Pesquisadores identificaram artefatos arqueológicos escavados na Baía da Babitonga, no litoral de Santa Catarina, que podem representar a evidência mais antiga de caça organizada a baleias já encontrada. O estudo, feito por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, foi publicado pela revista científica Nature e compartilhado pela Science.

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Os objetos, que estão no acervo do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville (MASJ), eram até então catalogados como peças sem função clara. Após análises recentes, cientistas concluíram que parte desses artefatos, feitos a partir de ossos de baleia, são pontas de arpões de caça com cerca de 4.700 a 4.970 anos, o que os coloca entre os mais antigos já identificados no mundo.

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Até então, as evidências mais antigas desse tipo de prática vinham de sítios arqueológicos no Ártico e no Pacífico Norte, com registros entre 3.500 e 2.500 anos atrás. O achado em Santa Catarina sugere que a caça de baleias pode ter ocorrido milhares de anos antes e em latitudes mais baixas.

Arqueólogos, no entanto, já haviam encontrado ossos de baleia em sítios arqueológicos antigos da América do Sul, mas presumiam que os restos mortais vinham da exploração oportunista de baleias encalhadas ou carcaças trazidas pela maré.

— O consenso era de que os povos que viviam na costa brasileira simplesmente coletavam animais que encalhavam, porque ninguém jamais havia encontrado arpões de grande porte antes — afirmou o arqueólogo da Universidade Autônoma de Barcelona e coautor do estudo, André Carlo Colonese, à revista Science.

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Evidências que contestam essa versão surgiram dos sambaquis — grandes montes formados por conchas, ossos e restos de atividades humanas — comuns no litoral sul do Brasil. Além das pontas de arpão, os pesquisadores analisaram centenas de ossos de baleias e outros cetáceos.

De acordo com a Science, estudos de datação por radiocarbono e comparações com outras ferramentas indicam que os arpões foram usados por populações indígenas que viviam na costa brasileira no período pré-colonial para capturar grandes cetáceos.

O estudo ainda diz que a identificação dos artefatos como instrumentos de caça reforça a hipótese de que essas comunidades possuíam conhecimento técnico e organização social suficientes para capturar animais de grande porte, como baleias-francas-austrais e jubartes, há cerca de 5 mil anos.

Arpões “escondidos”

O estudo ainda aponta que, com o desenvolvimento da malha rodoviária nas décadas de 1940 e 1950, os construtores utilizaram os sambaquis da Baía de Babitonga como fonte de cal para o concreto. Isso fez com que os sambaquis fossem dissolvidos, até que um arqueólogo amador da região resgatou ossos e artefatos e doou ao MASJ.

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O material ficou armazenado por décadas até que três pesquisadores começaram a trabalhar para identificar as evidências.

— Os curadores foram até o fundo do depósito e trouxeram caixas empoeiradas com artefatos de osso de baleia dentro. No momento em tiraram que os objetos das caixas, eu disse: “Pessoal, isso são arpões” — conta André.

Conforme o estudo, a maioria dos ossos era de baleias-francas-austrais, uma espécie conhecida por se reproduzir e criar seus filhotes perto da costa durante os meses de inverno do Hemisfério Sul.

Para a revista Science, a descoberta contribui para redefinir a história e amplia a compreensão sobre a diversidade de práticas adotadas por grupos humanos antigos na exploração dos recursos marinhos.

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O estudo foi feito em parceria pelas pesquisadoras brasileiras Dione da Rocha Bandeira, Fernanda Mara Borba, Tatiane Andaluzia Kuss da Silveira Montes, Marta J. Cremer e Ana Paula Klahold Rosa; com os estrangeiros Krista McGrath, Thiago Fossile, Laura G. van der Sluis, Thomas Higham, Maria Saña e André Carlo Colonese.