Mesmo com picos de quase 3 mil metros de altura, o Brasil tem ou não tem montanhas? Até há pouco tempo, para uns tinha, para outros, não. A dúvida parece ter chegado a um fim. Depois de seis anos de debates, análises de mapas e levantamentos de campo, um grupo de geógrafos e geólogos coordenado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) chegou a um consenso: o Brasil tem, sim, montanhas, mostra a reportagem de Carlos Fioravanti, da Revista Pesquisa Fapesp.

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As brasileiras são geologicamente bem mais antigas do que as mais conhecidas, como o Himalaia e os Andes, e já bastante desgastadas pela erosão. Seu reconhecimento poderia incentivar o turismo, promover a conservação da biodiversidade e reforçar o alerta contra o risco de deslizamentos de terra em suas encostas íngremes.

Os especialistas responsáveis por essa reclassificação já divulgaram vários estudos regionais e o IBGE ainda deve publicar um mapa reunindo as montanhas do Brasil. Definidas como formas de relevo agrupadas com pelo menos 300 m de altura em relação às áreas vizinhas, com topos aguçados e encostas íngremes, elas despontam em 14 estados, de Roraima a Santa Catarina, da Paraíba a Mato Grosso. No Rio de Janeiro, ocupam um terço do território, embora as áreas maiores estejam na Bahia, em Minas Gerais e no Ceará.

Algumas são mais exibidas, como o Dedo de Deus, na região serrana do Rio de Janeiro, e extensas partes elevadas das serras do Mar, da Mantiqueira e do Espinhaço. Outras são menos pujantes, como as que abrigam os bairros do Alto da Boa Vista, na região da Grande Tijuca, zona norte da cidade do Rio de Janeiro e de Campo Grande, na zona oeste. Outras ainda, na Amazônia, estão cobertas por uma floresta impenetrável, diz ainda a publicação.

O que é uma montanha?

Não é só a altitude que define uma montanha. A forma conta muito. O monte Roraima, por exemplo, mesmo com 2.810 m, não é uma montanha; por ter um topo aplainado, é classificado como um planalto. O conceito, apoiado em critérios internacionais, também exclui morros isolados, como o Pão de Açúcar, também no Rio, com 396 m; o pico do Cabugi, com 590 m, no Rio Grande do Norte; ou o espigão da avenida Paulista, em São Paulo, com 13 km de comprimento e até 830 m de altitude.

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Como em Angra dos Reis e Paraty, no Rio de Janeiro, os municípios paulistas de Ubatuba e Santos, Ilhabela e ilha do Cardoso (pertencente ao município de Cananéia) abrangem largas faixas de montanhas, com as estreitas planícies costeiras a seus pés. Ilhabela e ilha do Cardoso são inteiramente formadas por montanhas, de acordo com a nova terminologia do Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR).

Ainda este ano, o IBGE deverá apresentar publicamente o mapa de relevo do país elaborado pelo SBCR, agora com as montanhas, como parte da comemoração de seus 90 anos de fundação. Será uma síntese dos estudos realizados nos últimos anos. A primeira parte da nova terminologia, com as cinco formas básicas de relevo, também chamadas de primeiro táxon, foi publicada em abril de 2023 na Revista Brasileira de Geografia. O segundo táxon, com uma visão essencialmente geológica, deve sair nos próximos meses e o terceiro, com descrições detalhadas de cada forma de relevo, em 2027.

Mapa do relevo

Esse movimento representa uma retomada de um conceito antigo.

— A ideia de que o Brasil tem montanhas, com registros de mais de 50 anos, se perdeu, porque se assumiu que no Brasil, como em outros países, elas se formariam apenas em áreas de orogênese ativa [regiões onde as forças internas da Terra continuam atuando para formar montanhas], como resultado da colisão de placas litosféricas [litosfera é a camada sólida mais superficial da Terra] — comenta a geógrafa do IBGE Rosangela Botelho, do Comitê Executivo Nacional do SBCR.

O engenheiro civil Luiz Flores de Moraes Rego (1896-1940), da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), tratou delas no livro Ensaio sobre as montanhas do Brasil e suas gênesis (Editora Revista do Clube Militar, 1931), apresentando-as como o resultado de processos geológicos muito antigos. O geógrafo Aziz Ab’Saber (1927-2012), também da USP, detalhou essa ideia, que se mostrou válida, no livro Formas de relevo (Funbec/Edart, 1975).

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— As montanhas jovens como os Andes, os Alpes e o Himalaia, que começaram a se formar entre 120 milhões e 50 milhões de anos atrás, estão associadas a áreas de convergência de placas — comenta o geólogo Celso Dal Ré Carneiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que participou da redefinição dos conceitos do relevo brasileiro.

— No caso do Brasil, as montanhas atuais se originaram de vários processos geológicos. Algumas delas são resquícios de cadeias montanhosas que existiram no território brasileiro, também formadas pela convergência de placas antigas — prossegue.

Como atualmente apenas as bordas da América do Sul sofrem a compressão de placas litosféricas, a hipótese mais aceita, segundo ele, é que as montanhas brasileiras resultam do soerguimento – a subida – da litosfera, provocado por forças que atuam no manto terrestre.

— Há 480 milhões de anos, o Brasil tinha cadeias tão altas quanto o Himalaia, que hoje atinge mais de 8 mil m, mas se desgastaram com o tempo e a erosão — diz Carneiro. Uma delas se alongava por quase 1.500 km, do sul do atual estado do Tocantins ao sul de Minas Gerais.

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Não é apenas o desgaste. Há também o deslocamento das montanhas. Carneiro e o geólogo Fernando Almeida (1916-2013) concluíram que, há 70 milhões de anos, houve uma intensa movimentação vertical de grandes blocos da crosta na região da serra do Mar.

— Foi mais ou menos como se cortássemos um pão comprido em fatias e as deslocássemos, umas para cima, outras para baixo. Esse processo, cujas causas ainda são desconhecidas, formou um grande protoplanalto que era muito mais extenso do que os atuais planaltos Paulistano e de Paraibuna. Desde então, a erosão incessante continua a provocar o recuo das escarpas da grande serra — explica Carneiro.

Segundo ele, a serra do Mar deve ter se formado sobre uma grande falha geológica conhecida como Falha de Santos, que passa aproximadamente pelo meio da grande ilha de São Sebastião, a 50 km a leste da atual posição da serra, como detalhado em um artigo de junho de 1998 na Revista Brasileira de Geociências. Pesquisas mais recentes, com base na análise do desgaste de rochas, indicam que as escarpas da serra do Mar se deslocam para oeste a uma velocidade de 1 centímetro a cada 100 anos, em consequência da erosão.

O debate sobre as montanhas despontou durante um congresso de geografia física realizado em junho de 2019 em Fortaleza, Ceará. Em uma das mesas-redondas, em que se discutiam as novas tecnologias de mapeamento do relevo, Botelho, da plateia, pediu a palavra e, sem grandes pretensões, comentou:

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— Estamos discutindo o mapeamento automático, mas antes precisaríamos criar um sistema de classificação de relevo, parecido com os que já existem para o solo e os seres vivos. A nomenclatura ainda tem muitas divergências —.

O comentário agitou o auditório lotado. Por fim, os participantes concordaram em formar uma comissão para implementar uma metodologia de classificação do relevo brasileiro, sob a coordenação do IBGE, em colaboração com especialistas do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM), da União da Geomorfologia Brasileira (UGB) e de universidades. Na primeira reunião, três meses depois, formaram nove grupos de trabalho, cujos participantes deveriam rever os termos e conceitos do relevo. Cerca de 70 geógrafos e geólogos participam desse trabalho.

Foi assim que, no primeiro nível de classificação, o termo depressão, usado para designar relevos planos com inclinação suave, que cobriam 60% do território nacional, foi considerado impreciso e substituído por superfícies rebaixadas, que designam terrenos mais baixos que os vizinhos.

— Toda depressão é uma superfície rebaixada, mas nem toda superfície rebaixada é depressão —, diz Botelho. Os conceitos de planalto, tabuleiros e planície, os outros três dos cinco termos básicos do primeiro nível da classificação do relevo, não sofreram modificações.

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