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    O calvário de buscar os mortos por coronavírus em Guayaquil, no Equador 

    O caos hospitalar e funerário causado pela pandemia levou muitos corpos a passarem dias nas casas até serem removidos

    17/04/2020 - 09h42

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    AFP
    Por AFP
    Dos 8 mil casos no país, 70% estão concentrados na província de Guayas e em sua capital, Guayaquil
    Dos 8 mil casos no país, 70% estão concentrados na província de Guayas e em sua capital, Guayaquil
    (Foto: )

    Darwin Castillo perdeu o pai em meio à crise do coronavírus em Guayaquil, epicentro da epidemia no Equador. Ele foi recuperar o corpo em um necrotério lotado, mas, quando abriu a capa mortuária, percebeu que não era seu familiar.

    Pouco mais de duas semanas se passaram, e ele ainda não sabe onde está o corpo do pai. Castillo, de 31 anos e que trabalha em uma fábrica de produtos plásticos, acabou devolvendo o caixão à funerária.

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    "Não culpo o hospital ou o necrotério. Havia pessoas morrendo na entrada. Gostaria que meu pai aparecesse para realizar um enterro cristão, para dar flores ao meu velho", disse o homem à AFP.

    A frustração anda de mãos dadas com a tristeza. O pai de Castillo, Manuel, tinha 76 anos, fazia diálise e sofreu uma obstrução de um cateter, o que acabou por matá-lo em 31 de março.

    O filho foi procurar o corpo dois dias depois no necrotério do hospital Los Ceibos, o maior de Guayaquil e destinado a pacientes com coronavírus.

    Oficialmente, a COVID-19 já matou mais de 400 pessoas no Equador. Dos 8 mil casos, 70% estão concentrados na província de Guayas e em sua capital, Guayaquil.

    Castillo confessa que subornou um dos funcionários do necrotério com 150 dólares para recuperar o corpo, em meio aos 170 que, segundo o que foi informado, estavam no local.

    O colapso é tal, acrescenta ele, que as autoridades instalaram um contêiner refrigerado para preservar outros 46 cadáveres. Castillo recebeu o corpo e, então, encontrou outra pessoa - "um homem de bigode e com roupas diferentes".

    "O homem ainda tinha a pulseira do hospital que dizia Rodríguez", relata.

    Os funcionários então deram a ele a oportunidade de procurar entre os mortos, incluindo as vítimas da COVID-19.

    "Se não houvesse esse problema, procuraria morto por morto pelo meu pai", disse Castillo, que desistiu da busca, devido ao medo de contágio.

    Corpos extraviados

    O caos hospitalar e funerário causado pela pandemia, agravado pelo toque de recolher imposto pelas autoridades para impedir a propagação, levou muitos corpos a passarem dias nas casas até serem removidos.

    O governo equatoriano, que nas últimas semanas removeu quase 1.400 cadáveres de casas e hospitais em Guayaquil, informa através de um site onde os corpos foram enterrados. Dois cemitérios foram ampliados para esse fim.

    Castillo inseriu os dados do pai, mas ainda não o encontrou.

    Como o seu, existem mais casos. Um grupo está se organizando para apresentar uma ação contra o Estado.

    "Não é possível compreender os serviços funerários que não entregam os corpos, os perdem, ou fazem trocas", disse à AFP o advogado que os representava e vereador de Guayaquil, Héctor Vanegas.

    "A família tem o direito de saber o destino de seus parentes mortos. Os familiares dizem que os mortos chegam com identidades trocadas, ou chegam homens quando são mulheres", acrescentou o advogado.

    Vanegas está preparando uma lista das pessoas afetadas e já recebeu 190 telefonemas.

    Moisés Valle, de 37 anos, funcionário de uma empresa farmacêutica, também perdeu o pai. Ele morreu de ataque cardíaco no hospital Teodoro Maldonado Carbo.

    Quando preparava os trâmites para recuperar o corpo, soube que ele havia sido enviado para o contêiner de outro sanatório sem sua autorização.

    "A partir desse dia, o calvário começou, porque eu não conseguia retirar o corpo. Até ontem, o nome do meu pai não aparecia no site", disse Valle à AFP.

    Ele adquiriu um túmulo na cidade vizinha de Durán e tinha tudo pronto para o enterro. Precisou cancelar o serviço e agora prepara uma ação judicial.

    Dayana, que prefere omitir seu sobrenome por medo de retaliação, trabalha em uma funerária. Os últimos dias de março foram árduos e traumáticos.

    "Chegava morta em casa, chorando por tudo que via, cadáveres apodrecendo, com vermes", descreve.

    Toda vez que ia aos hospitais, levava quatro caixões. Mas eram insuficientes. Os pedidos de ajuda ainda estão em sua memória.

    "Preciso de um psicólogo e preciso urgentemente, depois de ver tanta tragédia", comenta.

    Dayana, de 29 anos, relata que "havia muitos corpos NN (nome desconhecido)" e que, nos necrotérios, mudavam as etiquetas de identificação e entregavam corpos sem a respectiva ata assinada.

    Tudo isso contribui para que, agora, os parentes sintam o vazio de não saber onde estão seus mortos.

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