A transição de comando é inevitável e desafiadora para as empresas familiares. Em Santa Catarina, a realidade impacta desde agroindústrias tradicionais a potências metalmecânicas e tecnológicas. No entanto, estatísticas de mercado revelam que a maioria das sucessões falha não por falta de candidatos competentes, mas por falta de estrutura.

Continua depois da publicidade

Quando a escolha do novo líder depende exclusivamente de laços afetivos, acordos informais ou somente da vontade do fundador, o processo torna-se imprevisível para todos os envolvidos. A ausência de parâmetros claros gera insegurança tanto entre os herdeiros quanto no corpo de executivos, colaboradores e parceiros que dependem diretamente da estabilidade e da continuidade do negócio.

Para mitigar essas vulnerabilidades, o mercado passou a exigir profissionalização, consolidando os instrumentos de governança corporativa, aliados a programas de compliance e integridade, como pilares indispensáveis que possibilitam transformar o momento de uma potencial crise em um processo técnico, transparente e previsível.

Governança na sucessão familiar. Por que? 

A sucessão expõe a empresa familiar a divergências societárias, expectativas conflitantes de herdeiros e riscos de descontinuidade operacional. Sem uma estrutura de governança bem definida, a organização fica dependente de alinhamentos informais e da autoridade do fundador para manter a coesão. 

Essa dinâmica pode funcionar enquanto o líder estiver presente e ativo na operação, mas, no momento em que ele se afasta, a fragilidade do modelo informal se revela. A governança corporativa não tem o poder de eliminar os conflitos inerentes às relações familiares, mas atua criando canais e instâncias formais para que essas questões sejam debatidas de maneira profissional. 

Continua depois da publicidade

Para facilitar esse processo, o Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) recomenda para empresas de controle familiar adotar a iniciativa de instituir um Conselho de Família. O órgão opera de forma independente e é dedicado a tratar dos interesses dos familiares separadamente das decisões diárias da organização.

Separando família e empresa

A confusão entre interesses familiares e empresariais gera litígios. Por possuírem dinâmicas distintas, essas esferas exigem estruturas separadas.

O Conselho de Administração protege a perenidade do negócio. Suas decisões devem ser estritamente orientadas pelo melhor interesse da organização no longo prazo, de forma independente de quem propôs as medidas ou de quais membros familiares estejam envolvidos.

Já o Conselho de Família tem o papel de alinhar as expectativas dos parentes em relação ao negócio, definir regras claras para a entrada de herdeiros na gestão, gerenciar a transmissão de patrimônio e planejar a sucessão com a devida antecedência. Quando essas duas instâncias se confundem, as decisões de mercado passam a sofrer influência de questões emocionais, e as disputas corporativas passam a desgastar os laços familiares, gerando prejuízos para ambos os lados.

Continua depois da publicidade

Critérios objetivos para a escolha da liderança

A escolha de quem assumirá a presidência ou os cargos diretivos da empresa deve se afastar do caráter hereditário. A indicação precisa ser fundamentada em critérios objetivos de mérito e competência técnica, estabelecidos previamente e aplicados com total consistência.

Esses parâmetros devem incluir formação acadêmica compatível, experiência profissional prévia dentro e fora da empresa familiar, alinhamento com a cultura e os valores organizacionais, e capacidade de liderança atestada por avaliações estruturadas. Para assegurar a idoneidade dessa seleção, o processo deve contar com o suporte ativo de conselheiros independentes no Conselho de Administração. A presença desses membros externos é uma das medidas mais eficazes para a integridade da transição, pois eles avaliam os candidatos sem o viés emocional ou afetivo que os familiares naturalmente carregam.

Para o especialista em governança e CEO da GEP Compliance, Bruno Basso, ferramentas como o Conselho de Família, os protocolos familiares e os acordos de acionistas ajudam a criar uma separação entre propriedade, família e gestão.

— A sucessão costuma falhar quando não há clareza sobre os papéis de cada pessoa após a transição. O fundador deixa de ser o responsável pela operação do dia a dia e passa a adotar um papel mais estratégico, contribuindo com sua experiência, visão de longo prazo e preservação dos valores do negócio — pontua.

Continua depois da publicidade

O papel do compliance e da integridade no processo

A dimensão do compliance e da integridade corporativa deve permear o planejamento sucessório antes mesmo da decisão final, refletindo na transparência dos critérios adotados, na eliminação de favorecimentos arbitrários, na documentação detalhada de cada etapa e nos mecanismos de prestação de contas perante os sócios e acionistas.

Uma transição conduzida sem as formalidades cria sérias exposições jurídicas e reputacionais, possibilitando a contestação legal das decisões que descumpram as regras previstas no estatuto social por parte dos sócios minoritários ou o questionamento judicial dos processos que não seguiram os ritos formais por parte de herdeiros preteridos. 

— Com as regras formalizadas e os espaços de decisão bem definidos, a sucessão deixa de ser uma disputa por poder e passa a ser um processo estruturado de continuidade empresarial — afirma o executivo.

Diretrizes nacionais de integridade – amparadas pela Lei Anticorrupção e normas ISO 37001 (antissuborno) e ISO 37301 (compliance) – devem guiar todo o rito sucessório. 

Continua depois da publicidade

Como iniciar um planejamento sucessório?

O planejamento sucessório não é uma tarefa para a aposentadoria do fundador. É uma obrigação do Conselho de Administração, que deve liderar quatro passos essenciais, segundo o IBGC:

  • Diagnóstico de maturidade: avalia se o estatuto social atual contempla regras para a participação de herdeiros e se os critérios de liderança estão documentados;
  • Fortalecimento do conselho: integra conselheiros independentes ao comitê de administração para garantir imparcialidade nas decisões;
  • Formalização jurídica: documentação de cada etapa, registrando em atas as deliberações e os critérios de seleção utilizados, conferindo legitimidade formal ao sucessor;
  • Integração ao compliance: alinhamento do rito de transição às regras do programa de integridade da empresa para mitigar riscos de fraudes ou favorecimentos.

Essa preparação demonstra maturidade de gestão para bancos e investidores, que analisam o risco de concentração de liderança antes de firmar parcerias de longo prazo.

Para Bruno Basso, o principal erro é confiar em acordos verbais.

— Muitas empresas familiares possuem decisões importantes baseadas apenas na palavra dos fundadores, sem a documentação adequada sobre participação societária, critérios de sucessão, distribuição de resultados ou ingresso de familiares na gestão — declara.

Continua depois da publicidade

Isso abre brechas para contestações jurídicas e, quando ocorre o processo sucessório, essas lacunas acabam gerando interpretações divergentes e conflitos entre herdeiros. 

— A governança e o compliance atuam justamente para reduzir essa insegurança jurídica, transformando acordos tácitos em regras claras, documentadas e conhecidas por todos os envolvidos — conclui o especialista.

Investir em uma transição técnica e transparente constrói a base institucional necessária para o negócio prosperar entre as gerações com a previsibilidade exigida pelo mercado.

Descubra como a governança e o compliance podem fortalecer a sucessão na sua empresa. Acesse o site da GEP Compliance e confira mais conteúdos sobre o tema.

Continua depois da publicidade