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Pescadeiras

"O farol é uma bênção para os pescadores", diz Vera Laureano, de Laguna

Nos tempos de menina, Vera dividia o tempo entre o rancho de pescador, na praia, auxiliando o pai; e subindo o morro para ajudar o avô a dar corda para que o Farol de Santa Marta pudesse ser visto pelos navegantes

10/09/2019 - 12h20

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Por Ângela Bastos
O Farol de Santa Marta, olho rubro que na escuridão da noite pisca como aviso aos navegantes, tem de Vera, 58 aos, um afeto que não se apaga
O Farol de Santa Marta, olho rubro que na escuridão da noite pisca como aviso aos navegantes, tem de Vera, 58 aos, um afeto que não se apaga
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Dependesse de Vera Lucia Bernardo Laureano, 58 anos, ela moraria no Farol de Santa Marta, em Laguna. O olho rubro, que na escuridão da noite pisca como aviso aos navegantes, tem dela um afeto que não se apaga. Sentimento nascido nos tempos de infância, época em que subia correndo o morro onde está assentada a edificação para ajudar o avô, um já cansado servidor da Marinha do Brasil, a dar-lhe corda. Era assim, sem luz elétrica ou baterias, que no passado se acendia a lâmpada que se tornara visível a 35 quilômetros a olho nu e, com equipamento, a 90 quilômetros.

— O farol é uma bênção para os pescadores — diz Vera , enquanto com a tarrafa na mão caminha sobre as pedras dos molhes da Praia do Cardoso, a principal do lugarejo.

Passos lentos, rosto ao vento, olhos fixos no movimento da água. Vera é íntima da região. Teve um avô faroleiro e outro pescador, profissão também do pai e do falecido marido. Natural a identidade com as coisas do mar, e que diga ser pescadora desde sempre.

Era uma correria para mim: eu passava o dia no rancho de praia com meu pai ajudando com café, comida e mexer nas redes; à tardinha, corria para o farol.

Na época, explica, a relação dos nativos com a lanterna no topo do morro era diferente. Havia mais proximidade, pois o lugar não era cercado e o acesso fazia parte da vida dos moradores:

— Hoje dá para ver o tempo (previsão) até no celular, mas antes não. O pescador subia até lá em cima, já que a Marinha passava um rádio informando o faroleiro, e daí eles ficavam em terra ou saíam mar à dentro.

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Cupido, sonhos e luz

O farol serviu de cupido dessa paixão pelo mar:

— Lá de cima eu olhava para o mar e sonhava em sair para pescar, em ir atrás do peixe.

A inconstância das ondas levou os planos. Vieram os filhos e ela teve que cuidar das crianças. As saídas para o mar grosso, como diz, ficaram com o marido. Mas, como num reencontro com a menina de ontem, a aposentada de hoje levanta cedo para ir à praia ver a movimentação dos barcos. Quando algum pescador falta, Vera faz o que mais gosta e os acompanha ao mar. Nem que seja para fazer comida.

— É uma maravilha! É a coisa mais linda quando dão aqueles lanços, e a gente vê aqueles peixes pulando, parece que está sonhando.

Tem vezes que isso acontece à noite, enquanto dorme:

Eu chego a sonhar que estou junto com os peixes, que estou cercando. Aí, quando me acordo, digo às minhas filhas: coisa linda é o cerco!
Para Vera, além de belo, o mar tem poder terapêutico
Para Vera, além de belo, o mar tem poder terapêutico
(Foto: )

Vera conta que sente necessidade desse contato.

— Eu gosto de estar com a mão na rede, na caixa de peixe, no peixe.

Para ela, o mar tem poder curativo:

Se a gente ficar dentro de casa, dá uma depressão. O mar não dá depressão, ele leva os pensamentos ruins, a tristeza, leva tudo.

Quando lhe é perguntado o espaço que o mar tem em sua vida, Vera responde:

— O mar? O mar é a minha vida.

E o farol, o olho rubro que pisca no Cabo de Santa Marta?

— O farol? É luz na minha e na vida de todos os pescadores.

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