Autor da arte que colore o ovo gigante da 18ª Osterfest, em Pomerode, o escritor catarinense Guilherme Karsten é uma mente inquieta, envolvida em uma série de projetos muito além da criação de novos e divertidos livros infantis. Em entrevista exclusiva, ele fala sobre a carreira, seu papel como autor e sobre o reconhecimento trazido por premiações com o Jabuti, o mais tradicional prêmio literário do país.
Continua depois da publicidade
“Tenho feito coisas inusitadas nos últimos dias. Um ovo gigante e agora um fóssil de dinossauro”, escreveu o autor de livros infantis Guilherme Karsten em um post recente no Instagram. Na verdade, o inusitado é algo que o blumenauense, que já coleciona três Jabutis — o maior prêmio literário do Brasil —, se acostumou a abraçar sempre que a oportunidade aparece, ou quando uma nova ideia surge em sua criativa mente. Foi assim, por exemplo, quando foi convidado para criar a arte do famoso ovo gigante da 18ª Osterfest, que acontece em Pomerode até o dia 5 de abril. Uma coisa leva à outra e, semana passada, lá estava o ilustrador e escritor fazendo uma oficina com crianças no Vila Encantada, parque temático no mesmo município no Vale do Itajaí.
— Para mim é assim, cara: eu topo, depois eu dou um jeito de fazer — resume o artista catarinense.
Pai de dois meninos, Lucca e Vicente, Karsten sempre gostou de desenhar. Só que primeiro foi estudar contabilidade para conseguir um emprego — apesar de se declarar péssimo com números. Pois o primeiro empregador logo percebeu a falta de talento matemático e o apresentou ao Belli Studio, famoso estúdio hoje totalmente dedicado à animações, onde o jovem deu os primeiros passos como ilustrador.
A trajetória começou a ser redesenhada em 2010, enquanto Karsten trabalhava em uma indústria têxtil da região. Cada vez mais certo do que queria fazer, se inscreveu em um concurso de ilustração para livros infantis. Foi o grande vencedor e, ali, conheceu um dos maiores parceiros de criação até hoje, Ilan Brenman. Seis anos depois, em 2016, Guilherme Karsten largava o emprego formal para se dedicar em tempo integral ao que hoje faz com maestria — e com uma produtividade e energia dignas de nota. São mais de 30 livros publicados em mais de 20 idiomas, além de uma série de atividades e projetos que ele busca, a todo momento, colocar em prática. O ovo gigante e o fóssil são apenas os últimos mergulhos de Karsten para além do papel dos livros. O escritor já se envolveu em projetos musicais, coloriu a ala pediátrica do Hospital Santo Antônio, em Blumenau, e também oferece cursos para quem quer seguir o mesmo caminho profissional. Na loja em seu site, há além de livros, camisetas, bottons e pôsteres. Além das próprias histórias, Guilherme Karsten segue também trabalhando em parceria com autores do Brasil e do exterior.
Continua depois da publicidade
— Eu quero fazer mais coisas. Eu gosto muito de pensar no livro saindo do livro assim, sabe? Eu fiz um livro, o que ele pode virar? Pode virar um uma coleção de camisetas, ele pode virar um desenho animado, ele pode virar um filme, uma exposição. Meu papel como autor é estar perto do meu público, é chegar até ele de todas as formas possíveis — explica Karsten.
De um estúdio localizado em um pequeno edifício em uma rua tranquila próxima ao Centro de Blumenau, com uma janela que dá para o pátio de uma escola infantil onde, provavelmente, nenhum aluno sonha que um escritor de livros infantil está ali tão perto, Guilherme Karsten conversou com a NSC sobre carreira, processos criativos e a importância dos livros para momentos de presença familiar. Confira!
Como a literatura infantil entrou na sua vida? Como foi essa transição para se tornar um autor de livros ilustrados para crianças?
Eu trabalhei muito tempo no Belli Studio, por muitos anos. Lá aconteceu a minha mudança de um cara que não gostava de ler, não gostava de livros, e só gostava de desenhar muito. Criei gosto pelos livros, especificamente pelos infantis. Antes, quando era menor, eu tentava, cara, juro que eu tentava. Eu lembro de alugar Os Três Mosqueteiros na escola umas oito vezes. E eu não passava da página 20, me dava medo a quantidade de páginas. Era muito entediante para mim. Mas eu gostava dos desenhos. E aí quando eu saí do estúdio, já tinha virado esse cara que gosta muito de livros, inclusive os sem ilustrações, e pesquisava muitos autores de livros infantis.
Continua depois da publicidade
Em 2009, eu fui trabalhar na empresa (do ramo têxtil) Cativa, em Pomerode. Eu estava trabalhando lá, mas eu já sabia que eu queria mesmo era lançar livros. No ano seguinte participei de um concurso em São Paulo, e o prêmio do concurso era lançar um livro do Ilan (Brenman), que é meu parceiro até hoje — a gente tá fazendo o 20º livro juntos agora. E aí, eu venci esse concurso e entrei no mercado editorial. Comecei a ter contatos com editoras, mas até então eu apenas ilustrava livros escritos por outros autores.
De 2010 a 2016, eu trabalhava na Cativa e ilustrava livros à noite, depois do trabalho. Aí depois que o Lucca, meu primeiro filho nasceu, eu perdi o estúdio em casa, fui trabalhar na sala. Tinha que esperar eles dormirem para poder ficar trabalhando à noite. Minha produção era muito curta, foram poucos livros ao longo de muitos anos. E aí, em 2016, o Vicente estava para nascer. Eu falei: “ou eu largo o meu emprego, ou eu largo a minha vontade de ser ilustrador de livros infantis”. Eu só queria ser ilustrador, não tinha nenhuma intenção de ser escritor, porque eu achei que jamais seria escritor de livros infantis. Achava injusto um cara que até pouco tempo não conseguia ler livros se tornar um escritor.
Eu larguei o emprego e fiquei um ano inteiro trabalhando com livros infantis full-time, ilustrando. Trabalhei muito, fiz muita coisa e li muita coisa. E aí sabe quando você coloca, sei lá, gasolina no motor, vrummmmm, eu comecei a ver livros dos outros, textos dos outros, falava: “cara, aqui deve mudar, deve ser assim, deve ser assim”. Eu concluí: “não vai mexer no texto dos outros, vai escrever tuas histórias”.
E aí, você lança o Carona, teu primeiro livro como ilustrador e escritor, já publicado em vários idiomas e vencedor do Prêmio Jabuti em 2021 na categoria Ilustração. Como surgiu a ideia dele e como surgem suas ideias para escrever os livros?
Continua depois da publicidade
Inclusive, o Carona saiu antes em francês do que em português, no Brasil…. As ideias, às vezes é assim: eu vejo uma imagem, eu vou rolando o Pinterest, penso: “essa imagem que dá uma história”. Tu sente essas coisas. O Carona, ele surgiu tomando banho. Tava tomando banho, veio uma ideia assim, do nada, de um cara que vai viajar para algum lugar, e vai dando carona a cada personagem e no final dá um problema. É um conto cumulativo.
O segundo livro, o AAAHHH!, é baseado no Lucca. Um dia eu cheguei em casa e escuto, lá de baixo, uma criança berrando. Cheguei em casa, era meu filho. Falei: “Cara, isso aqui dá uma história. Uma história, um berreiro que chacoalha o mundo todo, tal, tal, tal”.
Eu vou rabiscando assim, muito rápido. Mas eu me canso fácil de fazer as coisas no papel e vou para o computador.
Hoje eu também tenho um laboratório em casa, que são meus filhos. Muita coisa eu fiz antes de ter essa vivência de pai, mas hoje eu tenho uma ideia e jogo para eles, vejo se a piada funciona ou não, chamo eles para opinar.
Continua depois da publicidade
E como surgiu o projeto para fazer a arte do que é, hoje, o maior ovo de Páscoa do mundo, na Osterfest em Pomerode?
Eu quero fazer mais coisas. Eu gosto muito de pensar no livro saindo do livro assim, sabe? Eu fiz um livro, o que ele pode virar? Pode virar um uma coleção de camisetas, ele pode virar um desenho animado, ele pode virar um filme, uma exposição. Meu papel como autor é estar perto do meu público, é chegar até ele de todas as formas possíveis.
Eu já tinha feito um trabalho na Flipomerode (Festival Literário Internacional de Pomerode), com escolas da cidade. Quando recebi o convite, eu falei: cara, obviamente eu nunca fiz algo desse tipo, mas eu topo. Para mim é assim, cara: eu topo, depois eu dou um jeito de fazer.
O que as premiações no Jabuti representaram, de fato, para tua carreira e teu trabalho?
Eu acho que os prêmios me solificaram como um artista no mercado. Foram dois momentos diferentes: em 2021, em não era ainda bem conhecido no meio, e a premiação abriu muitas portas para editores, muitos contatos. O de 2024, que eu ganhei com o Ilan, foi para consolidar. A minha sensação é de que o mercado me olha agora e pensa: “é, esse cara realmente não tá brincando, ele tá fazendo um trabalho sério”. E aí, os leitores começam também a reconhecer mais. Escolas, pais e tudo mais, sabe? O reconhecimento chega até ao público mesmo.
Continua depois da publicidade
E, depois desse reconhecimento, você se sente mais ou menos pressionado a se manter na competição por prêmios?
Eu faço meu trabalho querendo ser melhor daquilo que eu já fiz. Preciso melhorar aqui, principalmente ilustração. Se tu pegar os meus livros, eles são muito diferentes entre si, assim. As ilustrações são diferentes, elas não têm o mesmo caminho. Acho que aí é o meu passado, a minha formação publicitária: para mim é job. Essa história para mim é esse job aqui. Eu entendo que essa história precisa desse tipo de ilustração aqui. Essa aqui não funcionaria… entendeu?
Já tive a preocupação de ter um traço que fosse reconhecível sempre. Mas quando eu fiz o primeiro livro e eu fui fazer o segundo, bateu essa coisa de “ah, não, já estou enjoado disso. Aqui, já quero outra coisa”. Mas eu entendi assim, entendi e aí fiquei em paz comigo, eu falei: “cara, o negócio é é desbravar novos lugares meus”.
Qual é o papel do livro infantil, para você, na vida de uma criança, na formação cultural delas?
Eu acho que é impossível substituir o livro por outra coisa, impossível. Ele tem sido substituído pelo celular, pelas telas, por uma questão de facilidade: os pais querem mais tranquilidade da vida corrida e soltam o celular, que é um veneno, não é? Mas o livro é imprescindível. O meu olhar é para que os pais aprendam a ter tempo com os filhos. É o que tu faz com os teus filhos. Tu tem tempo de leitura com eles. Tu ensina eles a gostar de ler livros, mas ao mesmo tempo tu tens contato com eles. E esse contato com eles são as memórias que vocês vão guardar juntos. Esse tempo é um tempo que não vai se perder. Eles vão lembrar disso, porque vocês estão se conhecendo. Aí é que me interessa mais. Eu quero ajudar os pais a terem tempo com os filhos.
Continua depois da publicidade
