Imponente, silenciosa e carregada de significado, a Igreja Matriz São João Berchmans não é apenas um espaço de fé. É um testemunho vivo da coragem de uma comunidade que, com poucos recursos, construiu uma das mais impressionantes obras religiosas do Brasil. Considerada a maior igreja totalmente de madeira da América Latina, o templo se tornou símbolo de identidade, memória e resistência em São João do Oeste, no Extremo-Oeste de Santa Catarina.

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Quase oito décadas após sua inauguração, a estrutura segue de pé, preservando traços originais e encantando visitantes que chegam à região, muitos deles atraídos pelas Termas São João e surpreendidos ao encontrar uma obra tão singular.

Das primeiras famílias à fé compartilhada

A história da igreja começa ainda antes da construção atual. Em 1934, apenas dois anos após a chegada das primeiras famílias à comunidade, surgia a primeira estrutura religiosa. Simples, funcional e carregada de significado.

— Como em todas as colonizações de origem germânica, sempre depois do rancho construído para a família, havia uma casa construída que servia de escola e também, ao mesmo tempo, de capela — explica José Flávio Weber, coordenador da Pastoral Paroquial.

Com apenas 12 famílias, a comunidade ergueu a chamada “escola-capela”: durante a semana, o espaço era dedicado à educação; aos domingos, à fé. Um modelo que se repetiu em diversas localidades da colonização Porto Novo.

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O desafio de construir algo grandioso

A atual igreja começou a ser planejada em 1943 e teve sua construção iniciada em 1945. Na época, a comunidade ainda não ultrapassava 60 famílias. Mesmo assim, o sonho era grande: transformar São João em uma paróquia. O obstáculo? A falta de recursos financeiros.

— Como ninguém tinha dinheiro, a única coisa que os agricultores tinham para vender na época era a produção de fumo e banha. Isso mal dava para sustentar a família — relembra Weber.

Mas havia algo que não faltava: madeira, mão de obra e determinação.

— Madeira em abundância, porque nenhuma peça precisou ser trazida de mais de cinco ou cinco e meio quilômetros. E o desafio estava lançado. E… mãos à obra. Foram e fizeram — conta.

O resultado foi uma construção ousada para a época: uma nave com 28 metros de comprimento por 14 de largura, além de sacristias e altar. Um projeto que impressiona ainda hoje.

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Arquitetura europeia em pleno interior catarinense

A igreja carrega características marcantes da arquitetura germânica, trazidas pelos imigrantes que participaram da obra. Entre os destaques está a torre com formato de “capacete renano”, típica da região da Renânia, na Alemanha.

— Inclusive a torre segue um modelo característico de lá. Isso dá um charme especial, uma identidade única — destaca Weber.

A construção foi liderada por mestres experientes, como Franz Deiss, Anton Schuler e Hans Merkel, além do alemão Franz Theis, especialista em edificações em madeira, que atuou como responsável técnico da obra, uma espécie de engenheiro da época.

Outro nome importante foi o padre Vendelino Yunus, ex-capelão da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, que passou a acompanhar os trabalhos após retornar ao Brasil.

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Um marco reconhecido além da comunidade

Com o passar dos anos, a grandiosidade da igreja chamou atenção também fora da região. Estudos e pesquisas apontaram que se trata da maior igreja totalmente construída em madeira da América Latina.

— Para nós é um ponto de orgulho. Mas temos que mantê-la. Esse é o desafio — afirma Weber.

A relevância histórica chegou a despertar o interesse da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que, em determinado momento, estudou a possibilidade de tombamento do prédio como patrimônio histórico.

Entre o tempo e a preservação

Manter uma estrutura de madeira por tantas décadas exige cuidados constantes. Ao longo dos anos, partes da igreja precisaram ser restauradas, especialmente tábuas laterais e elementos afetados pelo tempo.

Um dos episódios marcantes ocorreu em 1994, quando um temporal destruiu parte da cruz original, que era de madeira.

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— Inclusive, a cruz que tem em cima desta igreja foi colocada por mim depois desse episódio — relata Weber. Hoje, a cruz é metálica, a única parte que não mantém o material original. Outro desafio constante é a infiltração.

— Qualquer infiltração pode causar grandes danos. A madeira vai se deteriorando, perde resistência. Isso não pode acontecer — explica.

Igreja Matriz São João Berchmans
Igreja Matriz São João Berchmans, em São João do Oeste, é considerada a maior igreja totalmente de madeira da América Latina (Foto: Portal do Turismo, Divulgação)

Um patrimônio vivo

Mais do que um monumento, a Igreja Matriz São João Berchmans segue sendo um espaço ativo de fé e encontro comunitário. Ao mesmo tempo, se consolida como um dos principais cartões-postais do município.

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— A igreja tem exatamente as características da época em que foi construída. Era o material que o povo tinha. E, desse material, surgiu essa obra, com esse capricho — resume Weber.

Em meio ao avanço das construções modernas, a igreja permanece como um elo entre passado e presente.

— E ali está ela: firme. Feita de madeira, mas sustentada por algo ainda mais forte, que é a história de um povo — conclui.

No coração do Extremo-Oeste

Localizado no Extremo-Oeste de Santa Catarina, o município de São João do Oeste é conhecido por preservar com orgulho as tradições da colonização germânica, presentes na língua, na arquitetura e nos costumes da comunidade. Com pouco mais de 6 mil habitantes, a cidade se destaca pela tranquilidade, organização e forte vínculo cultural entre os moradores.

Além do patrimônio histórico, como a Igreja Matriz São João Berchmans, o município também atrai visitantes pelas águas termais. As Termas São João são um dos principais pontos turísticos da região e recebem turistas durante todo o ano, muitos deles aproveitando a estadia para conhecer a igreja e outros atrativos locais.

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Para quem vem de outras regiões do Estado, o acesso é feito principalmente pela SC-163, a partir de cidades como Itapiranga e Iporã do Oeste. Já quem parte de Chapecó, maior polo do Oeste catarinense, percorre cerca de 140 quilômetros até chegar ao destino.