Caminhar pelos 7,5 quilômetros de extensão do Caminho da Costa da Lagoa, em Florianópolis, é como adentrar em um outro mundo. O trajeto começa no Canto dos Araçás onde fica a última área em que é possível chegar de carro, que também conta com um ponto de ônibus e serve de espaço de saída para os barcos dos diversos restaurantes da Costa. Além disso, é conhecido como o ponto 3, principalmente para quem começou o trajeto por meio de uma embarcação, no terminal lacustre da Lagoa da Conceição.
Continua depois da publicidade
Ao seguir pelo caminho, o calçamento logo dá lugar a estrada de chão e as casas vão ficando cada vez mais distantes umas das outras. O som da cidade fica para trás e a natureza predomina, com uma vegetação alta de sombra refrescante para a caminhada e “janelas” naturais para a lagoa.
Ao todo são 23 pontos de parada de barcos, sendo que os restaurantes que atraem visitantes para a comunidade se concentram entre os 13 e 21. No ponto 8 fica localizado o antigo Engenho de Farinha, enquanto no 11 está o Casarão da Dona Lóquinha, locais históricos que também atraem turistas. Já no 16 está a Escola Básica Municipal (EBM) Costa da Lagoa, onde também fica o Centro de Saúde Costa da Lagoa e a Cachoeira da Costa da Lagoa.
Caminho apresenta as riquezas da flora e fauna da região
A trilha se transforma no decorrer do trajeto, com momentos de imersão total na mata, passagem por cursos d’água e até o aparecimento de alguns “moradores”, como macacos e diferentes aves. O geógrafo do Departamento de Unidades de Conservação da Fundação Municipal de Meio Ambiente de Florianópolis (DEPUC/FLORAM), Aracídio de Freitas Barbosa Neto, o Cid, conta que os macacos são os animais mais característicos daquela área.
— Já tem décadas que o macaco prego está bem estabelecido naquela região. Em 2024 teve a soltura dos bugios, e a princípio estão bem, perambulando pela região — afirma o geógrafo.
Continua depois da publicidade
Animais e espécies da região
A flora é marcada pelo garapuvu, árvore considerada símbolo da comunidade. Suas flores colorem de amarelo a paisagem entre os meses de outubro e dezembro, e marcam a transição da primavera para o verão. Do barco que conecta moradores e turistas da Lagoa até a Costa, é possível ver a espécie como pontos de luz no manto verde do Morro da Costa da Lagoa.
— Penso que o Garapuvu é um grande símbolo, já que a agricultura foi praticamente 100% abandonada nas encostas e a mata secundária já está com estrutura arbórea forte, onde o garapuvu domina. Mas ainda tem fragmentos da mata onde se encontra espécies hoje raras, como cedro, peroba, figueiras e até mesmo canela preta — detalha Cid.
O trajeto até a comunidade “isolada”
Em outras partes da trilha, a caminhada ganha casas coloridas ao redor e segue por um caminho de concreto. O trajeto se soma a curiosidade de como vivem esses moradores, rodeados pela natureza e pela Lagoa, distantes da agitação da capital catarinense, com acesso limitado, feito apenas pela trilha ou barcos.
Continua depois da publicidade
São cerca de 2h30min para percorrer toda a extensão da trilha, que tem acessibilidade limitada. O grau de dificuldade é classificado pela Floram em quatro critérios, em uma escala de 1 a 5, sendo:
- Severidade do meio: 1
- Condições de terreno: 3
- Orientação do percurso: 2
- Intensidade de esforço: 2
Saiba quais são as recomendações para quem realiza a trilha
- Mantenha-se sempre nas trilhas;
- Use calçados adequados, como tênis ou botas;
- Prefira roupas leves e confortáveis;
- Utilize chapéu ou boné;
- Leve água, repelente e protetor solar;
- Procure não caminhar sozinho;
- Mantenha silêncio durante a caminhada;
- Evite ingerir bebidas alcoólicas;
- Leve sacos para retornar com seu lixo;
- Tenha cuidado nos locais de descanso com animais peçonhentos;
- Atenção ao caminhar em pedras escorregadias nas trilhas, cachoeiras e costões;
- Seja cortês com outros visitantes e com a população local.
Preservação da área
O Caminho da Costa da Lagoa é tombado desde 1986 como patrimônio histórico, artístico e cultural de Florianópolis através do decreto 247/86. O documento prevê o tombamento do trecho que se inicia no Canto dos Araçás e segue até o limite do Parque Florestal do Rio Vermelho, no Morro do Saquinho. Além do próprio caminho, a vegetação e as edificações de interesse histórico e artístico da região também estão contemplados no decreto.
— O tombamento não é semelhante à Unidade de Conservação (UC) nos aspectos legais. A UC tem mais dispositivos e instrumentos para aplicação, como conselho gestor e plano de manejo. Por isso, o REVIS Meiembipe chegou em 2021 para reforçar a proteção — explica o geógrafo da Floram, Cid.
Continua depois da publicidade
Considerada a maior unidade de conservação do município de Florianópolis, o Refúgio de Vida Silvestre Municipal Meiembipe (REVIS Meiembipe) foi criado em 2021 e possui uma área de 5.972,55 hectares, distribuídos em nove glebas (ou seções) que abrangem aproximadamente 12% do território municipal.
A Costa da Lagoa é vista como uma área de grande relevância ecológica, social e histórica para a Unidade de Conservação. Inclusive, o Morro da Costa da Lagoa, com 493 metros de altura, o segundo ponto mais alto da Capital, se destaca. A cachoeira também é considerada um dos recursos hídricos e atrativos turísticos mais importantes da unidade. A presença de engenhos, ruínas e casarões ao longo do caminho, somada ao turismo sustentável realizado na região, reforçam a importância da sua preservação.
Também há desafios no manejo dessas áreas, como a presença de espécies invasoras, especialmente o Pinus na região norte da Costa da Lagoa, e o conflito entre a preservação dessa comunidade tradicional e a abertura para o turismo, sem que ele cresça de forma desordenada. Recentemente, obras de revitalização do caminho histórico, que cimentaram trechos do trecho tombado sem considerar o decreto existente, geraram reclamações por parte dos moradores.
— A Costa, devido ao acesso restrito por trilhas, pela tradição náutica e de pesca e posteriormente pela forma como se deu a atividade turística — com os restaurantes na maioria de propriedade de famílias locais e o arranjo das cooperativas de embarcações que operam com exclusividade no âmbito público —, prefere manter sem acesso de veículos, pois o controle do produto turístico está na mão da comunidade — pontua Cid.
Continua depois da publicidade
Outras duas trilhas menos utilizadas dão acesso à comunidade da Costa da Lagoa a partir do bairro Ratones, no Norte da Ilha. A primeira delas é pelo Canto do Moreira, com início a partir da Estrada Bento Manoel Ferreira, mais sinalizada e conhecida. Já a segunda, ainda pouco utilizada, é pelo Canto da Cachoeira, que leva até a praia do Saquinho, localizada na parte mais ao norte da Lagoa da Conceição.
Fotos revelam cotidiano da Costa da Lagoa, em Florianópolis
Costa da Lagoa: uma joia escondida na Ilha da Magia
O especial “Costa da Lagoa: uma joia escondida na Ilha da Magia” retrata como é viver na comunidade de Florianópolis onde só é possível acessá-la por meio de trilha ou barco. Em uma série com seis reportagens, o leitor poderá conhecer histórias, as curiosidades, a biodiversidade e a rotina de quem vive no canto mais isolado da capital catarinense.










































