Em 1991 surgia um dos parques temáticos mais conhecidos do Brasil — e que, mais tarde, ainda seria eleito um dos melhores do mundo. Só que, o que muitos não sabem, é que, a partir daquele mesmo ano, uma família viraria protagonista de outra história que acontecia em paralelo ao sucesso do Beto Carrero, em Penha. Por trás da manutenção dos brinquedos que encantavam crianças e adultos, pai e dois filhos descobriam uma vocação em comum e que uniria a trajetória dos três pelas próximas duas décadas.

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Quando tinha 33 anos de idade, Valmor Herkenhoff recebia o convite do próprio fundador do parque para trabalhar na área elétrica do espaço. O local ainda não havia sido inaugurado, mas o homem nem sequer pensou em recusar um pedido como aquele.

Porém, de todas as surpresas possíveis que a nova etapa reservaria para o blumenauense, ele não imaginava que seria ali, no Beto Carrero, que dividiria com os dois filhos os desafios da profissão que escolheu para si. Pouco tempo depois, Dirceu Herkenhoff — que, à época, tinha 18 anos — e Jackson Herkenhoff, de 22, foram contratados para trabalhar no mesmo lugar que o pai.

— Eu já tinha interesse no ramo da elétrica por conta do meu avô, porque ele já trabalhava na área também. Ele inclusive fazia as instalações lá na Oktoberfest. Então isso veio do “vô”, foi para o pai e agora está no filho — conta Jackson.

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O homem, que é o filho mais novo de seu Valmor, começou a atuar no Beto Carrero em 2006 e hoje, aos 38 anos, é líder de manutenção elétrica no local. Antes dele, no entanto, Dirceu já tinha decidido embarcar na aventura e compartilhar da mesma profissão com o pai. Assim, em 2002, ele conseguiu entrar, também, para o universo mágico do parque.

Atualmente, com 40 anos, o homem que, há duas décadas atrás recebeu treinamento do próprio pai para trabalhar no local, ganhou um cargo de liderança e se tornou gerente de engenharia de manutenção no Beto Carrero.

— Eu diria que já é uma vocação familiar. Meu avô trabalha na área, meu tio, meu pai, meu irmão. Então todo mundo acabou indo para esse lado — explica Dirceu.

O único “ponto fora da curva” seria o filho mais velho de seu Valmor, Dionei Herkenhoff, que optou por atuar em uma empresa de desenvolvimento de software, em Blumenau. Os irmãos, porém, brincam ao mencionar que ele ficou pela “vizinhança” da área técnica e, de certo modo, seguiu um caminho parecido ao restante da família.

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Valmor e os filhos atuam juntos no Beto Carrero (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Unidos por uma mesma paixão

Não foi uma coincidência pai e os dois filhos pararem no mesmo parque durante a vida adulta. A história dos três, ainda que através de perspectivas diferentes, tem um fator em comum: o encanto pelos brinquedos.

Jackson, por exemplo, relembra que, desde criança, tentava consertar os próprios objetos. A partir disso, surgiu o interesse em se especializar na manutenção de equipamentos mais complexos e, em 2006, passou a arrumar “brinquedos maiores” ao encontrar no Beto Carrero uma possibilidade para o talento que desenvolveu na infância.

Dirceu, por outro lado, destaca as recordações da época em que visitava o parque quando ainda era um menino. O encanto pelos brinquedos e a rotina em meio às famílias que se divertiam no espaço despertou em mais um filho de seu Valmor a vontade de trabalhar naquele ramo.

— A gente teve contato com o Beto Carrero desde criança já que meu pai trabalhava aqui. Então, a gente vivia entrando aqui no parque. E desde aquele tempo ficou aquele interesse por ser algo divertido — conta Dirceu.

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Não dá para negar, no entanto, que a experiência de seu Valmor, que também já atuava na área, inspirou os dois filhos. Assim como ocorreu na juventude dele.

Isso porque o homem não foi o primeiro da família a entrar no setor, já que o pai de Valmor — avô de Dirceu e Jackson — tinha a própria empresa de instalações elétricas. Na época, os dois também trabalhavam juntos, mas foi com a manutenção de brinquedos da Oktoberfest, em Blumenau, que seu Valmor se interessou pelo conserto desse tipo de equipamento.

E, hoje, a história se repete.

— Eu sigo o exemplo do meu pai. Porque onde eu trabalhava, eu também era mais cobrado que os demais — lembra seu Valmor.

Valmor é gerente enquanto o filho Dirceu virou chefe do próprio irmão (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

A relação entre pai e filhos no trabalho

Com 64 anos, seu Valmor é, atualmente, gerente de controle operacional. Ele trabalha na mesma sala do filho Dirceu, que virou chefe do próprio irmão, Jackson. A convivência constante entre a pai e filhos colocou à prova a relação dos três, que precisaram aprender a lidar com as diferenças no ambiente de trabalho e com os comentários alheios.

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— Se eu falar que não interfere em nada, vou estar mentindo. Só que a maioria das pessoas pensa que a gente passa a mão na cabeça por ser da família. Mas é o contrário. Vou exigir dele [o irmão] mais do que os outros, porque ele tem que ser exemplo. E isso eu aprendi com o seu Valmor — conta Dirceu.

Um ensinamento que foi passado de geração para geração, já que Valmor viveu experiência semelhante com o pai, que também era rigoroso durante o expediente. Só que a tarefa de liderar os próprios filhos no início da carreira, no entanto, não foi fácil.

Seu Valmor lembra que precisou encontrar uma forma de ignorar o parentesco e reforçar para os demais que Dirceu e Jackson não eram favorecidos por causa do pai. Assim, ele cobrava serviços mais complexos dos filhos, que, muitas vezes, não sabiam lidar com os “puxões de orelha” no trabalho — especialmente quando eram mais jovens.

— Em diversas situações o Dirceu ficava chateado comigo por causa de um trabalho que eu passava, mas depois ficava tudo bem — relembra Valmor.

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— Hoje eu vejo que ele foi sábio em tudo que fez — complementa logo em seguida o filho, Dirceu.

Os ensinamentos e o legado para as próximas gerações

Os anos passaram e, apesar das dificuldades enfrentadas, pai e os dois filhos permaneceram no Beto Carrero, juntos. Os três moram em Penha e mantêm a mesma relação de parceria que seu Valmor sempre fez questão de sustentar.

Para o homem de 64 anos, no entanto, não existe segredo ou uma “receita pronta” para educar um filho. Há apenas um detalhe que é indispensável, segundo ele.

— Pra mim, o mais importante é você ser o melhor amigo dos seus filhos. Os teus filhos precisam se sentir bem em casa. Você não pode deixar que eles pensem que lá fora é melhor. Eles precisam querer voltar para casa, estar com os pais — enfatiza.

Hoje, os filhos compartilham do mesmo sentimento de gratidão pelo pai. Dirceu, por exemplo, atribui o mérito de ter alcançado uma carreira de sucesso ao patriarca da família, enquanto Jackson nem sequer consegue separar um único adjetivo para descrever seu Valmor.

O amor e cuidado com os três meninos rendeu um legado que, hoje, Dirceu compartilha com as duas filhas, de 1 e 3 anos de idade. O filho do meio ainda não sabe se as meninas darão continuidade à “dinastia”, mas já percebe que, assim como o restante da família, as crianças já criaram um carinho pelo parque que guarda tanta história em meio à manutenção dos brinquedos.

— Eu sempre falo que eu não estaria aqui se não fosse o apoio do meu pai. Com certeza não. E eu espero desenvolver esse mesmo papel com as minhas filhas. De ser um exemplo, uma referência e fazer o melhor que eu posso. Para que elas também possam ter orgulho de mim. Porque a paternidade faz isso. A gente vira um exemplo concreto, todos os dias, para os nossos filhos — finaliza Dirceu.

Um papel que seu Valmor certamente cumpriu com maestria durante todos esses anos.

*Sob supervisão de Augusto Ittner

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