunológicos" para pessoas que trabalham com entregas ou em asilos; Kerr doou recentemente diversos séruns de "vitamina C" de sua marca para trabalhadores do setor de saúde no Ronald Reagan UCLA Medical Center, e compartilhou os posts agradecidos das enfermeiras em seu feed.

    Com o controle cuidadoso do vocabulário, as marcas são capazes de capitalizar com a crise, sem dizer nada a respeito. O melhor exemplo da estratégia de branding do coronavírus talvez seja um post feito pela Moon Juice no dia 24 de março, quando a marca ofereceu uma perspectiva cósmica para a situação: "A Lua Nova nos oferece um encontro com o destino. Nossa missão é parir novas versões de nós mesmos, enquanto o mundo se transforma ao nosso redor. Precisamos parar de resistir e dançar com o desconhecido. Estamos descobrindo nossa própria resiliência."

    O texto foi acompanhado por uma receita que misturava leite quente, café e uma pitada de Cordyceps, um "supercogumelo bioativo" que, segundo a Moon Juice, "dá ânimo, aumenta a resistência e reduz a fadiga".

    O movimento contemporâneo do bem-estar nos EUA surgiu nos anos 1960, como forma de combater a ideia predominante de saúde. Enquanto a saúde era descrita como a prevenção contra doenças e era gerida por meio do sistema de saúde, o bem-estar era visto como uma empreitada ativa e positiva organizada em torno do indivíduo. A ideia foi fundida com a noção de proatividade: Halbert Dunn, diretor do Escritório Nacional de Estatísticas Vitais, promoveu a ideia de "bem-estar de alto nível", um "método integrado de funcionamento, cujo objetivo é maximizar o que o indivíduo é capaz de fazer". E isso pode ter dado origem a todo um estilo de vida, que inclui até mesmo acessórios como equipamentos de ginástica, vídeos de Jane Fonda, calças da Lululemon e bobagens do Goop.

    É fácil ver como essa ideia passou de sua origem contracultural para uma série de produtos de luxo. Quando Audre Lorde afirmou que o autocuidado era "um ato de rebeldia política" nos anos 1980, ela se referia ao tratamento de seu câncer em um sistema que era hostil em relação a ela, uma mulher negra e lésbica. A saúde continua a ser uma commodity cara nos EUA, mas agora as pessoas ricas cooptaram o "autocuidado" como um símbolo de status. Elas têm a capacidade de parecer não apenas saudáveis, mas dotadas de um incrível bem-estar. Agora, à medida que o sistema de saúde mostra suas falhas na reação ao coronavírus – com a apavorante falta de produtos de primeira necessidade, como exames, máscaras e respiradores –, as promessas dos estranhos elixires e dos pós exóticos parecem mais sedutoras e enlouquecidas do que nunca.

    O conteúdo de bem-estar costumava ser uma simples reação a algum tipo de necessidade espiritual, mas agora provou ser verdadeiramente fundamental. A Moon Juice gosta de dizer que oferece "autocuidado para o cuidado coletivo" e, embora seja estupidez imaginar que jogar uma pitada de cogumelo moído no café possa beneficiar a comunidade de alguma maneira, tecnicamente a afirmação está quase correta.

    A legitimidade da saúde pública depende dos esforços de cada pessoa para lidar com o isolamento e, se o que a pessoa precisa é de um pouco de pó de cogumelo no café, assim seja. O otimismo desse conteúdo beira a loucura, mas sempre nos dizem que devemos manter o ânimo. O bem-estar pode ser fundamentalmente autocentrado, mas podemos nos perdoar por cuidarmos de nós mesmos quando não há mais ninguém por perto.

    Ainda assim, existe algo de desconcertante na transformação da crise em produtos vendáveis. Quando um batalhão de blogueiros transformou um alerta de saúde pública em um exercício de sinergia – cada um segurou uma placa, escrita com letra bonita de influencer, para alertar o público sobre a necessidade de ficar em casa: "Pelo bem das pessoas que você ama. Seja gentil! Lave as mãos. Ajude a achatar a curva!" –, provavelmente pensou que estava usando suas plataformas para o bem comum. Mas, na verdade, os blogueiros estavam ajudando a fortalecer a noção de que a comunidade deveria se reorganizar de acordo com seus diversos cultos de personalidade.

    Estamos vivendo em um mundo virado do avesso, em que o presidente dos EUA defende em rede nacional o uso de tratamentos sem comprovação científica, enquanto Paltrow aparece no Instagram usando máscaras de proteção facial mais de um mês antes das recomendações oficiais. A saúde pode ter se tornado um bem escasso, mas ainda há muito bem-estar em estoque.

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