Considerados os maiores morcegos do mundo, a “raposa-gigante”, pertencente ao gênero Pteropus, vem chamando a atenção por ser um um reservatório natural do vírus Nipah. A doença ganhou destaque nos noticiários do mundo todo após causar um surto na Índia e Bangladesh. As informações são do g1.
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De acordo com o especialista Roberto Leonan Novaes, doutor em Biodiversidade e Biologia Evolutiva pela UFRJ e pesquisador da Fiocruz, ouvido pelo g1, a espécie Pteropus vampyrus é classificado como o maior morcego do mundo. Isso porque sua envergadura, ou seja, a distância entre uma asa até a outra, pode ultrapassar 1,80 metro.
Veja fotos do “raposa-gigante”
Além disso, eles são bastante diferentes dos morcegos encontrados no Brasil. Isso porque eles não são completamente noturnos como os brasileiros e se orientam baseados na visão.
— Enquanto os morcegos do Brasil são completamente noturnos e usam a ecolocalização (radar) para se orientar, as raposas-voadoras se orientam pela visão. Elas têm olhos grandes e comportamento crepuscular, sendo ativas até quando ainda há luz do sol — diz Leona ao g1.
Outro fato curioso sobre a espécie é que, durante sua evolução, eles ganharam unha no dedo indicador, enquanto os demais morcegos possuem apenas unhas no polegares, pontua o especialista.
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Diferente do que pregam os filmes de terror e fantasia, o morcego conhecido como “raposa-gigante” se alimenta somente de frutos, néctar e pólen.
O biólogo também explica como estes animais carregam vírus como como Nipah e Hendra e, ao mesmo tempo, não ficam doentes. Acontece que, para conseguir sustentar o corpo no ar espécies como esta precisam ter o metabolismo muito acelerado, o que aumenta a temperatura do corpo.
— Essa condição é quase como se os morcegos estivessem sempre com uma febre. Isso acabou selecionando vírus mais resistentes à temperatura em seus organismos — explica Leonan.
Para o biólogo, o grande problema não é o animal, mas a invasão do habitat natural da espécie. Por isso, ele e outros especialistas defendem que os animais não devem ser atacados ou mortos.
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— A diminuição de morcegos no mundo não o fará mais seguro. Ao contrário: fará mais pobre, mais contaminado e com mais riscos para nossa saúde. Manter a floresta em pé é manter o filtro ecológico que impede esses vírus de chegarem nas pessoas — alerta Leonan.
O biólogo também ressalta que os vírus sempre existiram e estão no nosso planeta muito antes de nós.
— O problema não é a existência dos vírus, mas sim a forma como estamos alterando a natureza e aumentando as chances desses vírus saltarem para novos hospedeiros, como os humanos, e causarem doenças — explica.
Conforme informações do g1, o surto do vírus Nipah está associado ao consumo de seiva de tamareira contaminada e, também, por conta da destruição do meio-ambiente.
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— O problema não está nos morcegos, mas na destruição das florestas. O desmatamento empurra os animais silvestres a viverem cada vez mais perto das cidades — comenta o biólogo.
Qual a origem do vírus Nipah?
O Nipah foi identificado pela primeira vez em 1999, durante um surto entre criadores de porcos na Malásia. Desde então, foram registrados surtos esporádicos em países como Bangladesh, Índia, Filipinas, Singapura e Malásia. Embora os surtos sejam localizados, os morcegos hospedeiros do vírus estão distribuídos por diversas regiões da Ásia e do Pacífico Sul, incluindo Austrália, Tailândia, Indonésia e Camboja.
No primeiro surto documentado, a infecção ocorreu por meio do consumo de porcos contaminados. Já em episódios mais recentes na Índia e em Bangladesh, a principal fonte de transmissão foi associada ao consumo de frutas ou derivados contaminados por saliva ou urina de morcegos.
Transmissão entre humanos
A transmissão de pessoa para pessoa também já foi amplamente registrada, sobretudo entre familiares, cuidadores e profissionais de saúde. Em um surto ocorrido na Índia em 2001, cerca de 75% dos casos envolveram funcionários ou visitantes de um hospital. Em Bangladesh, entre 2001 e 2008, aproximadamente metade das infecções foi resultado do contato direto com pacientes infectados.
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Quais os sintomas do vírus Nipah?
Os sintomas iniciais costumam incluir febre, dor de cabeça, dores musculares, vômitos e dor de garganta. Com a progressão da doença, podem surgir tontura, sonolência, confusão mental e sinais neurológicos, indicativos de encefalite aguda. Em alguns casos, os pacientes desenvolvem pneumonia atípica e insuficiência respiratória grave.
Nos quadros mais severos, há ocorrência de convulsões e encefalite, que podem evoluir rapidamente para coma em até 48 horas. O período de incubação varia, em média, entre 4 e 14 dias, mas já foram registrados casos com até 45 dias. A taxa de letalidade do vírus é estimada entre 40% e 75%, dependendo das condições de vigilância epidemiológica e da capacidade de atendimento médico local.
Qual o tratamento?
Atualmente, não existem vacinas ou medicamentos específicos contra o vírus Nipah. A OMS classifica o agente como uma das doenças prioritárias para pesquisas globais. O tratamento disponível se baseia em cuidados intensivos de suporte, voltados principalmente para o controle das complicações respiratórias e neurológicas.




