O inverno começou a dar as caras em Santa Catarina e o cenário já é conhecido de todos nós: os termômetros despencam, as janelas dos ônibus e escritórios se fecham e os vírus respiratórios encontram o ambiente perfeito para circular. É nessa época que o medo de adoecer abre espaço para um mercado extremamente lucrativo, mas cientificamente frágil e sem comprovação nenhuma: o das promessas milagrosas para “blindar” a imunidade

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Estou aqui hoje para te alertar a não cair neste papo furado

Basta abrir as redes sociais para ser bombardeado por receitas de shots matinais de limão com cúrcuma e própolis, suplementos vitamínicos caríssimos e até terapias de soro que prometem uma proteção padrão ouro contra gripes e resfriados. A verdade é que a imunidade humana não se vende em conta-gotas, nem em soros e muito menos em potes de farmácia. Concorda comigo que, se fosse assim, não teríamos mais doenças infecciosas?

Para entender o porquê, precisamos desmistificar o próprio conceito de sistema imunológico. Ao contrário do que o marketing sugere, a imunidade não é um músculo que precisamos “hipertrofiar” ou “turbinar”. O sistema imune é uma rede complexa, inteligente e altamente regulada de células. O que o corpo busca constantemente é o equilíbrio. Um sistema imunológico superestimulado além da conta, ativa reações exageradas do nosso sistema de defesa, e com isso inicia-se alergias e doenças autoimunes.

Além disso, o corpo humano trabalha com limites. Encher o organismo com megadoses de vitamina C ou zinco sem que haja uma deficiência real diagnosticada em exames não trará nenhum benefício extra. O excesso de vitaminas hidrossolúveis não fica acumulado como uma reserva de energia, ele é simplesmente filtrado pelos rins e eliminado na urina, em 24 horas. Isso mesmo: se você ingerir, ou fazer vitamina C hoje, em 24 horas, esta vitamina C estará na sua urina, ou seja, uma “urina cara”

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Como opera o sistema imunológico humano

O organismo humano opera sob um rígido sistema de equilíbrio chamado homeostase. As células de defesa (como leucócitos e macrófagos) possuem receptores de membrana específicos para absorver micronutrientes (como o zinco ou a vitamina C).

Esses transportadores têm um limite de saturação. Quando um paciente sem deficiência clínica recebe uma megadose de vitaminas diretamente na veia, os receptores celulares são saturados rapidamente. O que sobra não entra nas células imunológicas, fica circulando no plasma até que os rins, responsáveis pela filtração e depuração, eliminem o excesso. Biologicamente, não há ganho cumulativo de função imune por superdosagem.

Uma infusão intravenosa de nutrientes não tem a capacidade de acelerar a transcrição genética ou a divisão celular para produzir mais linfócitos em curto prazo. Para que uma célula de defesa seja formada, ativada e especializada contra um patógeno, são necessários dias de estímulo biológico direcionado (o que chamamos de expansão clonal), algo que um aporte agudo de vitaminas na veia é incapaz de provocar.

Como proteger o corpo no inverno?

Mas se as fórmulas mágicas não funcionam, o que realmente protege o nosso corpo no inverno? A resposta está em uma receita muito mais simples, barata e cientificamente comprovada, baseada em quatro pilares fundamentais.

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O primeiro, e mais importante, é a vacinação. A vacina é o único “treinamento” real que o seu sistema imunológico recebe. Ela ensina o corpo a reconhecer o agente infeccioso de forma segura, para que, quando o vírus, bactéria real da aparecer, as suas células saibam exatamente como contra-atacar.

O nosso sistema imunológico opera por meio de especificidade e memória. Quando um patógeno, como o vírus da Influenza, invade o organismo, ele carrega em sua superfície proteínas específicas chamadas antígenos.

O corpo precisa reconhecer esses antígenos para iniciar uma contraofensiva, um processo complexo que envolve a ativação de macrófagos, linfócitos T (que destroem células infectadas) e linfócitos B (responsáveis por produzir anticorpos sob medida). Ao introduzir no organismo o antígeno isolado, o vírus inativado ou uma instrução genética para produzi-lo (como nas vacinas de RNA mensageiro), nós simulamos a invasão sem os riscos da doença.

O sistema imune processa esse material e ativa a cascata de defesa exatamente da mesma forma. A vacinação, portanto, é a única forma biologicamente eficaz de programar a memória imunológica do nosso corpo para se defender.

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Os outros pilares são a base do bom funcionamento biológico: uma alimentação rica em comida de verdade (frutas e verduras da estação entregam nutrientes que o corpo realmente consegue absorver), o manejo do estresse e, o sono de qualidade.

É enquanto dormimos que o corpo produz as citocinas, proteínas essenciais para combater as infecções, sabia?

E o chazinho quente com limão e mel, tão tradicional nas casas catarinenses para aquecer o corpo nos dias frios, é excelente para o conforto térmico e para aliviar os sintomas da garganta. Mas até a sabedoria das nossas avós sabia o seu lugar: ele traz conforto, mas quem previne a doença é a ciência.