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    Violência doméstica

    "O homem e a mulher são educados dentro da cultura machista", diz Maria da Penha 

    Ativista que sobreviveu a duas tentativas de homicídio praticadas pelo ex-marido participa de palestra em Florianópolis

    30/01/2019 - 11h14 - Atualizada em: 31/01/2019 - 10h43

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    Redação
    Por Redação DC
    Maria da Penha
    Maria da Penha dá nome à lei que tornou mais rigorosa a punição para quem pratica violência doméstica
    (Foto: )

    Maria da Penha Fernandes, 73 anos, é uma sobrevivente de duas tentativas de homicídio. Ela foi vítima de violência doméstica praticada pelo ex-marido por anos. Em uma das ocasiões, na década de 1980, o homem a atingiu com um tiro nas costas. Maria da Penha ficou tetraplégica.

    Feminicídio ainda não era um crime previsto na legislação brasileira. Hoje, a biofarmacêutica se dedica a lutar pelo direito das mulheres. Ela dá nome à lei que tornou mais rigorosa a punição para quem pratica violência doméstica, aprovada em 2006.

    Maria da Penha está em Florianópolis, onde participa da campanha "Diga não à violência à Mulher, menor ódio mais amor", promovida pela Associação Catarinense das Indústrias de Água Mineral. Ela dará uma palestra na Fiesc nesta quarta-feira, às 14h30min.

    Em entrevista à repórter Mayara Vieira, no Bom Dia Santa Catarina da NSC TV, Maria da Penha falou sobre violência doméstica, feminicídio e a cultura do machismo.

    A Defensoria Pública de Santa Catarina acredita que, com a flexibilização das armas, o número de feminicídios deve aumentar. Você concorda?

    Concordo. Acredito nessa crença, sim. Eu mesmo fui vítima de arma de fogo. É preocupante para nós, mulheres, e os homens de bem da nossa sociedade a posse de arma. A maioria das mulheres é assassinada dentro da sua própria casa por quem deveria protegê-las.

    Seu ex-marido tentou assassiná-la por duas vezes. Ele só foi preso quase 20 anos depois, com o crime perto de prescrever. A condenação foi de 10 anos, mas ele ficou preso apenas dois.

    — Por dois. Na época em que ele foi julgado, não existia a lei do feminicídio ainda. Eu lutei por 19 anos e seis meses. Faltando seis meses para o crime prescrever, ele foi preso. Resultado da instância internacional, porque eu consegui levar uma denúncia ao Comitê Interamericano de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos. O meu caso foi o primeiro que chegou até aquela instituição e foi trabalhado, aceito, e foram feitas recomendações.

    Você acha que os homens ainda hoje se sentem impunes ou não têm medo da lei?

    É verdadeiro. Isto acontece porque ainda não se investiu na educação para desconstruir essa cultura do machismo. O homem e a mulher são educados dentro da cultura machista. O homem agride a mulher porque viu seu pai bater na sua mãe, seu avô bater na sua avó, e isto ser considerado normal. E a mulher aceitar isto como normal. O índice de assassinatos foi tão grande, e as mulheres sofriam tanto também, que devido à impunidade do meu caso, a luta que conseguimos levar adiante veio para demonstrar que homens e mulheres têm os mesmos direitos. E nós não merecemos sermos agredidas por quem nos escolheu e por quem nós escolhemos para conviver o resto da vida.

    O Poder Judiciário informou que há 36 mil processos na Justiça em SC por violência doméstica, atrás apenas do tráfico de drogas. Você acha que as mulheres estão mais encorajadas, denunciando mais?

    Precisa ver como estão as políticas públicas. Todos os municípios de vocês são assistidos pelo menos pelo Centro de Referência? Porque a mulher muitas vezes nem reconhece que está sendo vítima de violência doméstica. É aquela violência psicológica, ela não entende que tipo de violência é essa. Ela só entende mais sobre a violência física, aquilo que ela sofre diariamente. Mas os outros tipos de violência, sexual, psicológica, moral, ela não tem um conhecimento preciso.

    Queria que você deixasse uma mensagem para as mulheres sobre a importância de se denunciar.

    Gostaria de tocar em um ponto que sempre me preocupou, que é a questão das vítimas invisíveis da violência doméstica. São as crianças. Quantas crianças ficaram na orfandade por conta do assassinato da sua mãe pelo seu pai. É importantíssimo que se tenha também um olhar para essas vítimas invisíveis. São crianças que sofreram, sofrem e sofrerão a ausência da sua mãe.

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