Ao desembarcar na maior cidade da Nova Zelândia, Auckland, até duvidei da vocação do país insular para a emoção e a adrenalina – características que consolidaram o turismo de aventura como um atrativo nacional. A manchete de um dos maiores jornais, o New Zealand Herald, anunciava: “Resultados dos jogos de futebol infantil não serão mais divulgados”.

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Que grandes emoções haveria escondidas no país em que a decisão de sonegar o resultado das partidas de crianças para evitar a competitividade precoce era a notícia do dia? O cenário idílico formado por cadeias de montanhas salpicadas de neve, ao pé das quais se sucedem fazendas de criação de gado e ovelha, e o temperamento suave e cordial dos neozelandeses também pareciam contradizer a fama de aventureiros.

Mas bastou uma rápida caminhada por Auckland para confirmar que a sede local por adrenalina é tão grande quanto o Oceano Pacífico em volta. Na esquina das vias Albert e Victoria, um conjunto de cadeiras preso a dois guindastes por cordas elásticas é lançado a 60 metros de altura como se o brinquedo (e seus corajosos ocupantes) fosse o projétil de um gigantesco estilingue apontado para o céu. A duas quadras dali, encontra-se a Sky Tower. Com 328 metros de altura (equivalente a um prédio de cem andares), a torre que domina a silhueta urbana abriga café, restaurante e, claro, serve de plataforma para neozelandeses e turistas pularem a 192 metros do chão. Você está ali, observando a paisagem em um dos andares intermediários, e de repente um sujeito passa zunindo pela janela.

Não é à toa que o primeiro bungy jumping comercial do mundo foi lançado em Queenstown, um dos principais destinos aventureiros do país, em 1988. Dê a um neozelandês uma plataforma qualquer – seja uma torre, uma ponte, um avião – e ele vai pular de lá. Ofereça um rio gélido correndo para o interior escuro e profundo de uma caverna, e ele vai inventar um rafting subterrâneo. Dê acesso a um vulcão ativo e ele vai passear pela cratera repleta de gases irrespiráveis.

A boa notícia é que, a partir de 1º de dezembro, terá início um voo direto partindo de Buenos Aires pela Aerolineas Argentinas. Será mais fácil para os gaúchos conhecerem o país que recebe poucos brasileiros – apenas 12 mil visitaram a Nova Zelândia ao longo de 2014. Hoje, é necessário subir a São Paulo e depois descer a Santiago, no Chile, para então rumar ao arquipélago. Mas não se deixe enganar pelas manchetes de jornal ou pela paisagem bucólica: a Nova Zelândia, como você poderá conferir nesta reportagem, é um país de emoções fortes.

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Rafting subterrâneo à luz de larvas

Você acha muito fria a água do mar gaúcho, com seus 20 e poucos graus no verão? Então imagine fazer rafting sobre uma boia de borracha em um rio cuja temperatura costuma oscilar entre 10ºC e 14ºC – pouca coisa mais agradável do que sua geladeira. O percurso de três horas garante arrepios por outra peculiaridade: é feito no interior de cavernas que chegam a 65 metros de profundidade.

– Parei de sentir os meus pés – comentou uma turista americana mais friorenta.

Foto: Rob Suisted, divulgação

Logo no começo da viagem, porém, esqueci do frio com a ajuda de uma roupa térmica e pela beleza das cavernas de Waitomo, cidade a três horas de carro de Auckland. Com um capacete com lanterna, mergulhei na escuridão absoluta e gélida do rio subterrâneo e me vi obrigado a boiar, andar e pular em pequenas cachoeiras para cumprir o trajeto da Black Water Rafting.

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O grande atrativo são os chamados “glow worms”, algo como “vermes brilhantes”. São larvas típicas da Nova Zelândia que se prendem ao teto das cavernas e brilham para atrair os insetos dos quais se alimentam. Ao passar sob milhares de glow worms, as luzes de todos os capacetes são desligadas, e o visitante boia sobre um trecho lento do rio como se estivesse flutuando no espaço e observando estrelas. Se o frio não tirar o seu fôlego, os glow worms vão.

Foto: Tourism Holdings, divulgação

Prepare-se

Idade mínima de 12 anos.Leve sunga ou biquíni e toalha (há lugar para guardar as roupas). Exigência física moderada. Pessoas com boa mobilidade, de qualquer idade, podem fazer. Custa cerca de R$ 280 por pessoa.

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Viagem à cratera de um vulcão ativo

A 50 quilômetros da costa da Nova Zelândia se encontra um dos ambientes mais insólitos e perigosos em que se pode pisar (ao menos neste planeta): a cratera de um vulcão marítimo ativo, o White Island. E bota ativo nisso: passaram-se menos de dois anos desde a última erupção, que não provocou grande impacto. Mas, em 1914, uma avalanche soterrou 10 trabalhadores de uma mina de enxofre hoje extinta.

– Dizem que só um gato chamado Peter sobreviveu – conta o piloto de helicóptero e guia de turismo Chris Hollands.

Foto: Rob Suisted, divulgação

Pode-se chegar ao local por barco ou helicóptero e caminhar pela cratera – na verdade, a ponta visível do vulcão, quase todo ele submerso – até a borda do lago fumegante. É como dar uma volta de duas horas em um outro mundo, enquanto se torce para o gigante não acordar de repente. Poças de lama borbulham de um lado, gases brancos brotam do chão de outro, e o tom amarelo-claro do enxofre está em toda parte. Por isso, como precaução, todo visitante usa capacete e leva uma máscara de gás. O único porém é o preço: a viagem de barco sai por cerca de R$ 400, e a de helicóptero, R$ 1,8 mil. Mas, acredite, é uma experiência única.

Prepare-se

A confirmação do passeio depende das condições climáticas. Leve protetor solar e água. Em períodos frios, leve roupa que proteja do vento.

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Cruzando o país de bicicleta

Há muitas maneiras de viajar pela Nova Zelândia, mas uma das mais incríveis é de bicicleta. Em 2009, os neozelandeses idealizaram uma rede de ciclovias, com diferentes níveis de dificuldade, que permitisse conhecer o país pedalando e vislumbrar cenários espetaculares que variam de mata fechada a costas litorâneas e montanhas. Hoje, há duas dezenas desses trajetos, ao longo dos quais empresas especializadas alugam bicicletas e, se o cliente desejar, até providenciam o transporte das bagagens nos casos de percursos de mais de um dia.

Foto: Miles Holden, divulgação

Percorri um trecho de 40 quilômetros em uma das primeiras ciclovias do projeto, chamada Otago Central Rail Trail e formada pelo leito de uma antiga ferrovia cujos trilhos foram arrancados. Com um total de 150 quilômetros, é um dos percursos mais fáceis e bonitos entre as duas dezenas de trilhas do país. Passa-se por antigos túneis e pontes de trem, cruza-se por vilarejos com pouco mais do que algumas dezenas de casas, hotel e, invariavelmente, uma “general store” que vende desde guloseimas locais até material de ferragem.

O ponto alto do percurso são mesmo os grandes cenários naturais. Na região central da ilha sul – que se parece com a paisagem dos Campos de Cima da Serra, só que rodeada por montanhas cobertas de neve – a vontade é largar a bicicleta a cada quilômetro para admirar o panorama.

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Prepare-se

Planeje a viagem com antecedência, reservando os hotéis ao longo do caminho se for pedalar por mais de um dia. Escolha uma trilha adequada a seu nível de experiência e condicionamento. Informações completas neste site.

Salto no berço do bungy jumping

O berço do bungy jumping comercial (neozelandeses escrevem “bungy”, em vez de “bungee”) não poderia ser em outro lugar do mundo além da Nova Zelândia.

A prática de pular amarrado em uma corda teria se originado séculos atrás como um ritual entre nativos da ilha de Vanuatu. Mas, nos anos 1980, os neozelandeses A.J Hackett e Henry van Asch tiveram a ideia de investir nessa aparente loucura.

Desenvolveram cordas elásticas resistentes, com auxílio de especialistas da Universidade de Auckland, e Hackett criou um plano ousado para divulgar o esporte: subiu na Torre Eiffel, em Paris, manteve-se escondido lá em cima durante a noite e saltou de surpresa pela manhã. A iniciativa ganhou repercussão internacional e permitiu que abrissem o primeiro ponto comercial de bungy jumping do mundo, na ponte de Kawarau, em Queenstown. Durante o verão, atualmente, o local atrai em média 200 pessoas por dia para saltar de uma altura de 43 metros.

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Foto: AJ Hackett Bungy New Zealand, divulgação

Mesmo para quem tem fobia de altura, como eu, a visita vale a pena para admirar os saltos ou passear pelo complexo que combina loja, café e deque de observação. Se quiser saber como é a sensação de pular no berço do bungy jumping mundial, por que não programar uma viagem à Nova Zelândia?

Prepare-se

Adultos pagam cerca de R$ 400 por salto. Idade mínima de 10 anos. Peso entre 35 kg e 235 kg. Pessoas com problemas de saúde devem avisar com antecedência para avaliação.

100 km/h sobre uma lâmina d’água

A região de Queenstown é uma das atrações preferenciais do país. A cidade em si é uma espécie de Gramado localizada à beira de um lago esverdeado (o Wakatipu) e circundada por montanhas que se cobrem de neve nos meses mais frios do ano. Serve de ponto de partida para uma série de atividades de aventura praticadas nas proximidades, desde esqui até salto de paraquedas. Outra grande opção é conhecer algumas das paisagens mais deslumbrantes da Nova Zelândia, como na cidade de Glenorchy, localizada a 45 minutos de Queenstown e ligada a ela por uma estrada considerada uma das “mais cênicas do mundo”.

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Não é por acaso que o cineasta Peter Jackson escolheu a região como cenário para a saga Senhor dos Anéis. Uma das maneiras mais interessantes de admirar a paisagem – à moda neozelandesa, claro – é fazer um passeio de lancha pelo Dart River. A dose de aventura é garantida pelo fato de o barco zunir a 100 km/h em pontos em que a água soma pouco mais de 10 centímetros de profundidade. Dá para sentir o fundo da lancha de metal batendo nas pedras do leito do rio. O piloto ainda garante uma dose extra de adrenalina fazendo ziguezagues e cavalos de pau enquanto você tenta se certificar de que ainda está dentro do barco.

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Prepare-se

Leve proteção contra o vento, principalmente fora do verão. No passeio de lancha, cuidado para não deixar cair câmera ou celular na água. Também é possível fazer trilhas a pé pela região. Nesse caso, leve água.

*O repórter viajou a convite do Departamento de Turismo da Nova Zelândia no Brasil

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