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    CRIANÇAS 

    O que está assustando os pediatras

    Todos sabemos que, mesmo antes da epidemia, os pediatras estavam tendo trabalho para convencer os pais da importância de vacinar as crianças

    18/05/2020 - 14h23 - Atualizada em: 19/05/2020 - 11h27

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    Por The New York Times
    pediatras
    (Foto: )

    *Por Perri Klass, M.D.

    Os pacientes pediátricos não são o grupo mais doente no momento, ou o que está mais em perigo. Mas os pediatras estão preocupados com as crianças e com as famílias, agora e no futuro. Em nossas teleconferências e reuniões pelo Zoom, todos estão apreensivos com o estresse das famílias na presente situação, com o que ouvimos de nossos pacientes ou de seus pais sobre a tensão de ficar em casa – ou sobre a tensão das famílias cujos pais precisam sair de casa para trabalhar. Sobre os pais perdendo o emprego e as famílias não tendo o suficiente para comer.

    Deixem-me separar as algumas das principais preocupações específicas – sem tentar classificá-las – que surgem repetidas vezes para as pessoas que lidam com crianças e com a saúde delas.

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    Faltam imunizações e as taxas de imunização estão caindo

    Devo começar com o que todos acreditamos ser o maior triunfo da pediatria: a capacidade de proteger as crianças das doenças que costumavam deixá-las doentes e até matá-las. Esta pandemia faz com que nos lembremos, todos os dias, de que vírus e bactérias podem nos causar mal, e de que infecções podem se espalhar nas populações sem imunidade.

    A dra. Sally Goza, presidente da Academia Americana de Pediatria, que atende em um consultório particular em Fayetteville, na Geórgia, lembrou-se das doenças devastadoras que costumava ver em bebês e crianças pequenas nos anos 80. "Se não aplicarmos a vacina contra a meningite nos bebês, poderemos ver a meningite reaparecer. No fim da minha carreira, não quero reencontrar todas essas doenças que vi no início dela."

    O dr. Hans Kersten, professor de pediatria na Universidade Drexel e no Hospital Infantil St. Christopher, na Filadélfia, escreveu que, apesar de ainda estar vendo crianças com menos de dois anos em sua clínica, muitas têm faltado às consultas e as crianças mais velhas não estão recebendo as vacinas que geralmente são dadas aos quatro e aos onze anos de idade.

    Todos sabemos que, mesmo antes da epidemia, os pediatras estavam tendo trabalho para convencer os pais da importância de vacinar as crianças. Agora, embora muitos de nós sonhemos com uma vacina contra o coronavírus, muitas famílias têm medo de ir a qualquer lugar perto de clínicas ou hospitais, aumentando o espectro de infecções que estão ressurgindo, como o sarampo, a coqueluche, a meningite e a sepse bacteriana.

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    Trauma emocional, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático

    Goza disse que até crianças de três, quatro e cinco anos expressam ansiedade em relação ao vírus. As crianças estão vivendo em um mundo ansioso – como todos nós –, com seus pais assustados e agitados. Muitas crianças – como muitos adultos – estão perdendo as pessoas que amam ou, pelo menos, têm medo de perdê-las. Não há dúvida de que os pais, em todos os lugares, estão fazendo o melhor possível, mas as crianças precisarão de muita ajuda, agora e no futuro, para lidar com seus sentimentos e medos.

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    Impactos no desenvolvimento da pandemia e especialmente do distanciamento social

    Como as crianças crescem e mudam, suas necessidades emocionais – e suas vulnerabilidades – também mudam. "Minha maior preocupação com as crianças agora é que elas percam tantas conexões críticas – conexões com os pais que são estressadas pelas demandas que enfrentam no momento, conexões com os demais familiares e com outras crianças –, todas tão fundamentais para o desenvolvimento social e emocional", escreveu a dra. Danielle Erkoboni, pediatra geral do laboratório de políticas do Hospital Infantil da Filadélfia.

    A dra. Marilyn Augustyn, pediatra de desenvolvimento e comportamento do Centro Médico Boston, classificou suas principais preocupações relacionadas ao desenvolvimento por idade: que crianças pequenas "aprenderão que precisamos ter medo de outras pessoas, usar máscaras e atravessar a rua caso vejamos pessoas na mesma calçada em que estamos"; que crianças na idade pré-escolar, que tendem ao pensamento mágico, pensarão que as privações – como playgrounds fechados com cadeados – existem porque elas fizeram algo ruim; e que crianças mais velhas e adolescentes "terão consumido volumes astronômicos de mídia on-line e se esquecerão de como se desconectar".

    Populações vulneráveis e disparidades econômicas

    Todos entendemos as maneiras pelas quais a pobreza é venenosa para as crianças e estamos em uma pandemia que aparentemente aumentará a pobreza e atingirá mais fortemente as comunidades pobres e as minorias. Mesmo antes do coronavírus, os EUA tinham uma taxa de pobreza infantil muito alta e as famílias com crianças – especialmente as pertencentes às minorias – precisarão de ajuda sistemática e extraordinária posteriormente; caso contrário, os efeitos intergeracionais perdurarão por longo tempo.

    O dr. Daniel Taylor, professor associado da Universidade Drexel e do Hospital Infantil St. Christopher, escreveu que sua maior preocupação era "a ampliação, pós-Covid, das desigualdades existentes nos cuidados de saúde para crianças pobres e crianças negras, para as quais não há qualquer plano viável, vontade política ou financiamento para recuperação".

    "Fico preocupado com a falta de uma rede de segurança social não apenas para as crianças, mas também para as comunidades em que vivem, que são vitais para que elas consigam prosperar", escreveu o dr. Nathan Chomilo, pediatra do Park Nicollet, em Minneapolis, e médico diretor do programa Medicaid de Minnesota. Ele explicou que arriscamos ter outra geração com "uma lacuna de oportunidades que a impeça – e a nós, como sociedade – de atingir todo o seu potencial".

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    Perda escolar e disparidades educacionais

    Ter aulas on-line não está sendo fácil para aluno nenhum, mas é mais difícil para as crianças mais vulneráveis, aquelas em situação de pobreza que já correm maior risco de ter problemas escolares e frequentam escolas com menos recursos – e geralmente moram em casas com pais que têm outras pressões. A falta de serviços ou dispositivos de internet, o estudo em uma casa com muitas pessoas, os problemas de aprendizado não resolvidos – tudo isso torna as coisas muito mais difíceis. Essas são as crianças que precisarão de ajuda sistemática para chegar ao nível educacional em que deveriam estar – e progredir.

    Abuso infantil

    As famílias estão sob estresse. As crianças estão em casa com pais que estão estressados. E as verificações e consultas estão em falta – mesmo os exames pediátricos não estão se realizando presencialmente. "Não há professores, terapeutas, treinadores ou outros profissionais para cuidar dessas crianças, e não há visitas para que elas possam encontrá-los", escreveu Kersten.

    Faltam tratamentos e terapias

    Goza mencionou uma criança que recentemente ficou sabendo, em seu consultório, que tem leucemia e outra que havia quebrado um braço, mas cujos pais estavam com medo de ir ao pronto-socorro. "Não é porque existe uma pandemia que não há outros diagnósticos", completou.

    A dra. Julia Chang-Lin, pediatra do Hospital Bellevue, cuida de muitas crianças com necessidades especiais, que agora estão tendo sessões de fisioterapia, de terapia ocupacional e de fonoaudiologia por meio de telas; um de seus pacientes tentou abraçar o terapeuta na tela e, quando viu que não era possível, perdeu o interesse em participar. Ela disse que essa falta de atendimento presencial com um terapeuta treinado era difícil para as crianças com necessidades especiais, embora tenha escrito: "Dou crédito aos pais por intensificarem e fazerem tudo o que está ao alcance deles para sustentar seus filhos."

    Preocupações com o que o futuro nos traz

    Todos nesta história sabem que os pais estão dando duro e andam preocupados. Meus colegas que estão ligando para os pacientes em casa estão dando seu máximo – como professores, terapeutas, como todos que preferem se encontrar pessoalmente – para oferecer orientação e ajudar as famílias a atravessar esse momento estranho e assustador. Os consultórios pediátricos estão fazendo o possível para administrar as vacinas com segurança, estabelecendo horários especiais para não doentes, reduzindo o tempo na sala de espera e vacinando no estacionamento ou na calçada.

    Algumas dessas preocupações serão difíceis de resolver até que o mundo possa se abrir com um pouco mais de segurança, mas elas precisarão ser abordadas. A dra. Trude Haecker, diretora médica de serviços globais para pacientes do Hospital Infantil da Filadélfia, perguntou: "À medida que aumentamos nossa dependência coletiva das interações digitais por necessidade, como será o futuro das crianças que estão longe de seu grupo de apoio estendido por tantos meses?"

    Em geral, os pediatras parecem preocupados com o fato de que, nesta crise, trancadas em casa, as crianças correm o risco de se tornar invisíveis. Elas não são funcionários essenciais ou heróis da linha de frente, não são eleitores ou consumidores, mas são nosso futuro coletivo.

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